A Bacia do Rio Negro se estende pelos estados do Amazonas e de Roraima, no Brasil, e também avança pelos territórios vizinhos da Colômbia, Venezuela e Guiana. Na sua porção no Amazonas, a bacia é uma das regiões mais preservadas de todo o bioma amazônico, com biodiversidade incalculável. Por outro lado, a parte da bacia localizada em Roraima vem sofrendo grande degradação ambiental causada pelo garimpo ilegal de ouro, desmatamento e roubo de terra, ou "grilagem de terra".
Aproximadamente 68% da Bacia do Rio Negro no Brasil está formalmente protegida por um conjunto de unidades de conservação e terras indígenas legalmente reconhecidas. A diversidade cultural da região é enorme: ali vivem 45 povos indígenas e estão localizados dois patrimônios culturais do Brasil – a Cachoeira de Iauaretê e o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro – além do ponto mais alto do Brasil, o Pico da Neblina, lugar sagrado do povo Yanomami.
No Rio Negro, o ISA mantém trabalho de longo prazo e parceria institucional - que nos enche de orgulho - com associações indígenas e suas lideranças, entre elas a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), a Hutukara Associação Yanomami (HAY) e o Conselho Indígena de Roraima (CIR).
Mantemos escritório e equipe na cidade de São Gabriel da Cachoeira (AM), considerado o município mais indígena do Brasil, localizado no Alto Rio Negro. De São Gabriel, também descemos com as águas do Negro para apoiar comunidades e associações indígenas dos municípios de Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos, ambos no Amazonas. Em 2009, o ISA incorporou a organização Comissão Pró-Yanomami (CCPY), sua equipe e legado, abrindo escritório em Boa Vista (RR) e passando a atuar diretamente com o povo Yanomami e outros povos de Roraima.
Atualmente, o ISA atua na Bacia do Rio Negro com a promoção de processos formativos, articulando parcerias para a proteção dos territórios indígenas, valorização da diversidade socioambiental, segurança alimentar das comunidades, desenvolvimento de cadeias de valor da economia da floresta para geração de renda e produção de pesquisas interculturais que dêem visibilidade aos conhecimentos tradicionais e modos de vida das populações que, há muitos anos, mantém as florestas da região preservadas.
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Povos Nadëb e Kanamary (AM) lançam planos de gestão e reforçam governança de territórios
Evento em Manaus reuniu lideranças indígenas, organizações parceiras e instituições públicas para apresentar Planos de Gestão Territorial e Ambiental das Terras Indígenas Paraná do Boá-Boá e Uneiuxi
(E) Dona Socorro Nadëb, da comunidade do Roçado, na TI Uneiuxi, fala em evento em Manaus | Natália Pimenta / ISA
Os povos Kanamary e Nadëb lançaram, nesta terça-feira (7), em Manaus (AM), os Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs) das Terras Indígenas (TIs), Paraná do Boá-Boá, localizada no município de Japurá, e Uneiuxi, em Santa Isabel do Rio Negro, no extremo noroeste do Amazonas.
A TI Paraná do Boá-Boá é compartilhada pelos povos Kanamary e Nadëb, enquanto a TI Uneiuxi é ocupada pelo povo Nadëb, considerado de recente contato.
Realizado pela Articulação das Organizações e Povos Indígenas do Amazonas (Apiam) e Amazon Conservation Team – Brasil (ACT-Brasil), o evento reuniu lideranças indígenas, organizações parceiras e representantes de instituições públicas para discutir compromissos com a implementação dos planos e o fortalecimento da governança territorial indígena.
Construídos coletivamente pelos povos originários a partir dos conhecimentos tradicionais, das necessidades das comunidades e do diálogo entre diferentes gerações, os PGTAs estabelecem estratégias para temas como gestão ambiental, educação, saúde, segurança alimentar, geração de renda, proteção territorial e valorização cultural.
No encontro, uma roda de conversa debateu as alianças necessárias para transformar as propostas registradas nos PGTAs em políticas públicas e ações concretas nos territórios, com o objetivo de aproximar organizações indígenas e instituições públicas responsáveis por apoiar a implementação da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI).
Construção coletiva
Natália Pimenta, assessora do Instituto Socioambiental (ISA) no Amazonas, relembra que o PGTA da TI Uneiuxi é resultado de um longo processo de construção coletiva realizado entre 2018 e 2022, envolvendo lideranças, jovens, mulheres e homens das comunidades Roçado e São Joaquim, em cooperação com a Coordenadoria das Associações Indígenas do Médio e Baixo Rio Negro (CAIMBRN), Associação das Comunidades Indígenas do Médio Rio Negro (ACIMRN).
Natália destacou a importância do momento para o movimento indígena e para o fortalecimento da gestão territorial autônoma dos povos, seguindo seus planos de vida descritos nos PGTAs. Ela lembrou ainda que o plano da TI Paraná do Boá-Boá foi publicado na própria língua Nadëb. “[O documento] registra não apenas prioridades para o bem-viver, mas também a memória, a língua, os conhecimentos tradicionais e a relação histórica do povo com o rio Uneiuxi, reafirmando o território como espaço de vida, identidade e continuidade cultural", afirmou.
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Lideranças indígenas e parceiros no evento de apresentação de PGTAs em Manaus | Gildo Feitosa / Apiam
Eduardo Fonseca Castelo, liderança Nadëb, disse que o evento representou uma oportunidade para que os próprios povos indígenas apresentassem suas prioridades diretamente às instituições responsáveis por apoiar sua implementação. Segundo ele, a presença de órgãos públicos, organizações indígenas e parceiras fortalece o compromisso com a garantia de direitos e a execução das ações previstas nos planos.
"É importante que todos saibam a nossa realidade e também como nós queremos ter os nossos direitos e como pensamos o nosso futuro. Daqui para frente, podemos cobrar dessas pessoas que se comprometeram. Muitas vezes, quando não temos essa ferramenta, nossos direitos são negados e violados. Agora esperamos mais atenção para aquilo que é nosso direito, como educação, saúde, segurança, proteção do território, manejo e geração de renda", concluiu.
Sandra Gomes Castro é liderança do povo Baré, de Santa Isabel do Rio Negro, e conta que acompanhou o processo de construção do PGTA Nadëb ao longo de quase oito anos. Ela destacou que o documento, que reúne os anseios das comunidades, agora precisa sair do papel. "O PGTA não é apenas o futuro das próximas gerações. Ele já é o presente. Tudo o que foi construído pelos próprios Nadëb agora precisa ser vivenciado e implementado", comentou.
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Sinédrio Nadëb, da aldeia Jutaí, da TI Paraná do Boá-Boá, no evento em Manaus | Natália Pimenta / ISA
Sandra ressaltou ainda que a implementação dos planos é um compromisso compartilhado entre lideranças indígenas, organizações e instituições públicas, especialmente diante da vulnerabilidade do povo Nadëb, considerado de recente contato.
"As lideranças precisam assumir esse compromisso para que o PGTA fortaleça a defesa do território, da cultura, da língua e da segurança do povo", finalizou.
Atuando há mais de 30 anos na região do Rio Negro, em uma parceria histórica com a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), o ISA apoiou a elaboração de 12 Planos de Gestão Territorial e Ambiental em conjunto com organizações indígenas e outras instituições, fortalecendo processos de planejamento conduzidos pelos próprios povos indígenas.
Os 12 PGTAs da região do Alto e Médio Rio Negro podem ser acessados e obtidos na íntegra no acervo do ISA e no site da Foirn.
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Adeus à Dona Oscarina, a mulher que conversava com a Avó Argila
A mestra ceramista, pesquisadora indígena e liderança Desana faleceu no último sábado (4), na comunidade de Cunuri, em São Gabriel da Cachoeira (AM)
"Duhiti mu Ñekõ! Yu mu parãmẽo umukohorimahsõ Yu wirõ ni Umusipo ni mu parãmẽo. Mu tiro a’tiapu muye di’íre di’í yasasere mure serĩgo a’tiapu, Ñeko"
"Vovó, a senhora se encontra aí? Sou sua neta Gente do Universo, vim atrás de ti Eu sou a Desana Umusipo, sua neta favorita Eu vim atrás da senhora para pedir e buscar argila azul, minha avó"
Dona Oscarina narrando o pedido de licença para Avó Argila, Di'i Mahso, que, de acordo com a narrativa de origem, foi quem ensinou às mulheres como encontrar a argila, preparar a massa e produzir os primeiros artefatos de cozinha. É esse diálogo que garante uma boa coleta e a proteção para que as peças sejam produzidas sem rachaduras.
Texto atualizado em 7/7/2026, às 16:35
Oscarina Caldas Azevedo, ou Umusipo, seu nome de benzimento Desana, era carinhosamente chamada de Dona Oscarina. Nasceu em 1967, em Santa Ana do Médio Tiquié, e cresceu na comunidade de Cunuri, no mesmo rio, no município de São Gabriel da Cachoeira, no extremo noroeste do Amazonas, na região conhecida como “Cabeça de Cachorro”. Aos cinco anos, começou a frequentar a escola local; aos 13, em 1980, foi para Pari Cachoeira estudar na missão salesiana, no Colégio Dom Bosco. Foi nas férias seguintes, aos quinze anos, que conheceu Rafael Azevedo, com quem foi aconselhada a casar e com quem construiria uma vida inteira de parceria.
Grande sábia e mestra ceramista, com outras mestras, moldaram a renovação que segue em andamento da rede de produção de cerâmica da bacia do Rio Uaupés, memória guardada em Cerâmica Tukano, livro do qual também é uma das autoras.
Em 2016, iniciou suas atividades como pesquisadora na rede de Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (Aimas) do Rio Tiquié. Durante esse período, foi uma das poucas mulheres pesquisadoras indígenas na sua calha de rio. Um dos seus focos era a pesquisa sobre agricultura indígena.
Por anos, além de cultivar e cuidar das suas roças com muito esmero, monitorava os ciclos das roças junto com seu marido, Sr. Rafael, também Aima. Seus diários também são registros da vida familiar, dos trabalhos comunitários, do processamento da comida e do trabalho como ceramista e pesquisadora.
Em seus escritos, alterna trechos de beleza e dureza: "todas as manivas estão com flores e muitas abelhas zoando nas flores. Achei ótimo ver essas abelhas cantando e tirando mel nas flores. Gostei muito da minha roça! (…) Apanhamos muita fumaça e calor do fogo, terminando depois de tanto sofrimento. Assim é a vida de trabalho dos agricultores”.
