A mestra ceramista, pesquisadora indígena e liderança Desana faleceu no último sábado (4), na comunidade de Cunuri, em São Gabriel da Cachoeira (AM)
Duhiti mu Ñekõ!
Yu mu parãmẽo umukohorimahsõ
Yu wirõ ni Umusipo ni mu parãmẽo.
Mu tiro a’tiapu muye di’íre di’í yasasere mure serĩgo a’tiapu, Ñeko
Vovó, a senhora se encontra aí?
Sou sua neta Gente do Universo, vim atrás de ti
Eu sou a Desana Umusipo, sua neta favorita
Eu vim atrás da senhora para pedir e buscar argila azul, minha avó
Dona Oscarina narrando o pedido de licença para Avó Argila, Di'i Mahso, que, de acordo com a narrativa de origem, foi quem ensinou às mulheres como encontrar a argila, preparar a massa e produzir os primeiros artefatos de cozinha. É esse diálogo que garante uma boa coleta e a proteção para que as peças sejam produzidas sem rachaduras.
Oscarina Caldas Azevedo, ou Umusipo, seu nome de benzimento Desana, era carinhosamente chamada de Dona Oscarina. Nasceu em 1967, em Santa Ana do Médio Tiquié, e cresceu na comunidade de Cunuri, no mesmo rio, no município de São Gabriel da Cachoeira, no extremo noroeste do Amazonas, na região conhecida como “Cabeça de Cachorro”. Aos cinco anos, começou a frequentar a escola local; aos 13, em 1980, foi para Pari Cachoeira estudar na missão salesiana, no Colégio Dom Bosco. Foi nas férias seguintes, aos quinze anos, que conheceu Rafael Azevedo, com quem foi aconselhada a casar e com quem construiria uma vida inteira de parceria.
Grande sábia e mestra ceramista, com outras mestras, moldaram a renovação que segue em andamento da rede de produção de cerâmica da bacia do Rio Uaupés, memória guardada em Cerâmica Tukano, livro do qual também é uma das autoras.
Em 2016, iniciou suas atividades como pesquisadora na rede de Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (Aimas) do Rio Tiquié. Durante esse período, foi uma das poucas mulheres pesquisadoras indígenas na sua calha de rio. Um dos seus focos era a pesquisa sobre agricultura indígena.
Por anos, além de cultivar e cuidar das suas roças com muito esmero, monitorava os ciclos das roças junto com seu marido, Sr. Rafael, também Aima. Tudo isso está registrado na revista Aru e em seu diário de pesquisa, um dos poucos da rede que mostram em primeira pessoa o mundo da mulher agricultora e provedora indígena.
O diário relata também a vida da família, os trabalhos comunitários, o processamento da comida, o trabalho dela como ceramista e como pesquisadora. Alternava trechos de beleza e dureza: "Todas as manivas estão com flores e muitas abelhas zoando nas flores. Achei ótimo ver essas abelhas cantando e tirando mel nas flores. Gostei muito da minha roça!" (…) "Apanhamos muita fumaça e calor do fogo, terminando depois de tanto sofrimento. Assim é a vida de trabalho dos agricultores."
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Sempre com muita coragem, firmeza e uma habilidade oratória cativante, Oscarina levou a voz do alto Rio Negro a espaços importantes como a COP30 e o Congresso Internacional de Etnobiologia, realizados em Belém. Fez também viagens internacionais a Berlim e Londres, visitando coleções bioculturais do Museu Etnológico de Berlim, Jardim Botânico Real de Kew e Museu Britânico. Viajou ainda a Letícia para intercâmbio de experiências de países do norte da Amazônia, e ao Rio Pira-Paraná, ambos na Amazônia colombiana, para encontro de mulheres pesquisadoras indígenas.
Oscarina foi muito querida, respeitada e admirada por mulheres e homens, indígenas e não indígenas. Não tenho dúvidas: foi uma das grandes diplomatas do Rio Negro, uma pessoa que sabia transitar e se comunicar entre mundos. Lembro nas nossas tantas conversas a sua indignação com injustiças sociais, e como ela se referia à importância das lutas do movimento indígena.
Quando penso nela, lembro da sua sinceridade afiada, sua generosidade e seu senso de humor maravilhoso. Sorte daquelas e daqueles que puderam rir junto com ela. Uma grande amiga e para mim minha família no Rio Tiquié.
