Análises da Coiab e do ISA mostram impactos da onda de queimadas que teve pico no período eleitoral
Uma nota técnica elaborada pela Gerência de Monitoramento Territorial Indígena (Gemti) da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) aponta que, entre julho e a última terça (20/10), os incêndios atingiram 12 Terras Indígenas (TIs) no Amazonas. As investigações da polícia apontam para ações criminosas deliberadas.
O estudo foi realizado com base nas informações oficiais do Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a partir do cruzamento espacial de registros de focos de calor e áreas queimadas com os limites dos territórios indígenas.
Acesse o estudo produzido pela Coiab:
“Fogo, fumaça e proteção dos territórios indígenas da Amazônia Brasileira: enfrentamento às emergências climáticas”
Entre as áreas afetadas, está a TI Kaxuyana-Tunayana, habitada por 10 povos indígenas, entre eles comunidades em isolamento voluntário, como os Pitinga/Nhamundá-Mapuera e os Isolados do Rio Kaxpakuru/Igarapé Água Fria. As TIs Andirá-Marau (povo Sateré-Mawé) e Paiol, Cajual e Palhal (povos Mura e Apurinã) somaram as maiores áreas afetadas, respectivamente, 12,9 mil e 8,3 ,mil hectares. As TIs Sissaíma e Murutinga-Tracajá, ambas do povo Mura, foram as mais impactadas em termos percentuais, com 47,2% e 28,9% das suas florestas queimadas (veja tabela ao lado).
“Isso indica prioridade para verificar em campo impactos sobre áreas de uso, alimentação, mobilidade e segurança territorial, articulando registros satelitais aos relatos e decisões das próprias comunidades”, afirma o estudo.
Impactos sobre povos indígenas
As TIs são escudos contra o desmatamento ilegal e registram os menores índices de perda florestal acumulada no Brasil.
O estudo da Coiab indica que os 74,8 mil hectares queimados dentro das TIs no Amazonas representam 4,6% do total atingido pelo fogo no estado, que foi de mais de 1,5 milhão de hectares.
Em Autazes, por exemplo, 11,7 mil hectares foram queimados dentro de TI Capivara, onde vive o povo Mura. O município fica a 267 quilômetros de Manaus. Nessa região, as TIs vêm sofrendo pressões muito fortes relacionadas à mineração de potássio, assim como de fazendeiros.
“A predominância da superfície atingida fora das Terras Indígenas não significa ausência de impactos para os indígenas: a fumaça e outros efeitos do fogo podem alcançar comunidades mesmo sem ultrapassar formalmente os limites territoriais”, afirma o estudo.
“O modelo meteorológico do risco de fogo do Inpe contém informações como umidade, temperatura, ventos, dias sem chuva, o histórico de precipitação dos últimos 120 dias e a temperatura máxima da superfície. Com base nisso, elaboramos um mapa que nos permite visualizar espacialmente a situação de vulnerabilidade aos incêndios no Amazonas”, explica Renata Alves, analista de geoprocessamento do ISA.
Segundo Alves, o trabalho de prevenção aos incêndios em tempos de emergência climática é fundamental. “O bioma amazônico é altamente vulnerável aos extremos climáticos e nos últimos anos estamos vivenciando os maiores períodos de seca extrema da história”, afirma.
Investigações em andamento
Uma operação unindo os governos federal e estadual foi deflagrada no Amazonas para conter a severa crise de queimadas no estado, agravada pela ação criminosa após o primeiro turno das eleições, como apontam investigações da Polícia Civil, Polícia Federal e outros órgãos de fiscalização, como o Ibama.
O número de focos de incêndio no Amazonas entre os dias 1º e 10 de outubro cresceu 271% em relação ao mesmo período de 2025, segundo o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam). Foram registrados 1.380 focos, ante 372 registros no ano passado.
Os incêndios levaram a um cenário sem precedentes no Amazonas em relação à fumaça de queimadas. Neste período, Manaus figurou duas vezes como a cidade mais poluída do mundo na plataforma de monitoramento global IQAir.
Uma base da Força Nacional do Sistema Único de Saúde (SUS) foi implantada no estado para apoiar a população afetada pela poluição atmosférica, que enfrentou níveis de material particulado fino (PM 2,5) 80 vezes acima do recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
O Material Particulado de até 2,5 micrômetros de diâmetro (PM 2,5) refere-se a partículas finas suspensas no ar, cerca de 30 vezes menores que a espessura de um fio de cabelo humano. Por serem invisíveis a olho nu, penetram profundamente nos pulmões e atingem a corrente sanguínea, representando um sério risco à saúde.