Dona Oscarina sustentava com orgulho suas tantas funções e sonhava em registrar em livros os saberes que carregava consigo, como me confidenciou em uma entrevista no ano passado: “para mim, esse ponto de ser Aima é um conhecimento que eu estou buscando. Não somos só Aimas, somos pesquisadores também. Ao mesmo tempo, somos orientadores. Eu sinto assim. Se eu soubesse escrever bem, não sei quantos livros que já estão dentro da minha cabeça”.
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Dona Oscarina | Ana Amélia Hamdan / ISA
Um desejo que, em alguma medida, realizou ao contribuir com as edições da revista de pesquisa intercultural Aru e com seus diários de pesquisa, que permanecem como registros preciosos de seus conhecimentos e do olhar atento que tinha para a vida ao seu redor.
Sempre com muita coragem, firmeza e uma habilidade oratória cativante, Oscarina levou a voz do alto Rio Negro a espaços importantes como a COP30 e o Congresso Internacional de Etnobiologia, realizados em Belém. Fez também viagens internacionais a Berlim e Londres, visitando coleções bioculturais do Museu Etnológico de Berlim, Jardim Botânico Real de Kew e Museu Britânico. Viajou ainda a Letícia para intercâmbio de experiências de países do norte da Amazônia, e ao Rio Pira-Paraná, ambos na Amazônia colombiana, para encontro de mulheres pesquisadoras indígenas.
Oscarina foi muito querida, respeitada e admirada por mulheres e homens, indígenas e não indígenas. Não tenho dúvidas: foi uma das grandes diplomatas do Rio Negro, uma pessoa que sabia transitar e se comunicar entre mundos. Lembro nas nossas tantas conversas a sua indignação com injustiças sociais, e como ela se referia à importância das lutas do movimento indígena.
Quando penso nela, lembro da sua sinceridade afiada, sua generosidade e seu senso de humor maravilhoso. Sorte daquelas e daqueles que puderam rir junto com ela. Uma grande amiga e para mim minha família no Rio Tiquié.
Dona Oscarina deixará saudades e seus conhecimentos permanecem vivos nas suas filhas, filhos e netos, e nas muitas pessoas que puderam aprender com ela.
Depoimentos
“Dona Oscarina Caldas Azevedo foi uma importante di’i yegó (fazedora de cerâmica) do Triângulo Tukano. Ela ancestralizou, mas deixou conosco o conhecimento do fazer cerâmica, que fortaleceu e inspirou a prática na região. Não a conheci pessoalmente, mas a encontrei nas falas de outras mulheres, na memória de sua filha Solange, uma das di’i yegó de Taracuá e nas pesquisas em que Dona Oscarina foi interlocutora e referência dos saberes femininos.
Minha conterrânea do povo Dessana permanecerá viva em nossas memórias por meio da cerâmica, registrada em livros, artigos, dissertações, tese e, sobretudo, nas práticas cotidianas que atravessam gerações. Para nós indígenas, os conhecimentos das nossas avós, mães e tias não morrem, são heranças preciosas transmitidas pela oralidade e pelo fazer diário. Assim, Dona Oscarina seguirá presente em nossos corações e na argila moldada pelas mãos das novas gerações”.
Sileusa Monteiro Dessana, antropóloga e pesquisadora do fazer cerâmica _________________________________________________________________________
“Com muita saudade e gratidão, nos despedimos de Dona Oscarina, uma mulher de coração enorme e dedicação exemplar. Como Aima, ela exerceu sua função com muito zelo, responsabilidade e amor, cuidando com carinho e atenção de todos que precisaram do seu auxílio. Seu trabalho foi marcado pela generosidade, paciência e compromisso – qualidades que refletiam o seu jeito de ser em tudo o que fazia. Deixa como legado o exemplo de serviço, bondade e força. Sua presença, seu cuidado e o seu sorriso ficarão para sempre guardados no coração da família, amigos e de todos que tiveram a honra de conhecê-la e receber o seu apoio.
Era a única mulher guardiã de conhecimento ancestral feminino da nossa região do Di'a wií. Aima que sempre atuou incansavelmente entre muitos Aimas de cinco regionais da FOIRN[Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro], perdemos essa mulher que representou todas as mulheres desta região e nos deixa saudade imensa. E também ela estava completando nove anos de carreira na pesquisa intercomunitária do Rio Negro. Que Deus lhe conceda a paz eterna e o descanso merecido. Sua luz continuará brilhando em cada lembrança. Sua memória viverá para sempre.”
Roberval Sambrano Pedrosa, Aima do Rio Tiquié _________________________________________________________________________
“A Oscarina ocupou por muito tempo o lugar da única mulher Aima, e por isso também foi uma grande companheira minha nos encontros pelo Tiquié. Além de sua gentileza marcante, era uma pessoa engraçada, afetuosa e extremamente generosa no compartilhamento de seus conhecimentos, uma mulher de muitos talentos.
Tenho peças de cerâmica feitas por ela que guardo como verdadeiros tesouros. Em cada encontro dos Aimas, encantava a todos com sua sabedoria, sua experiência e sua disposição em ensinar, deixando sempre uma marca de cuidado e grandeza.
Comigo, em especial, sempre teve uma paciência admirável para explicar desde as coisas mais simples até os conhecimentos mais complexos. Sua capacidade de transmitir esse conhecimento era um reflexo de sua inteligência.
Seu trabalho e sua presença ao longo de tantos anos deixam um legado imenso e inesquecível. O espaço que Dona Oscarina ocupou jamais será preenchido, e sua ausência será profundamente sentida.
Obrigada, Dona Oscarina, por toda a generosidade com que compartilhou seus conhecimentos e por todo afeto que me mostrou. Seu legado seguirá ecoando pela terra, na nossa memória e nos nossos corações.”
Marina spindel, ex-assessora do Rio Tiquié _________________________________________________________________________
“Foi um choque receber a notícia do falecimento da Dona Oscarina. Durante cinco anos trabalhei com ela e seu marido, Rafael, em uma pesquisa sobre a agricultura indígena no rio Tiquié, na qual registramos a produção de suas roças, o tempo dedicado às atividades agrícolas e diversos outros aspectos do sistema agrícola tradicional. Nesse período, fiquei muitas vezes hospedado em sua casa, o que me deu a oportunidade de conhecer melhor Dona Oscarina e sua família acolhedora.
Dona Oscarina, Desana do clã Yugu Wirã, era uma mãe dedicada, esposa firme, trabalhadora, agricultora e ceramista. Além disso, foi uma pioneira. Tornou-se a primeira mulher a atuar como Aima e também foi bolsista em etnobotânica no projeto O valor das coleções bioculturais no Brasil: integrando diversas bases de dados. Guerreira como era, não se intimidou diante de seus colegas homens em uma atividade que, até então, era predominantemente masculina.
O Rio Tiquié ficará um pouco mais vazio sem a presença dela. Meus sentimentos ao Rafael, às filhas e aos filhos, aos demais familiares e a todos que tiveram o privilégio de conviver com Dona Oscarina.”
Pieter Van der Veld, ex-assessor no Rio Tiquié _________________________________________________________________________
Conheci Dona Oscarina, inicialmente, de forma indireta, acompanhando sua trajetória desde os primeiros anos de atuação como Aima da Coordenadoria DIA WI'Í. Sempre a admirei. Ela foi uma mulher sábia, guerreira e determinada, que aceitou o desafio de se tornar pesquisadora e levou a voz das mulheres indígenas para além das fronteiras do Brasil, defendendo, em diferentes espaços internacionais, a importância do trabalho das Aimas. Em agosto de 2025, tive a alegria e a honra de conhecê-la pessoalmente durante o intercâmbio realizado em Letícia, na Colômbia, a convite do ISA, quando participei representando a FOIRN. Ali pude confirmar tudo o que já admirava nela: uma pessoa maravilhosa, carinhosa, sorridente, compreensiva e sempre disposta a incentivar quem estava ao seu redor. Nossas conversas foram marcadas por ideias, ensinamentos e reflexões que jamais esquecerei.
Depois daquele encontro, continuamos mantendo contato pelo WhatsApp, fortalecendo ainda mais esse vínculo de respeito e amizade. Tivemos também a oportunidade de estarmos juntos no lançamento da Revista ARU 6, durante a COP30, em Belém, momento em que sua contribuição foi fundamental ao compartilhar, com a sabedoria de quem vive e conhece profundamente seu território, os impactos das mudanças climáticas sobre os povos indígenas. Dona Oscarina deixa um legado de coragem, conhecimento e compromisso com a defesa da vida, da floresta e dos direitos dos povos indígenas. Sua memória permanecerá viva em cada ensinamento compartilhado, em cada luta inspirada por sua trajetória e no coração de todos que tiveram o privilégio de conhecê-la.
Forte abraço aos familiares. Creio eu que ela se encontra num lugar muito melhor e que Deus a receba na morada eterna com a glória merecida.”
Hélio Tukano, diretor-presidente da FOIRN, coordenadoria Diawii _________________________________________________________________________
“É com profundo pesar que nos despedimos de Dona Oscarina Caldas Azevedo, do povo Desana, cuja partida deixa uma imensa saudade e um legado que permanecerá vivo na memória de todos que tiveram o privilégio de conhecê-la.
Como Aima e pesquisadora dedicada, Dona Oscarina desempenhou um papel fundamental na valorização dos conhecimentos tradicionais, contribuindo com sabedoria para a observação dos ciclos da natureza, das constelações e para o monitoramento dos impactos das mudanças climáticas. Sua trajetória foi marcada pelo compromisso com a proteção do território, pelo fortalecimento da cultura indígena e pela partilha generosa de seus conhecimentos.
Manifestamos nossa mais sincera gratidão por toda a colaboração, dedicação e compromisso que sempre demonstrou junto à nossa Federação e à sua região de referência (DIAWI'I). Sua contribuição foi inestimável e continuará sendo uma referência para todos nós, especialmente a nós mulheres indígenas do Rio Negro.
Dona Oscarina estará para sempre em nossas memórias, não apenas por sua valiosa atuação como Aima, mas também pela sabedoria, generosidade e inspiração que compartilhou ao longo de sua vida. Seu legado seguirá vivo em cada ação voltada à valorização dos conhecimentos indígenas e ao cuidado com a natureza.
Neste momento de despedida, expresso meus mais sinceros sentimentos aos familiares e amigos. Que encontrem conforto na certeza de que sua história continuará inspirando muitas gerações.
Descanse em paz, Dona Oscarina. Sua memória permanecerá viva em nossos corações.”