Dona Oscarina deixará saudades e seus conhecimentos permanecem vivos nas suas filhas, filhos e netos, e nas muitas pessoas que puderam aprender com ela.
Depoimentos
“Dona Oscarina Caldas Azevedo foi uma importante di’i yegó (fazedora de cerâmica) do Triângulo Tukano. Ela ancestralizou, mas deixou conosco o conhecimento do fazer cerâmica, que fortaleceu e inspirou a prática na região. Não a conheci pessoalmente, mas a encontrei nas falas de outras mulheres, na memória de sua filha Solange, uma das di’i yegó de Taracuá e nas pesquisas em que Dona Oscarina foi interlocutora e referência dos saberes femininos.
Minha conterrânea do povo Dessana permanecerá viva em nossas memórias por meio da cerâmica, registrada em livros, artigos, dissertações, tese e, sobretudo, nas práticas cotidianas que atravessam gerações. Para nós indígenas, os conhecimentos das nossas avós, mães e tias não morrem, são heranças preciosas transmitidas pela oralidade e pelo fazer diário. Assim, Dona Oscarina seguirá presente em nossos corações e na argila moldada pelas mãos das novas gerações”.
Sileusa Monteiro Dessana, antropóloga e pesquisadora do fazer cerâmica
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“Com muita saudade e gratidão, nos despedimos de Dona Oscarina, uma mulher de coração enorme e dedicação exemplar. Como Aima, ela exerceu sua função com muito zelo, responsabilidade e amor, cuidando com carinho e atenção de todos que precisaram do seu auxílio. Seu trabalho foi marcado pela generosidade, paciência e compromisso – qualidades que refletiam o seu jeito de ser em tudo o que fazia. Deixa como legado o exemplo de serviço, bondade e força. Sua presença, seu cuidado e o seu sorriso ficarão para sempre guardados no coração da família, amigos e de todos que tiveram a honra de conhecê-la e receber o seu apoio.
Era a única mulher guardiã de conhecimento ancestral feminino da nossa região do Di'a wií. Aima que sempre atuou incansavelmente entre muitos Aimas de cinco regionais da FOIRN[Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro], perdemos essa mulher que representou todas as mulheres desta região e nos deixa saudade imensa. E também ela estava completando nove anos de carreira na pesquisa intercomunitária do Rio Negro. Que Deus lhe conceda a paz eterna e o descanso merecido. Sua luz continuará brilhando em cada lembrança. Sua memória viverá para sempre.”
Roberval Sambrano Pedrosa, Aima do Rio Tiquié
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“A Oscarina ocupou por muito tempo o lugar da única mulher Aima, e por isso também foi uma grande companheira minha nos encontros pelo Tiquié. Além de sua gentileza marcante, era uma pessoa engraçada, afetuosa e extremamente generosa no compartilhamento de seus conhecimentos, uma mulher de muitos talentos.
Tenho peças de cerâmica feitas por ela que guardo como verdadeiros tesouros. Em cada encontro dos Aimas, encantava a todos com sua sabedoria, sua experiência e sua disposição em ensinar, deixando sempre uma marca de cuidado e grandeza.
Comigo, em especial, sempre teve uma paciência admirável para explicar desde as coisas mais simples até os conhecimentos mais complexos. Sua capacidade de transmitir esse conhecimento era um reflexo de sua inteligência.
Seu trabalho e sua presença ao longo de tantos anos deixam um legado imenso e inesquecível. O espaço que Dona Oscarina ocupou jamais será preenchido, e sua ausência será profundamente sentida.
Obrigada, Dona Oscarina, por toda a generosidade com que compartilhou seus conhecimentos e por todo afeto que me mostrou. Seu legado seguirá ecoando pela terra, na nossa memória e nos nossos corações.”
Marina spindel, ex-assessora do Rio Tiquié
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“Foi um choque receber a notícia do falecimento da Dona Oscarina. Durante cinco anos trabalhei com ela e seu marido, Rafael, em uma pesquisa sobre a agricultura indígena no rio Tiquié, na qual registramos a produção de suas roças, o tempo dedicado às atividades agrícolas e diversos outros aspectos do sistema agrícola tradicional. Nesse período, fiquei muitas vezes hospedado em sua casa, o que me deu a oportunidade de conhecer melhor Dona Oscarina e sua família acolhedora.