Levantamentos do Inpe e do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) mostraram que os focos de calor dispararam de forma atípica a partir de 4 de outubro (dia do primeiro turno), concentrando-se fortemente em propriedades rurais privadas.
A suspeita de um novo Dia do Fogo logo veio à tona, como o ocorrido no Pará, em 2019. O ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, em sobrevoo no Amazonas no dia 11 de outubro, constatou que os incêndios em meio à floresta preservada evidenciavam uma ação criminosa.
A Polícia Civil do Amazonas informou ao ISA ontem (22/10) o registro de 375 ocorrências relacionadas a incêndios no estado, sendo 196 em Manaus, entre setembro e outubro, e 179 no interior, entre 1º de agosto e 18 de outubro deste ano.
Em Manaus, segundo a Polícia Civil, foram realizadas quatro prisões. No interior, foram formalizados 26 procedimentos policiais, sendo 17 inquéritos policiais, sete autos de prisão em flagrante e dois termos circunstanciados de ocorrência. Apuí, com 22 registros, Autazes, com 20, e Boca do Acre, com 15, estão entre os municípios com maior número de ocorrências.
Já a Polícia Militar anunciou a prisão de 11 pessoas ligadas aos incêndios em Autazes, conforme anúncio do governador do Amazonas, Roberto Cidade (União Brasil), no último domingo, dia 18.
Municípios líderes em queimadas no Amazonas
O sul do Amazonas, região com maior pressão de desmatamento no estado, continua a ter os maiores índices de queimadas.
A nota técnica da Coiab mostra os municípios de Apuí, Novo Aripuanã e Lábrea, todos na região da Amacro (é o acrônimo dos estados do Acre, Amazonas e Rondônia, conhecida como uma fronteira de desmatamento na Amazônia), com as maiores áreas queimadas entre julho e setembro deste ano, assim como maior número de focos de incêndio, incluindo também os primeiros 20 dias de outubro.
Já em termos percentuais do total da área municipal, Careiro da Várzea, Autazes e Urucurituba (região do Médio Amazonas) foram os mais atingidos, sendo os dois primeiros na região metropolitana de Manaus, contribuindo com a piora da qualidade do ar na capital.
O estudo integra o Plano de Adaptação climática 2026-2027 elaborado pela Coiab, que propõe utilizar sua articulação com as organizações indígenas de base nos nove estados da Amazônia Brasileira e com a União das Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira (Umiab) para levar os alertas às comunidades e transformar o diagnóstico territorial em preparação, resposta e incidência.
“O foco prioritário no Amazonas deriva da combinação de área queimada, persistência de focos, pressões sobre municípios próximos a Manaus e exposição sanitária da população”, enfatiza o plano, que abrange 5 dimensões: cobertura territorial; monitoramento e comunicação; proteção à saúde; prevenção e resposta e incidência e fiscalização.
Combate ao fogo e melhora da qualidade do ar
Treze aeronaves enviadas pela força-tarefa do governo federal lançaram mais de 1,1 milhão de litros de água sobre áreas atingidas por incêndios florestais no Amazonas desde 10 de outubro.
Até quarta (21/10), a operação havia registrado 390,5 horas de voo e 369 lançamentos de água, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).
As aulas na rede estadual de ensino continuam suspensas até essa sexta-feira, 23 de outubro, no município de Autazes e na capital, Manaus. A Secretaria de Saúde do Amazonas registrou, somente em outubro, 607 casos de internações por problemas respiratórios.
Além da operação estar conseguindo controlar os incêndios, fortes chuvas caíram na região de Manaus nesta semana, colaborando para melhorar as condições respiratórias na capital, após 14 dias ininterruptos de fumaça e qualidade do ar considerada “insalubre e perigosa”, pelo IQAir.
Nesta sexta (23/10) pela manhã, o Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), registrou qualidade do ar variando entre boa e moderada nos bairros da capital.
Nos dias 21 e 22 de outubro, o Inpe registrou 77 focos de queimada ativos no Amazonas e no período de 1 a 22 de outubro, a soma contabiliza 2.011 focos no total. Os dados apontam uma tendência de queda em relação ao pico vivido na primeira quinzena do mês.
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