Janete Dessana, vice-presidente da FOIRN _________________________________________________________________________
“Dona Oscarina, a Osca... dona da cerâmica, da roça e da vida. Escrever sobre Dona Oscarina na sua passagem, como forma de despedida. tem certamente um significado diferente...de tristeza profunda, mas também de reconhecimento e homenagem. É preciso voltar atrás e tentar lembrar, quando, naquele ano de 2017, vi pela última vez o seu olhar, ouvi sua conversa e as suas gargalhadas e tudo que aprendi com ela antes disso…
Conheci a Dona Oscarina, mulher Desana do Clã Yuhugo, moradora de Acará Poço, Médio Rio Tiquié, nos idos de 2005, quando comecei a trabalhar no Programa Rio Negro do ISA. Mas foi em 2008 que nossos caminhos se cruzaram com mais força quando eu coordenava, junto com as jovens Tuyuka, a linha de pesquisa sobre conhecimentos femininos na Escola Utapinopona Tuyuka, e surpreendentemente, fui orientada a chamar uma mulher Desana, do médio Tiquié, para conduzir atividades de ensino-aprendizagem da cerâmica para as jovens Tuyuka, Tukano e Yebamahsã do Alto Tiquié, região conhecida pela resistência dos conhecimentos tradicionais.
Nessa época Oscarina ministrou oficinas de cerâmica e foi uma das conhecedoras que participou de um intercâmbio de conhecimentos entre mulheres indígenas Tukano-Orientais do Brasil e da Colômbia, do Alto Tiquié e do Rio Pirá Paraná (no Apapóris, afluente do Japurá). Nesses momentos, Oscarina, mostrou com maestria as diferentes etapas da confecção da cerâmica, contou histórias, falou das regras para a confecção das peças e contribuiu na formação de jovens moças, compartilhando generosamente seus conhecimentos, sem “sovinar”. Dessa maneira, participava ativamente, do início de um movimento que foi se constituindo aos poucos no Alto Rio Negro, através de iniciativas específicas nas calhas dos rios, de valorização das mulheres como conhecedoras e do fortalecimento da transmissão de seus conhecimentos em novos formatos, algo que havia sido muito restrito na região aos conhecedores e conhecimentos masculinos. Oscarina foi, portanto, pioneira.
Reencontrei Oscarina em 2014, durante o doutorado, e nessa época acompanhei um procedimento de parto em Pirarara-poço, comunidade vizinha da sua. Naquela ocasião, seu esposo Rafael realizou a maior parte dos procedimentos xamânicos necessários para o nascimento e nominação de uma criança e Oscarina realizou massagens na parturiente, orientou-a sobre posições adequadas para dar à luz e sobre os cuidados pós-parto entre mãe, pai e bebê. Ao acompanhar o parto e me hospedar na casa de Osca por algumas semanas, pude compreender a importância do companheirismo entre casais de conhecedores Tukano Orientais e muito mais do que isso, a beleza e a profundidade da parceria que existia entre Osca e Rafa.
Em 2017, nos reencontramos mais uma vez e eu não imaginava que essa seria a última vez. Dessa vez, durante o pós-doutorado, passei mais alguns dias na casa de Oscarina e nessa época ela era a única Aima mulher na região do rio Tiquié, sendo extremamente respeitada pelos demais Aimas pelo seu vasto conhecimento.
Acompanhava ela na roça e conversávamos todas as noites, Osca, eu e Rafael sobre as manivas e seus significados para estes povos. Ali pude compreender o quão denso eram aqueles conhecimentos. Oscarina, dona de roça, promotora de biodioversidade, encantadora de manivas, foi uma interlocutora central, porque fundamentou de maneira territorializada, a profunda conexão cosmológica e prática entre as mulheres, suas roças e os artefatos de trabalho. Por meio de suas memórias biográficas e exegeses cotidianas, ela demonstrou na prática o conceito da roça como uma ‘coleção’ de domínio exclusivamente feminino, ilustrado pelas 18 variedades de manivas que manejava, além de remédios, muitos deles, do âmbito do segredo feminino. Oscarina contribuiu de maneira fundamental para demonstrar as bases de uma ‘ética do cuidado’, revelando que a maniva é tratada como ‘uma pessoa’ que se alegra ao ser bem tratada e sofre como uma criança se for negligenciada, e ao detalhar as conexões diretas entre os benzimentos xamânicos (bahsese) e o sucesso na produtividade do processamento da mandioca.
Enfim, suas reflexões sobre a pedagogia tradicional vivida na própria infância e sua análise crítica sobre o atual desinteresse das novas gerações escolarizadas pelo trabalho agrícola mapearam com precisão as transformações sociais e os desafios da transmissão de saberes femininos no noroeste amazônico contemporâneo.
Adeus Dona Oscarina... sua sabedoria viverá para sempre nos corações e nos pensamentos das novas gerações, contribuindo para a continuidade do vasto território e da biodiversidade do alto Rio Negro.”
Melissa Oliveira, dra. em Antropologia Social
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Boa Vista tem picos de ar insalubre em metade do ano, aponta Inpa
Capital de Roraima tem pico de insalubridade causado pela fumaça das queimadas, entre janeiro e março. Qualidade do ar ficou pior que a de São Paulo 4 vezes em 2024
As cores mais quentes indicam os picos de poluição em Roraima. Fonte: Monitoramento da Qualidade do Ar na Cidade de Boa Vista - Roraima / Inpa
Em Boa Vista, em seis meses do ano, o ar respirado pela população apresenta picos de insalubridade, principalmente por causa da fumaça das queimadas e incêndios florestais. É o que revela uma pesquisa do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) publicada no último dia 6. O relatório “Monitoramento da Qualidade do Ar na Cidade de Boa Vista - Roraima” registrou dados do período de 2020 a 2024.
“Do ponto de vista global, Boa Vista não é uma megacidade que produz grandes quantidades de poluentes urbanos derivados de fábricas e/ou indústrias. Por outro lado, a fumaça derivada de queimadas e incêndios (florestais e não florestais), em especial nos últimos anos, tem tornado a cidade um local insalubre por vários dias”, conclui o estudo assinado por Reinaldo Imbrozio Barbosa e Arthur Camurça Citó.
No dia 2 de abril, o ar na capital roraimense foi classificado como o 15º pior do mundo. O levantamento do Inpa lembra que, neste ano, a cidade teve quatro dias com níveis de poluição que superaram o de algumas das grandes metrópoles mais poluídas do planeta, como Hanoi, no Vietnam, e São Paulo.
De acordo com a pesquisa, nos quatro dias em questão, foi registrado um nível de material particulado no ar superior a 300 microgramas por metro cúbico (µg/m³) de PM 2.5 (partículas de poeira inaláveis de diâmetro igual ou menor que 2.5 microns) – a unidade de medida da concentração de poluentes.
O estado teve recorde de focos de calor em fevereiro deste ano, considerando a série histórica do mês desde 1998. Como várias outras regiões do país, a capital, outros municípios e terras indígenas, incluindo a Yanomami, ficaram cobertos por fumaça. O levantamento do Inpa aponta que a nuvem de poluição gerada em Roraima foi tão grande que acabou alcançando regiões relativamente distantes, como o Alto Rio Negro e o Alto Rio Solimões, no Amazonas.
Vista de Boa Vista com fumaça de queimadas ao fundo neste ano | Lucas Silva/ Platô Filmes/ ISA
“Pico de insalubridade”
“Estamos tratando a insalubridade do ar como a poluição que pode causar danos à saúde humana. Esse impacto à saúde tem níveis diferentes, tanto pela quantidade de poluição quanto pelo público que é afetado”, explica Citó.
O “pico de insalubridade” é um período de tempo que concentra saltos nos níveis máximos de poluição. De acordo com a pesquisa, de janeiro a março, Boa Vista sofre o maior pico por causa de queimadas e incêndios, localizados principalmente no centro e norte de Roraima, em anos de extrema seca e ventos fortes, como em 2024 e 2023.
Ainda conforme o estudo, o segundo período mais crítico, de agosto a outubro, é causado pelo transporte de poluentes vindos de incêndios e queimadas situados no sul da Amazônia, em especial no oeste do Pará e localidades próximas de Manaus.
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Fonte: Monitoramento da Qualidade do Ar na Cidade de Boa Vista - Roraima / Inpa
“No pico de poluição primário (janeiro a março), os valores de poluição são maiores, oferecendo riscos à população em geral”, aponta o pesquisador. “Depois desse pico, os valores de poluição baixam e podem chegar a 0 durante o período de chuvas. Mas a partir de agosto surge um novo pico de poluição, que se estende até outubro, configurando um pico de poluição secundário. Caracterizamos este trimestre como ‘pico secundário’ porque os valores de poluição são menores, oferecendo maior risco a uma parcela mais sensível da população, como crianças e idosos”, detalha.
Pelo fato de parte do estado estar acima da Linha do Equador, em Roraima o período de seca vai de outubro a março e o chuvoso, de abril a setembro, ao contrário do que acontece no resto do país.
Para se ter uma ideia do problema, nos quatros anos analisados pelos cientistas do Inpa, em 70 dias a qualidade média do ar foi classificada como “insalubre para grupos sensíveis”, “insalubre” ou “muito insalubre”. Por outro lado, em 255 dias a leitura máxima da concentração de poluentes feita ao longo do dia alcançou a classificação de “insalubre para grupos sensíveis”, “insalubre", “muito insalubre” ou “péssima” (veja a tabela).
Como a pesquisa foi feita?
Os pesquisadores observaram os dados de qualidade do ar em 1290 dias, entre julho de 2020 e maio de 2024. A pesquisa analisou médias diárias (variação ao decorrer do dia) do grau de poluição e também máximas diárias (pico de insalubridade do dia).
Com base nas médias diárias, Boa Vista teve 689 dias (53,4%) com qualidade de ar considerada boa. No entanto, nos outros 601 dias (46,6%), a qualidade do ar apresentou algum grau de risco para os moradores. Já na análise de máximas diárias, a cidade teve pico de ar insalubre em 1010 dias (78,3%), enquanto a qualidade considerada boa sofreu queda brusca em 280 dias (21,7%) (veja a tabela acima).
Para chegar aos resultados, os cientistas utilizaram dois sensores PurpleAir. A tecnologia é conectada à internet e foi instalada em Boa Vista em 2020. Conforme o estudo, há outros sensores instalados em Roraima, mas nenhum deles possui séries temporais adequadas para formatação de qualquer tipo de padrão que pudesse resultar em uma análise científica.
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Nível do Rio Branco, em Boa Vista, chegou a quase 40 cm abaixo da medição mínima | Stephanie Vieira / Platô Filmes / ISA
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Nós e eles
O sócio fundador do ISA Márcio Santilli avalia os desdobramentos da crise sanitária dos Yanomami e cobra solução para suas causas
Márcio Santilli
- Sócio fundador e presidente do ISA
Presidente Lula visita Casa de Saúde Indígena em Boa Vista (RR) para avaliar crise sanitária dos Yanomami, janeiro de 2023 | Ricardo Stuckert / PR
Na cosmologia ensinada por Davi Kopenawa, o ouro e outros minérios, quando retirados dos seus depósitos subterrâneos, exalam energias que forçam o rompimento e a queda do céu. Por isso, os pajés Yanomami precisam trabalhar o tempo todo para segurar o céu. Se os invasores matarem os Yanomami, o céu desabará sobre a Terra.
O pensamento de Davi tem uma similaridade impressionante com a ciência do clima e com as emissões excessivas de gases do efeito estufa, que aquecem a atmosfera e provocam secas agudas e violentas tempestades, ameaçando todas as formas de vida. É, também, uma metáfora viva da interdependência entre os povos e deles com a natureza.
Davi nos faz essa denúncia há 40 anos, desde as primeiras invasões garimpeiras à Terra Indígena Yanomami (AM-RR), ainda nos tempos de ditadura militar. Eram, então, 40 mil garimpeiros, grande parte oriunda do garimpo exaurido de Serra Pelada, no Pará. Foram milhares, mas nem é possível precisar quantos Yanomami morreram, vítimas de armas de fogo, da malária e de outras doenças. Quase todos os invasores foram retirados e a terra foi demarcada, mas pequenos focos ficaram, pulando de um lado para outro na fronteira com a Venezuela.
Agora, há outra invasão em massa. Os garimpeiros estão em menor número, mas provocam destruição maior. Talvez sejam uns 20 mil ou menos. Mas usam dragas, escavadeiras e outros equipamentos muito maiores e com alta capacidade de destruir igarapés inteiros. A contaminação do solo, das águas e dos organismos é muito maior.
Parte deles presta serviços de apoio, manutenção, alimentação e lazer, enquanto outros operam na extração do ouro ou da cassiterita. Entre esses, há garimpeiros profissionais, que tendem a vazar pela fronteira em busca de outros garimpos, e os sazonais, que seguem esse caminho para tentar levantar dinheiro, para a compra de imóveis ou carros, entre outros. Os nossos motivos são comezinhos. Por isso, os Yanomami dizem que os brancos não têm memória.
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Yanomami recebem atendimento em hospital em Boa Vista (RR) | Felipe Medeiros / Amazônia Real
Chocante
Não faltaram denúncias. Várias comunicações e alertas formais foram feitas às autoridades. A Hutukara Associação Yanomami liderou campanhas e a mídia publicou bastante sobre o assunto. O caso chegou ao Tribunal Penal Internacional. Mas foi só depois que mudou o governo que informações oficiais do Ministério da Saúde revelaram as mortes (subnotificadas) de 570 crianças indígenas por desnutrição e outras causas evitáveis e vieram à tona imagens estarrecedoras de velhos e crianças famélicos.
Mas o que levantou, mesmo, a poeira foi a decisão do presidente Lula de visitar Roraima, de supetão, com ministros e jornalistas, pondo em evidência a situação caótica na Casa de Saúde Indígena de Boa Vista. Lula não foi ao território, mas colocou as cenas chocantes na casa de cada um de nós, tornando urgentes soluções para aquela situação inaceitável. E determinou ações emergenciais aos órgãos envolvidos, como os ministérios da Justiça, Defesa e dos Povos Indígenas, enquanto se planeja a retirada dos invasores.
No meio desse escândalo planetário, o governador reeleito de Roraima, Antônio Denarium, ainda foi capaz de piorar as coisas, declarando-se a favor da aculturação forçada dos indígenas, à revelia dos seus direitos constitucionais de viverem conforme as suas culturas, como se está fosse a solução para o gencídio em seu estado. Ele já havia promulgado uma lei estadual legalizando o garimpo predatório, declarada inconstitucional pelo STF. Mostrou-se ao mundo como um dos cúmplices dessa situação.
Representantes do ex-governo genocida tentam minimizar a repercussão da tragédia. Bolsonaro disse que o problema sempre existiu e não responde pelo crescimento de mais de 300% do garimpo durante o seu mandato nas terras Yanomami. Ele visitou pessoalmente garimpos ilegais e tentou assediar líderes yanomami para estender a predação pelo território. O genocídio decorreu de políticas deliberadas.
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Militares jogam mantimentos para aldeia na Terra Indígena Yanomami em meio à crise sanitária | Fernando Frazão / Agência Brasil
Solidariedade
Muita gente, chocada, está ajudando nas ações emergenciais com doações em dinheiro, alimentos e remédios. A Hutukara e o Conselho Indígena de Roraima (CIR) mobilizam parceiros na sociedade civil, como a Central Única das Favelas (CUFA), Médicos Sem Fronteira, Diocese de Roraima e o Instituto Socioambiental (ISA) para apoiarem as iniciativas do governo na assistência à saúde, distribuição de alimentos e comunicação.
Certamente, há entre as doações contribuições de empresas e de empresários indignados com a situação. O Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) reiterou a sua oposição ao garimpo ilegal. Mas não houve, até agora, um movimento empresarial de escala para barrar de vez o acesso da produção predatória aos mercados e para viabilizar investimentos num modelo econômico sustentável na Amazônia. A cooperação internacional está oferecendo recursos para ajudar no front emergencial e na reestruturação das políticas socioambientais, desmanteladas no mandato anterior. Mas também pode fazer mais para impedir o acesso dos produtos e dos recursos ilegais aos mercados. A comoção gerada pelo genocídio precisa ir além da justa indignação para dar suporte à reversão definitiva do quadro atual.
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O que você precisa saber para entender a crise na Terra Indígena Yanomami
Dados confirmam que tragédia é resultado direto do desmonte de serviços de saúde e do agravamento da invasão garimpeira promovidos pelo governo Bolsonaro
No dia 20/1, a agência Sumaúma noticiou que 570 crianças de até cinco anos morreram de doenças evitáveis, entre 2019 e 2022, na Terra Indígena (TI) Yanomami (AM-RR). As fotos de crianças e idosos esquálidos, desnutridos, divulgadas na imprensa e nas redes sociais causaram comoção dentro e fora do Brasil.
Acompanhado de vários ministros, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi a Roraima avaliar a crise. O governo decretou emergência de saúde na área e anunciou uma série de medidas, como o envio de equipes médicas à região e a instalação de um hospital de campanha em Boa Vista.
A repercussão do caso gerou indignação, dúvidas, surpresa, com a impressão de que o problema veio a público só agora, e, claro, fake news. Logo começaram a circular notícias falsas para desviar o foco da responsabilidade do ex-presidente Jair Bolsonaro. Contra fatos e imagens, ele classificou a situação como uma “farsa da esquerda”.
O ISA resumiu abaixo, num texto de perguntas e respostas, as principais informações e dados científicos colhidos por pesquisadores, técnicos do governo, imprensa, sociedade civil e as próprias comunidades para você entender a tragédia humanitária que se abateu sobre os Yanomami e ajudar a combater a desinformação.
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Garimpo no Rio Uraricoera, Terra Indígena Yanomami, em janeiro de 2022
O que está acontecendo na Terra Indígena Yanomami pode ser considerado genocídio?
A Lei 2.889/1956 diz que o genocídio é caracterizado pela “intenção de destruir, no todo ou em parte, grupo nacional, étnico, racial ou religioso”, por meio de atos como: “matar membros do grupo; causar lesão grave à integridade física ou mental de membros do grupo; submeter intencionalmente o grupo a condições de existência capazes de ocasionar-lhe a destruição física total ou parcial; adotar medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do grupo; efetuar a transferência forçada de crianças do grupo para outro grupo”. A definição segue a legislação internacional.
Juristas ouvidos pela imprensa nos últimos dias dizem que há indícios de que a gestão Bolsonaro cometeu o crime na TI Yanomami, mas apenas um julgamento pela Justiça brasileira ou internacional poderá confirmá-lo.
Na segunda (30), o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso determinou a abertura de inquérito contra autoridades federais para apurar essa possibilidade. Não se sabe exatamente quem é alvo do processo porque ele está sob sigilo.
Na semana passada, o ministro da Justiça, Flávio Dino, já tinha determinado que a Polícia Federal (PF) também investigasse os possíveis crimes de genocídio e omissão de socorro por parte do governo anterior no território indígena.
O assassinato de 16 Yanomami por garimpeiros, em 1993, conhecido como “Massacre de Haximu”, é o único caso do crime de genocídio confirmado pela Justiça brasileira.
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Garimpo no Rio Uraricoera, Terra Indígena Yanomami, janeiro de 2022
Quais os motivos para a crise de saúde na Terra Indígena Yanomami?
Agravadas ao longo dos últimos cinco anos, as razões da crise são a desestruturação da assistência à saúde indígena e a invasão garimpeira, responsável por uma série de impactos sanitários, ambientais, socioculturais e econômicos sobre as comunidades.
Não é verdade que a origem da situação seja a suposta incapacidade produtiva dos indígenas. Ao contrário, com suas terras e seus recursos naturais preservados, eles conservam boas condições de vida.
Também não é verdade que a crise Yanomami seja comum a outras populações indígenas neste momento. Há outras TIs com problemas parecidos, mas não na mesma escala e pelos mesmos motivos.
Qual a relação entre o garimpo ilegal, a disseminação de doenças e a desnutrição entre os Yanomami?
O garimpo é o responsável direto por uma série de problemas graves entre os povos originários. No caso Yanomami, há relação comprovada entre a explosão da atividade e o aumento de casos de doenças infectocontagiosas, como gripe e pneumonia.
É inequívoca ainda a associação entre a devastação provocada pela mineração ilegal e a propagação da malária, facilitada pela multiplicação de invasores e pelas crateras com água parada, fruto da atividade e propícias à proliferação de mosquitos transmissores da enfermidade.
Em virtude do contato razoavelmente recente e do isolamento relativo, os indígenas têm menos defesas imunológicas para moléstias comuns entre não indígenas.
A ocupação do território, a destruição da floresta, a contaminação dos corpos de água promovidas pelo garimpo dificultam a manutenção e abertura de roças, a caça, a pesca e a coleta de frutos, as principais fontes de alimentação das comunidades.
Uma parte delas também é aliciada. Especialmente vulneráveis a falsas promessas de prosperidade, jovens recebem armas e comida para trabalhar ou aliar-se aos invasores. Mulheres são abusadas e exploradas sexualmente. O recrudescimento da violência cria um clima de tensão permanente. Os moradores ficam sitiados em suas próprias aldeias.
Todo o quadro é agravado pelo desmonte da assistência aos indígenas. Além disso, os invasores têm se apossado de parte da infraestrutura de atendimento, como pistas de pouso e postos de saúde. A violência do garimpo dificulta a presença de equipes médicas, a distribuição de medicamentos e alimentos.
Sem comida e assistência médica, a condição dos enfermos piora. Como a economia indígena depende da mão de obra familiar, as atividades tradicionais de subsistência ficam inviáveis com as pessoas permanentemente adoecidas ou trabalhando no garimpo, num círculo vicioso de fome, debilidade física e escassez.
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Garimpo no Rio Novo, Terra Indígena Yanomami, janeiro de 2022
Qual a extensão da crise de saúde na Terra Yanomami?
Conforme dados do Ministério da Saúde obtidos pela agência Sumaúma, 570 crianças de até cinco anos morreram de doenças evitáveis na TI Yanomami, entre 2019 e 2022, um aumento de 29% em relação a 2015-2018. De acordo com o Ministério dos Povos Indígenas, 99 crianças de um a quatro anos teriam morrido, só em 2022, por causas como desnutrição, pneumonia e diarreia.
Cerca de 56% das crianças da área acompanhadas tinham um quadro de desnutrição aguda (baixo ou baixíssimo peso para a idade) em 2021, segundo dados da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) fornecidos à agência Pública. “O estado nutricional das crianças Yanomami é realmente muito ruim, só comparável aos dados de crianças da África Subsaariana”, afirmou o médico Paulo Basta, da Fiocruz à agência.
Apenas entre 2020 e 2021, a TI Yanomami registrou mais de 40 mil casos de malária, de acordo com o Sistema de Informações de Vigilância Epidemiológica (Sivep) do Ministério da Saúde. Isso tudo para uma população de cerca de 30 mil pessoas.
É importante observar que a TI Yanomami é a maior do país, com cerca de 96 mil km2 (superando a extensão de Portugal), e há diferenças entre as 370 comunidades. As regiões mais distantes das invasões têm uma condição sanitária mais favorável, embora a precarização do atendimento à saúde impacte todo o território.
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Bebês yanomami desidratados são atendidos em hospital em São Gabriel da Cachoeira (AM), em 2020 | Raquel Uendi / ISA
O que aconteceu com os serviços de saúde Yanomami nos últimos anos?
A saúde indígena foi desestruturada pelo governo Bolsonaro, embora sempre tenha apresentado deficiências. A pandemia de Covid-19 agravou e escancarou a situação.
No caso Yanomami, a má gestão de recursos e o aparelhamento político, com a nomeação de pessoas sem conhecimento e experiência para cargos importantes, criaram um quadro de desorganização, escassez de equipamentos, mão de obra, medicamentos e outros insumos.
Indígenas e profissionais de saúde relataram o fechamento ou abandono de postos de saúde e a redução dos atendimentos nos que continuaram funcionando. O problema foi documentado pelo relatório Yanomami Sob Ataque, publicado pela Hutukara Associação Yanomami e a Associação Wanasseduume Ye’kwana.
Auditorias da própria administração federal confirmaram várias falhas no Distrito Especial de Saúde Indígena Yanomami (DSEI-Y): desatualização de indicadores de saúde; descumprimento de jornadas de trabalho e metas de atendimento; entrega de medicamentos com data de validade próxima do vencimento; transporte por aeronaves sem autorização de voo, entre outros. Os relatórios foram ignorados pelo governo.
Na verdade, a crise sanitária é ainda pior por causa da subnotificação e do “apagão” de dados dos últimos anos. Por exemplo, 90% das crianças yanomami eram monitoradas pelo DSEI-Y em 2019, mas o número baixou para 75%, em 2022. Nas estatísticas oficiais, houve melhora nos registros de desnutrição, mas ocorreu o contrário, simplesmente porque o número de crianças acompanhadas caiu. No início do governo Bolsonaro, já se sabia que a situação era ruim e, mesmo assim, a vigilância foi reduzida.
Quando começou exatamente a crise de saúde na Terra Indígena Yanomami? Ela veio a público só agora?
Não há dúvida de que a situação agravou-se a partir de 2018 e 2019, com as eleições e o início do governo Bolsonaro, embora já houvesse problemas na assistência e invasores na área. O discurso antiambiental de Bolsonaro e seus aliados e o desmonte dos órgãos de fiscalização estimularam a ocupação ilegal de áreas protegidas e provocaram recordes sucessivos de desmatamento. O território yanomami foi um dos mais afetados.
Não é verdade, portanto, que a situação seja a mesma em 30 anos, embora os Yanomami já tenham passado por crises graves, principalmente com a intensificação do contato com os não indígenas e a primeira grande onda garimpeira, nos anos 1970 e 1980. Profissionais de saúde e lideranças indígenas reafirmam que a situação nunca foi tão grave nesse período.
Muita gente teve a impressão de que a crise veio a público só agora porque as notícias sobre ela alcançaram uma audiência sem precedentes, resultado da repercussão da visita do recém-empossado presidente Lula e das medidas emergenciais tomadas por seu governo.
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Quem são os responsáveis pela crise de saúde dos Yanomami?
Notoriamente anti-indígena, Bolsonaro foi o primeiro presidente da República desde a Redemocratização a não demarcar “nenhum centímetro” de TIs, como prometeu em campanha.
Durante todo o governo, ele estimulou o crime ambiental e sua regularização, em especial o garimpo ilegal nas TIs. Também promoveu um desmonte administrativo sem precedentes na Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e no Ibama, responsáveis pela fiscalização dessas áreas.
Tudo isso resultou, a partir de 2019, numa onda de invasões a áreas protegidas e recordes sucessivos de desmatamento em cerca de 15 anos. A TI Yanomami foi uma das mais afetadas.
A saúde indígena também sofreu com a desestruturação de políticas públicas do governo Bolsonaro. As deficiências já existentes recrudesceram.
Forças militares e de segurança também reduziram a fiscalização e, muitas vezes, negaram apoio a operações para a retirada dos invasores e proteção das aldeias.
Toda a situação foi denunciada aos órgãos federais, ao Ministério Público, à imprensa e nas redes sociais pelo Conselho Distrital de Saúde Yanomami e Ye’kwana (Considisi-Y), a Hutukara Associação Yanomami, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e o ISA. Os alertas foram desprezados, no entanto. Pelo menos 21 ofícios sobre o caso foram ignorados por diversas instituições oficiais em apenas dois anos, informou o The Intercept Brasil.
A ordem de isolar e conter os garimpeiros na TI Yanomami também foi ignorada. O mesmo aconteceu com decisões do próprio STF e da Justiça Federal para que a União formulasse e executasse um plano para retirar os invasores. Também foi desconsiderada uma deliberação da Corte Interamericana de Direitos Humanos e pedidos da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Se as determinações e alertas tivessem sido atendidos, a crise não teria ocorrido ou seria menor.
Portanto, têm responsabilidade sobre a tragédia, em diferentes graus e aspectos, o ex-presidente Jair Bolsonaro e o ex-vice-presidente Hamilton Mourão, então coordenador do Conselho Nacional da Amazônia, responsável por articular as ações de fiscalização ambiental na região durante o último governo. Também podem ser responsabilizados os respectivos dirigentes, no antigo governo, da Funai, do Ibama, da PF e dos ministérios da Saúde, da Justiça, da Defesa e do Meio Ambiente, entre outros que uma investigação adequada vier a apontar.
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Presidente Lula visita indígenas yanomami em Boa Vista, Roraima, 20/1/2023 | Ricardo Stuckert / PR
Quais as medidas tomadas pelo governo até agora para enfrentar a crise sanitária na TI Yanomami?
Ainda no dia 20, o governo federal decretou Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional na TI Yanomami. Trata-se de uma situação que demanda o emprego urgente de medidas de prevenção, controle e contenção de riscos, de danos e de agravos à saúde pública, em situações que podem ser epidemiológicas (surtos e epidemias), de desastres ou de desassistência à população. Esse último é o caso dos Yanomami.
A gestão federal também anunciou o envio de equipes médicas para prestar assistência emergencial e fazer um diagnóstico da situação, além da instalação de um hospital de campanha em Boa Vista e de um Centro de Operações de Emergências em Saúde Pública (COE), que fará a coordenação das ações contra a crise e deverá ser gerido pela Sesai.
Foi criado ainda um Comitê de Coordenação Nacional para Enfrentamento à Desassistência Sanitária das Populações em Território Yanomami, que vai discutir as medidas a serem adotadas, apoiar a articulação entre poderes e estados e apresentar um plano de ação em 45 dias. Fazem parte do colegiado os ministérios dos Povos Indígenas, da Saúde, da Defesa, da Justiça, do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome e da Gestão e Inovação em Serviços Públicos.
O governo planeja uma grande operação de retirada dos garimpeiros. A ação ainda não tem data para acontecer, mas nesta segunda (30), em reunião com vários ministros, o presidente Lula pediu pressa no bloqueio do espaço aéreo e dos principais rios que cortam a área, com o objetivo de estrangular a logística do garimpo. Cerca de 56 toneladas de alimentos e medicamentos já teriam sido enviados à TI Yanomami, segundo a Força Aérea Brasileira (FAB).
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Manaus vive um horizonte de fumaça
A capital do Amazonas desponta como paisagem distópica sob ameaça da emergência climática
Manaus e Rio Negro encobertos pela fumaça no dia 08 de outubro, com a pior qualidade do ar registrada no Brasil|Michael Dantas/ISA
Manaus acordou ontem, 08 de outubro, imersa numa densa fumaça. Com a qualidade do ar insalubre, o Instituto Federal do Amazonas (IFAM) e a Universidade Federal do Amazonas (UFAM) cancelaram as aulas presenciais na capital.
Não foi um fato isolado. Há mais de um mês, Manaus padece com a fumaça. Em setembro já tinha atingido o título de cidade com o ar mais poluído do mundo, como narrou a jornalista Nicoly Ambrósio, da Amazônia Real. Os incêndios tornaram o ar tóxico, com níveis de poluição atmosférica 20 vezes acima do limite estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Estima-se que aproximadamente 650 mil pessoas sejam diretamente afetadas pela seca e calor intenso no Amazonas nesta temporada de Super El Niño em 2026, que deve se prolongar até fevereiro de 2027, agravada ainda pela emergência climática. Entre os principais problemas vivenciados nas secas extremas de 2023 e 2024 na Bacia Amazônica estão a falta de água potável, aumento de doenças (como as diarreicas agudas), isolamento logístico, entre outros decorrentes do efeito dominó inerente ao desequilíbrio socioambiental.
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Alerta da Defesa Civil na madrugada de 09 de outubro, em Manaus|Reprodução
As dificuldades logísticas, por sinal, não vêm somente dos rios que secam. Os preços das passagens aéreas no Amazonas dispararam e afetam diretamente a mobilidade de quem mora e trabalha no estado. Tarifas aéreas entre São Gabriel da Cachoeira, no Noroeste do Amazonas, e Manaus, chegam a custar R$ 9 mil, valor maior do que uma viagem internacional. A alternativa ainda é fazer o percurso de barco, porém, em caso de estiagem extrema e seca dos rios, já prevemos que os valores abusivos subirão ainda mais.
Como resposta a esse quadro, o governo amazonense decretou emergência em todos os seus 62 municípios, no último dia 21 de setembro. Em meio a crise socioambiental, porém, quase nada se debateu seriamente sobre emergência climática e preservação da Amazônia no primeiro turno das eleições para o novo governo do Estado do Amazonas.
Pelo contrário, escutamos no debate público muito negacionismo climático e a repetição neurótica de que a proteção ambiental representa um entrave ao desenvolvimento, transformando-se no bode expiatório dos males sociais. Gente pobre pisando em cima de subsolo rico, dizem os defensores da mineração em áreas protegidas na Amazônia. Mas, há futuro e desenvolvimento humano sem ar para respirar?
Focos de calor
Incêndios florestais levaram ao agravamento da piora na qualidade do ar em Manaus nos últimos dias, alguns com fortes indícios de serem criminosos, aproveitando a forte estiagem para se apropriar de áreas de floresta. Houve um grande incêndio florestal numa área de 450 hectares no município de Iranduba, às margens da rodovia AM-070, no distrito de Cacau Pirêra, na região metropolitana de Manaus, logo depois da travessia da ponte do Rio Negro, região alvo da especulação imobiliária.
Outro incêndio de grandes proporções ocorre no município de Itacoatiara, segundo mais populoso do Amazonas, depois de Manaus. No dia 06 de outubro, após 17 dias, a Rede Amazônica denunciou que o fogo ainda avançava na mata fechada. Uma área de 1,1 mil hectares, equivalente a 1,5 mil campos de futebol, foram queimadas. A origem do incêndio ainda é investigada e a Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Itacoatiara trabalha com a suspeita de que o fogo foi criminoso.
Já na capital, um mega incêndio em uma área de vegetação e descarte irregular de resíduos no Distrito Industrial II levou aproximadamente 3 dias para ser controlado. O fogo consumiu muitos materiais tóxicos, como plásticos, borrachas e solventes, alçando Manaus a posição de cidade com a pior qualidade do ar no Brasil no dia 08 de outubro. O Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) aplicou multa de R$ 5,5 milhões ao responsável pelo terreno.
O Programa Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) contabilizou 644 focos de calor entre os dias 01 e 07 de outubro, número que representa um aumento de 130% na comparação com o mesmo período do ano passado, quando foram registrados 280 focos no Amazonas. De acordo com a Defesa Civil do Amazonas, 24 municípios estão em alerta devido aos níveis elevados de fumaça.
Novo normal de extremos climáticos
Sem um compromisso continuado e prioritário com a política ambiental e com a implementação do Plano Clima (estratégia que reúne políticas públicas para reduzir a emissão de gases de efeito estufa e adaptar o país aos impactos das mudanças climáticas), veremos o Amazonas perder aceleradamente suas florestas (que ainda cobrem mais de 90% do estado) e a Amazônia atingir o ponto de não retorno.
É pertinente lembrar neste momento que Jair Bolsonaro afirmou em 2021 que “a Amazônia, por ser úmida, não pegava fogo”. O negacionismo climático e a escolha perversa de confrontar a Ciência se deu em meio à disparada do desmatamento em seu governo, quando o ex-presidente facilitou o que pode para “passar a boiada” e acelerar a predação na região amazônica. Em um novo normal de eventos climáticos extremos, no qual a Amazônia é uma região extremamente vulnerável, é preciso orientar decisões e escolhas que viabilizem a vida, os sonhos e outros futuros possíveis.
*com informações da Amazônia Real, Rede Amazônica, CNN, Agência Fapesp e jornal A Crítica
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Vista de Manaus em 2023, coberta de fumaça; cenário se repete em 2026|Alberto César Araújo/Amazônia Real
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Na Escola Baniwa Kalipana, aprender também é cuidar do território
Escola pública de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, está entre as finalistas do prêmio de melhores escolas do mundo, na categoria Ação Ambiental; votação popular vai até 29 de outubro
Na comunidade Santa Isabel, às margens do Rio Ayari, na Terra Indígena Alto Rio Negro, a aprendizagem escolar não acontece somente entre quatro paredes. A roça, a aldeia, os ciclos da natureza, os conhecimentos dos mais velhos e a vida comunitária também são espaços onde se ensina e se aprende.
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Escola Baniwa Kalipana está localizada na comunidade Santa Isabel do rio Ayari, na Terra Indígena Alto Rio Negro, no Amazonas|Juny Baniwa/Kalipana
É a partir dessa compreensão que a Escola Baniwa Kalipana, em São Gabriel da Cachoeira (AM), vem construindo uma educação enraizada na cosmovisão do povo Baniwa. A experiência ultrapassou as fronteiras do Rio Negro e colocou a escola entre as 50 finalistas do World’s Best School Prizes 2026, premiação internacional conhecida como a “Copa do Mundo da educação”. Agora, a Kalipana também disputa o voto do público, aberto até 29 de outubro.
Entre as quatro escolas públicas brasileiras que chegaram à fase final, é a única escola indígena localizada dentro de uma aldeia. Mas o caminho até aqui começou muito antes da inscrição no prêmio. Dzoodzo Baniwa, professor, pesquisador e coordenador regional da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) na bacia do Içana, que há quase três décadas atua na educação indígena, explica que a Kalipana reúne uma experiência acumulada desde o início dos anos 2000 e vai de encontro às necessidades e aos projetos desenvolvidos pela comunidade que dialoga com seu Plano de Gestão Territorial e Ambiental.
"Nos últimos 26 anos, a gente vive essa construção da escola mais significativa, e, o mais importante: a escola que corresponde às necessidades locais", destaca.
Santa Isabel do Ayari é uma comunidade de cerca de 35 famílias e mais de 150 moradores. Antes da Kalipana, havia ali uma pequena escola que atendia até o 5º ano do ensino fundamental. Depois disso, os estudantes precisavam deixar a comunidade para continuar os estudos. Com a mobilização dos moradores, o ensino fundamental foi ampliado e, em 2023, a escola passou a oferecer do 6º ao 9º ano. Em 2025, conquistou autonomia administrativa e pedagógica junto à Secretaria Municipal de Educação e Educação Escolar Indígena (Semedi) e deixou de funcionar como extensão de outra escola.
A mudança veio acompanhada de outra decisão simbólica: a Escola Municipal Indígena Santa Isabel passou a se chamar Escola Baniwa Kalipana. A troca de nome fez parte de um processo de reflexão da comunidade sobre a própria identidade e sobre o sentido de uma escola pensada a partir do seu lugar.
Uma educação sistêmica comunitária
Na Kalipana, a educação não é pensada separadamente das demais dimensões da vida comunitária. É o que Dzoodzo chama de "educação sistêmica comunitária": uma proposta que conecta os conteúdos escolares às experiências vividas pelos estudantes. Os componentes curriculares obrigatórios, como matemática, língua portuguesa, geografia, são seguidos, mas são trabalhados de forma conectada aos modos de vida Baniwa. Ao invés de percorrer os livros didáticos apenas página por página, os professores desenvolvem projetos integradores a partir da realidade local.
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Atividades comunitárias, oficinas e encontros do movimento indígena também são espaços de aprendizagem|Juny Baniwa/Kalipana
Assim, uma fórmula matemática continua sendo ensinada, mas o ponto de partida pode ser uma situação vivida no território. Um cálculo feito na roça, na associação, ou no preparo de alimentos. O conhecimento escolar não substitui o conhecimento indígena. Os dois caminham juntos.
Essa concepção também amplia os lugares onde se aprende. Como explica Dzoodzo, há o tempo-escola, dedicado ao trabalho pedagógico em sala de aula. O tempo-aldeia, em que cerimônias, atividades comunitárias, refeições coletivas e a convivência cotidiana também são entendidas como processos educativos. Além do tempo-território, que leva os estudantes à vivência para além da aldeia, como os encontros do movimento indígena, a oficinas, estágios, conversas com lideranças e profissionais de saúde.
“A gente trabalha o plano curricular, não no sentido do plano cartesiano, mas tridimensional, nesse sentido de olhar para o plano territorial, espacial e ligado à nossa cosmologia”, detalha a liderança.
Os estudantes também fazem pesquisas guiadas e mantêm cadernos de observação onde registram as mudanças no ambiente e o que aprendem com os conhecedores tradicionais. Uma metodologia que se inspira nas pesquisas desenvolvidas pelos Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) no Rio Negro, iniciativa fomentada pelo Instituto Socioambiental (ISA) e pela Foirn.
No centro dessa proposta está o Sistema Agrícola Káali, do povo Baniwa, que, para além de um conjunto de técnicas de produção, Dzoodzo define como um modo de vida que reúne dimensões culturais, ecológicas, geográficas, sociais e econômicas.
A partir dos ciclos observados, como a época de plantio e colheita, de floração e de frutificação das plantas, da migração dos peixes e das aves, a roça é, então, este lugar onde diferentes conhecimentos se encontram e são transmitidos entre gerações.
Essa visão ajuda a explicar por que a Ação Ambiental, categoria em que a escola concorre na premiação, é uma das dimensões centrais da Kalipana. Preservar o território não aparece como um conteúdo isolado no currículo. Está ligado à alimentação, à geração de renda, à cultura, à autonomia comunitária e à continuidade dos conhecimentos Baniwa.
A escola também participa de iniciativas de valorização da produção local e de compras públicas de alimentos, fortalecendo a presença de produtos tradicionais na alimentação escolar. Farinha, beiju, tapioca, tucupi, frutas, mel e outros alimentos produzidos pelas famílias passam a integrar uma cadeia que conecta roça, comunidade e escola.
Para Dzoodzo, dar visibilidade a essa produção também é uma forma de enfrentar a ideia de que as comunidades indígenas não produzem alimentos. "É porque eu acho que o sistema de produção não tem visibilidade porque é produzido e consumido ao mesmo tempo, não tem uma lógica de acúmulo", observa.
A valorização dos alimentos tradicionais ganhou ainda mais importância diante das mudanças nos hábitos alimentares e do aumento do consumo de produtos industrializados. Para a comunidade, fortalecer o sistema alimentar Baniwa significa também fortalecer a saúde, a autonomia e a transmissão de conhecimentos.
Uma experiência construída por muitas mãos
A Kalipana é parte de uma história mais longa. Dzoodzo começou a atuar na educação indígena em 2000, na escola Pamáali, onde permaneceu por 13 anos. Em 2014, voltou ao Rio Ayari para fortalecer as escolas do seu território. Ao longo desse tempo, organizações indígenas, a Federação das Organizações Indígenas (Foirn), escolas, professores e parceiros investiram no caminho que hoje sustenta a experiência.
Entre esses parceiros está o Instituto Socioambiental (ISA), que apoia as tecnologias sociais de água e iniciativas de renda ligadas ao Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro, como a casa de farinha solar, a meliponicultura e a cerâmica. Também apoiou a formação de pesquisadores indígenas em monitoramento ambiental nas escolas da região. Experiência que integra, ainda, o programa Escolas 2030, voltado a práticas educacionais inovadoras.
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Dzoodzo Baniwa, ao lado do Capitão da comunidade Santa Isabel do Ayari, Gerson Lopes da Silva, durante premiação da Fundação Banco do Brasil|Juny Baniwa/Kalipana
Antes do prêmio internacional, a comunidade já havia recebido outros reconhecimentos. Em 2025, foi selecionada pelo programa Periferia Viva, do Ministério das Cidades e da Secretaria Nacional de Periferias. Também foi finalista de uma premiação da Fundação Banco do Brasil na categoria de tecnologias sociais e recebeu certificação como tecnologia social.
Do Rio Ayari para o mundo
Foi nesse percurso que surgiu a oportunidade de inscrever a experiência no World's Best School Prizes, na categoria Ação Ambiental. A candidatura apresentou a Kalipana a partir da valorização do sistema agrícola, da aprendizagem sistêmica e dos conhecimentos tradicionais.
O resultado colocou a escola entre as dez finalistas da categoria. O prêmio tem cinco categorias, com dez escolas em cada uma, o que resulta em 50 finalistas no mundo. Os vencedores de cada categoria serão escolhidos por um júri e anunciados em novembro. Em paralelo, as 50 escolas disputam o Community Choice Award (Prêmio Escolha da Comunidade), definido por votação popular pela internet até 29 de outubro. Para Dzoodzo, chegar a essa etapa já é maior do que a possibilidade de vencer.
"Eu vejo como um reconhecimento dessa experiência de sucesso da educação escolar indígena nos últimos 25 anos aqui no Rio Negro", afirma. "É fruto de todo esse investimento, da parceria, da reconstrução do bem viver".
Ainda de acordo com a liderança, é também uma oportunidade de afirmar, em escala internacional, a ideia que orienta a escola desde a origem. Para ele, aprender não é se afastar do território para acessar o conhecimento. É também conhecer o território, cuidar dele e manter vivos os saberes que permitem às novas gerações continuar vivendo nele.
"Não é só para responder ao índice do Ideb [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica], do Saeb [Sistema de Avaliação da Educação Básica] e de outras coisas. A gente estuda para nós, para a pessoa em si", finaliza Dzoodzo".
Como votar
A votação popular do World's Best School Prizes 2026 vai até 29 de outubro e os vencedores gerais de cada categoria e do voto popular serão revelados em novembro.
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Página de votação|Reprodução/World's Best School Prizes
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Promotoras Legais Populares Indígenas: uma caminhada que continua em cada comunidade, território e mulher
Lideranças femininas do Rio Negro discutem saber tradicional, ampliação das redes de apoio para proteção em suas comunidades e enfrentamento legal em São Gabriel da Cachoeira (AM)
Dulce Morais
- Antropóloga do ISA
Natalia Farias
- Enfermeira e doutoranda na FSP/USP
Durante os dias 22, 23 e 24 de setembro aconteceu o terceiro módulo de formação das Promotoras Legais Populares Indígenas, na Casa do Saber da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), em São Gabriel da Cachoeira, Amazonas.
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Terceiro módulo de formação de Promotoras Legais Populares Indígenas teve a participação de aproximadamente 100 mulheres|Comunicação da FOIRN
A formação contou com aproximadamente 100 mulheres da sede municipal e das cinco coordenadorias regionais da Foirn que compreendem os municípios amazonenses de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos.
Além das promotoras, a formação teve a participação de representantes de instituições locais, bem como da coordenação da Rede de Mulheres Indígenas do Estado do Amazonas (Makira E'ta) e de representante da Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga).
Após histórico feito pelas lideranças indígenas e ex-coordenadoras do Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro (DMIRN), dona Rosilda Cordeiro (Tukano) e Elizângela Costa (Baré) compartilharam sobre o trabalho colaborativo no enfrentamento às violências contra mulheres no Rio Negro realizado pelo DMIRN, Instituto Socioambiental (ISA), Observatório da Violência de Gênero no Amazonas da Universidade Federal do Amazonas (OVGAM/UFAM) e da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP).
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Elizângela Costa Baré apresentou o trabalho coletivo no enfrentamento às violências de gênero no Rio Negro|Dulce Morais/ISA
Segundo elas, o enfrentamento às violências contra as mulheres tornou-se parte da agenda institucional do Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro.
A assessoria de gênero do ISA apresentou o projeto de formação das Promotoras Legais Populares (PLPs), criado no Brasil no início dos anos 1990 diante das dificuldades de acesso à justiça em casos de violação de direitos, especialmente de violência de gênero. A formação qualifica mulheres lideranças comunitárias para que atuem como referências locais, oferecendo escuta, orientação e apoio a outras mulheres no acesso à justiça.
A formação de Promotoras Legais Populares Indígenas foi inspirada no projeto e pensada de maneira adaptada à realidade rionegrina. No primeiro módulo de formação, realizado no segundo semestre de 2021, o objetivo foi promover um ambiente seguro para a produção de um entendimento das violências contra as mulheres do Rio Negro.
Na ocasião, foram compartilhadas informações sobre direitos das mulheres, ferramentas jurídicas destinadas à proteção de mulheres e meninas, bem como formas de fortalecer estratégias locais e coletivas relacionadas aos cuidados, à prevenção e ao enfrentamento às violências.
O segundo módulo, realizado em 2024, procurou fortalecer a rede de mulheres indígenas no enfrentamento à violência de gênero a fim de promover melhores condições para participação qualificada e segura nos espaços de decisão do movimento indígena rionegrino.
Agora, no final de setembro de 2026, a terceira formação de Promotoras Legais Populares Indígenas buscou ampliar o conhecimento das participantes sobre a rede de proteção e os serviços disponíveis em seus municípios; promover maior compreensão dos procedimentos técnicos, administrativos e periciais relacionados ao atendimento e à proteção de mulheres em situação de violência; aproximar as participantes das instituições responsáveis pelo acolhimento, atendimento e garantia dos direitos das mulheres; promover um espaço de compartilhamento sobre as estratégias comunitárias de enfrentamento às violências realizadas pelas próprias mulheres em suas famílias e comunidades, nos municípios de Barcelos, Santa Isabel do Rio Negro e São Gabriel da Cachoeira.
Para isso, a formação contou com a participação de representantes do Centro de Referência Especializado de Assistência Social, que compartilharam informações sobre seus serviços e demandas; do Distrito Sanitário Especial Indígena Alto Rio Negro, que abordou alguns cuidados relacionados aos casos de violência sexual; e da Defensoria Pública, que apresentou os diversos serviços oferecidos pela instituição e a importância de intérpretes indígenas para o entendimento dos processos e seguimentos dos casos.
No início do ano, a doutoranda em Saúde Pública, Natalia Farias, e a liderança indígena Adelina Sampaio, realizaram para o ISA, em parceria com o DMIRN, um diagnóstico sobre o fluxo de atendimento de mulheres indígenas pelos equipamentos de saúde, segurança pública e assistência social nos municípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos.
Parte dos resultados deste diagnóstico foi exposta por Natalia, que também realizou uma atividade de identificação e mapeamento das instituições dos três municípios coletivamente.
Em relação às estratégias comunitárias de proteção e cuidados com meninas e mulheres, o terceiro módulo viabilizou um momento de compartilhamento e fortalecimento dessas ações a fim de articular um trabalho em rede.
Na oportunidade, as mulheres apresentaram diversas plantas medicinais como práticas de cuidado que contribuem para a prevenção de violências, especialmente aquelas relacionadas à violência doméstica ligada ao consumo abusivo de bebidas alcoólicas por parte dos companheiros, prevenção de violência obstétrica, cuidados com o corpo, fortalecimento da convivência familiar e estratégias para aumento de inteligência.
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Lucilene Veloso e Madalena Fontes apresentaram o projeto Espaços Seguros para meninas e meninos em territórios indígenas|Natalia Farias/FSP/USP
Fortalecer a luta, de forma adequada
Na formação, foi apresentada e discutida pelas lideranças Madalena Fontes (Koripako) e Lucilene Veloso (Dessana) a metodologia do Guia Metodológico de Espaços Seguros para Meninas e Meninos em Territórios Indígenas, que reúne e sistematiza experiências construídas pelas mulheres rionegrinas em parceria com organizações indígenas, instituições públicas, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e a Rede de Mulheres Makira E’ta. O guia busca contribuir para a criação de espaços de convivência lúdicos, acolhedores e seguros, voltados à promoção do bem-estar e do desenvolvimento de crianças e adolescentes indígenas em situação de vulnerabilidade.
Cleocimara Reis Gomes (Piratapuya) e Maria do Rosário (Baniwa) da Coordenação Regional da Funai lideraram o encerramento da formação com a construção de encaminhamentos e demandas das rionegrinas para as próximas formações de Promotoras Indígenas e as demais agendas de gênero do Departamento de Mulheres.
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Cleocimara Reis Gomes, coordenadora do DMIRN, falou sobre os próximos passos para as demandas das mulheres rionegrinas|Natalia Farias/FSP/USP
Dentre os diversos encaminhamentos, as participantes destacaram a importância de “fortalecer e intensificar o compromisso das instituições públicas com as discussões e ações de enfrentamento à violência contra a mulher de forma culturalmente adequada”.
Ainda, reiteraram a importância de retomar a articulação para a construção de uma Casa de Acolhimento à Mulher Indígena em São Gabriel da Cachoeira e construir um plano de trabalho de redução de danos sobre o uso abusivo de álcool para o enfrentamento às violências contra as mulheres.
Por fim, Janete Alves (Dessana), vice-presidente da Foirn, compartilhou uma mensagem de agradecimento e força para as participantes:
“O III Encontro de Promotoras Legais Populares Indígenas foi marcado por escuta, partilha, coragem e fortalecimento coletivo. Os depoimentos e experiências compartilhados revelaram as dores, os desafios e, sobretudo, a força das mulheres indígenas na defesa de seus direitos, famílias, comunidades, territórios e culturas [...] Nossa caminhada não termina aqui. Ela continua em cada comunidade, em cada território e em cada mulher”.
O terceiro módulo de formação do Promotoras Legais Populares Indígenas foi produzido com apoio da Nia Tero, Misereor, Elas+, Incube, Pawanka e Cosmopolíticas do Cuidado no Fim do Mundo. As opiniões expressas na reportagem não refletem necessariamente as opiniões dos parceiros apoiadores.
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Rede Wayuri estreia vodcast com informações sobre as eleições de 2026
Primeiro episódio do programa Vozes do Rio Negro responde dúvidas de parentes da região, no Amazonas, sobre documentação, justificativa de voto, segurança das urnas e outros temas do processo eleitoral
A Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas do Rio Negro estreou, nesta quinta-feira (01/10), um novo formato de produção: o vodcast. O primeiro episódio é dedicado às eleições de 2026 e reúne especialistas em direito eleitoral para responder dúvidas enviadas por indígenas de diferentes regiões do território.
Apresentado pelas comunicadoras Nayra Sthefany, do povo Baniwa, e Lilian Batista, do povo Yanomami, o episódio recebe o juiz Manoel Átila Araripe Autran Nunes, titular da 19ª Zona Eleitoral de São Gabriel da Cachoeira (AM), e o advogado eleitoral Tales Bernal Bornia.
Os convidados responderam a perguntas encaminhadas por comunicadores correspondentes, baseados em comunidades nas cinco coordenadorias regionais da Federação das Organizações Índígenas do Rio Negro (Foirn). Documentação necessária para votar, justificativa de voto, segurança das urnas e outras questões relacionadas ao processo eleitoral estão entre os temas abordados.
O nome Vozes do Rio Negro carrega uma história que atravessa diferentes momentos da comunicação do movimento indígena na região. Claudia Ferraz, comunicadora do povo Wanano e coordenadora da Rede Wayuri, relembra que, nos anos 1990, a Foirn mantinha um programa com esse nome na Rádio Municipal AM, em São Gabriel da Cachoeira, que já naquela época se propunha a levar informações sobre o movimento indígena às comunidades, com a participação de lideranças, diretores e coordenadores da Federação.
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Claudia Ferraz, coordenadora da Rede Wayuri, explica conexão com o nome do programa|Vanessa Fernandes/ISA
O programa também faz parte da memória afetiva de Claudia, que cresceu ouvindo junto com os pais. “Era um programa de uma hora, se não me engano, ia das seis às sete da manhã. Lembro que meus pais sempre escutavam bem cedo”, recorda.
Para ela, resgatar esse nome é também reencontrar uma parte da história da comunicação indígena no Rio Negro. “Eu acredito que foi um dos primeiros programas de rádio que dava essa abertura para os povos indígenas do Rio Negro, feito pela Federação, e agora está sendo resgatado pelos jovens comunicadores da Rede Wayuri, por uma nova geração, através das plataformas digitais”, finalizou.
A iniciativa começou a ser desenvolvida durante a Oficina de Estruturação de Conteúdo Jornalístico e Produção de Vodcast, realizada em agosto, com a participação de 15 comunicadores indígenas. O formato combina a linguagem do rádio com a imagem.
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Comunicadores em atividade prática de entrevista e apresentação na Oficina de Estruturação de Conteúdo Jornalístico e Produção de Vodcast|Vanessa Fernandes/ISA
Facilitada pela equipe de apresentadores da Rádio Nacional dos Povos (RNP) Yago Kaingang, Nathalia Purificação e Juliana Albuquerque – que já integrou o time de apresentadores da rede – a oficina abordou temas como comunicação indígena e comunitária, estrutura da notícia, apuração, identificação de fontes, técnicas de entrevista, construção de roteiro e produção audiovisual com recursos simples. Os participantes também experimentaram o formato na prática, produzindo conteúdos e discutindo possibilidades de uso do vodcast para abordar temas de interesse das comunidades.
Entre as pautas levantadas estão mudanças climáticas, território, políticas públicas, cultura, educação, saúde e eleições, em diálogo com o planejamento editorial da Rede Wayuri para 2026. A atividade também reforçou a importância da apuração, da escuta e da diversidade de fontes para a produção de conteúdos jornalísticos mais completos.
Estas ações integram o projeto “Vozes indígenas por justiça climática, sociedades resilientes e uma transformação socioecológica justa e com equidade de gênero”, executado pelo Instituto Socioambiental (ISA), em parceria com a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e a Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas do Rio Negro, com apoio financeiro do Instituto para a Democracia, Mídia e Intercâmbio Cultural (IDEM) da Alemanha e da Fundação Gordon and Betty Moore.
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Chuvas em Roraima podem ficar abaixo da média e incêndios florestais devem se intensificar em 2027, apontam estudos
Efeitos do El Niño estão previstos por estudo do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e monitoramento consolidado do Instituto Socioambiental (ISA)
Dados consolidados de monitoramento do Instituto Socioambiental (ISA), com base na plataforma European Centre for Medium-Tange Weather Forecasts, mostram que Roraima deve sofrer, no último trimestre de 2026, com chuvas abaixo da média histórica do estado. A situação pode se estender até janeiro de 2027, conforme as previsões atuais.
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Incêndio ocorrido em 2016 na Terra Indígena Yanomami|Estêvão Benfica Senra/ISA
Para Arthur Citó, pesquisador do Inpa, os efeitos mais intensos do El Niño serão observados entre janeiro e março de 2027, com impactos para a saúde da população do estado.
“Se o fogo não estiver sob controle nesse período, podemos nos deparar com um cenário de intensa poluição atmosférica causada pela fumaça dos incêndios. Isso pode ser grave tanto para a população mais vulnerável, como crianças, idosos e pessoas com comorbidades, como para a população geral, dependendo dos níveis de poluição”, afirma Citó.
Conforme a análise do Inpa, em anos normais o fogo de incêndios se distribui pelo lavrado no nordeste de Roraima e avança em direção ao sul pelas BRs 432, 174 e 210. Enquanto em anos com influência do El Niño, os incêndios se concentram na fronteira leste da Terra Indígena Yanomami, entre a Perimetral Norte, Vila Apiaú, Vila Nova e Rio Mucajaí.
“A floresta, que costuma conter as queimadas graças à sua umidade, tem essa característica enfraquecida em fortes estiagens. Isso ajuda a deixar a fronteira leste da Terra Indígena Yanomami mais vulnerável, passando a concentrar boa parte dos incêndios em Roraima”, explica trecho do documento.
O impacto não é somente sobre o meio ambiente, envolve perdas na produção agropecuária e consequências na qualidade do ar sobre comunidades tradicionais, já que a densa fumaça é deslocada pelo vento para dentro do território Yanomami.
“Pela localização do território Yanomami, em relação à direção predominante do vento e de eventos de queimadas, é o território Yanomami que sofre os impactos do que acontece, majoritariamente, fora dele. Em geral, o contrário não tem sido observado pelos dados analisados”, detalha Arthur Citó.
Roraima pode ter até 500 mortes em razão do calor provocado pelo El Niño, é o que aponta uma estimativa do Laboratório de Impacto Climático da Universidade de Chicago. A projeção, divulgada na quarta-feira (23), também estima 13,3 mil mortes no Brasil e 451 mil em todo o mundo. O período considerado para as estimativas é de setembro de 2026 até fevereiro de 2027.
A região de Surucucu, uma das mais afetadas pelo garimpo ilegal, começou a se recuperar após a ação emergencial do governo federal. As lideranças começaram a abrir roças que já forneciam alimentos, mas os incêndios têm preocupado os indígenas quanto a viabilidade de manutenção das atividades.
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Indígena com alimentos plantados nas roças de Surucucus|Erik Veisch/Cama Leão/ISA
“Estamos preocupados com a seca na Terra Indígena Yanomami. As lideranças relatam que já está fazendo muito calor na terra e que não conseguem plantar porque com a terra quente como está, a roça vai queimar”, explica Waihiri Hekurari, presidente da Urihi Associação Yanomami.
Hekurari aponta ainda que há uma preocupação geral com os rios que devem começar a secar porque os pajés já preveem um verão forte pela frente.
“Precisamos manter o diálogo com o governo sobre como lidar com essa situação. Neste ano, plantamos muito e agora estamos recuando porque estamos preocupados ", detalha.
O governo de Roraima decretou situação emergencial no início de setembro em razão da forte estiagem. Um gabinete de crise foi montado para ações coordenadas de combate e prevenção ao El Niño.
Anomalia nas chuvas
“Roraima está todo abaixo da média (de chuvas) em outubro e tende a piorar em novembro e dezembro. Em janeiro vai chover abaixo da média, talvez no norte do estado vai se manter a média de chuvas normais”, explica Ricardo Abad, analista do ISA.
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Rio Branco, em Roraima, durante estiagem de 2024|Lucas Silva/Platô/ISA
Em fevereiro, as previsões consolidadas pelo ISA indicam uma anomalia positiva com chuvas acima da média histórica que deve seguir até março. A partir de abril, deve haver chuvas acima da média em todo o estado.
“Para maio há uma anomalia polarizada. Enquanto no norte do estado há uma previsão de chuvas acima da média, o sul apresenta um cenário de chuvas abaixo da média. Mas é preciso lembrar que maio do ano que vem é muito distante e as previsões podem mudar. Por isso, seguimos acompanhando todas as semanas”, afirma Abad.
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