Dona Oscarina, Desana do clã Yugu Wirã, era uma mãe dedicada, esposa firme, trabalhadora, agricultora e ceramista. Além disso, foi uma pioneira. Tornou-se a primeira mulher a atuar como Aima e também foi bolsista em etnobotânica no projeto O valor das coleções bioculturais no Brasil: integrando diversas bases de dados. Guerreira como era, não se intimidou diante de seus colegas homens em uma atividade que, até então, era predominantemente masculina.
O Rio Tiquié ficará um pouco mais vazio sem a presença dela. Meus sentimentos ao Rafael, às filhas e aos filhos, aos demais familiares e a todos que tiveram o privilégio de conviver com Dona Oscarina.”
Pieter Van der Veld, ex-assessor no Rio Tiquié
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Conheci Dona Oscarina, inicialmente, de forma indireta, acompanhando sua trajetória desde os primeiros anos de atuação como Aima da Coordenadoria DIA WI'Í. Sempre a admirei. Ela foi uma mulher sábia, guerreira e determinada, que aceitou o desafio de se tornar pesquisadora e levou a voz das mulheres indígenas para além das fronteiras do Brasil, defendendo, em diferentes espaços internacionais, a importância do trabalho das Aimas. Em agosto de 2025, tive a alegria e a honra de conhecê-la pessoalmente durante o intercâmbio realizado em Letícia, na Colômbia, a convite do ISA, quando participei representando a FOIRN. Ali pude confirmar tudo o que já admirava nela: uma pessoa maravilhosa, carinhosa, sorridente, compreensiva e sempre disposta a incentivar quem estava ao seu redor. Nossas conversas foram marcadas por ideias, ensinamentos e reflexões que jamais esquecerei.
Depois daquele encontro, continuamos mantendo contato pelo WhatsApp, fortalecendo ainda mais esse vínculo de respeito e amizade. Tivemos também a oportunidade de estarmos juntos no lançamento da Revista ARU 6, durante a COP30, em Belém, momento em que sua contribuição foi fundamental ao compartilhar, com a sabedoria de quem vive e conhece profundamente seu território, os impactos das mudanças climáticas sobre os povos indígenas. Dona Oscarina deixa um legado de coragem, conhecimento e compromisso com a defesa da vida, da floresta e dos direitos dos povos indígenas. Sua memória permanecerá viva em cada ensinamento compartilhado, em cada luta inspirada por sua trajetória e no coração de todos que tiveram o privilégio de conhecê-la.
Forte abraço aos familiares. Creio eu que ela se encontra num lugar muito melhor e que Deus a receba na morada eterna com a glória merecida.”
Hélio Tukano, diretor-presidente da FOIRN, coordenadoria Diawii
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“É com profundo pesar que nos despedimos de Dona Oscarina Caldas Azevedo, do povo Desana, cuja partida deixa uma imensa saudade e um legado que permanecerá vivo na memória de todos que tiveram o privilégio de conhecê-la.
Como Aima e pesquisadora dedicada, Dona Oscarina desempenhou um papel fundamental na valorização dos conhecimentos tradicionais, contribuindo com sabedoria para a observação dos ciclos da natureza, das constelações e para o monitoramento dos impactos das mudanças climáticas. Sua trajetória foi marcada pelo compromisso com a proteção do território, pelo fortalecimento da cultura indígena e pela partilha generosa de seus conhecimentos.
Manifestamos nossa mais sincera gratidão por toda a colaboração, dedicação e compromisso que sempre demonstrou junto à nossa Federação e à sua região de referência (DIAWI'I). Sua contribuição foi inestimável e continuará sendo uma referência para todos nós, especialmente a nós mulheres indígenas do Rio Negro.
Dona Oscarina estará para sempre em nossas memórias, não apenas por sua valiosa atuação como Aima, mas também pela sabedoria, generosidade e inspiração que compartilhou ao longo de sua vida. Seu legado seguirá vivo em cada ação voltada à valorização dos conhecimentos indígenas e ao cuidado com a natureza.
Neste momento de despedida, expresso meus mais sinceros sentimentos aos familiares e amigos. Que encontrem conforto na certeza de que sua história continuará inspirando muitas gerações.
Descanse em paz, Dona Oscarina. Sua memória permanecerá viva em nossos corações.”
Janete Dessana, vice-presidente da FOIRN
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“Dona Oscarina, a Osca... dona da cerâmica, da roça e da vida. Escrever sobre Dona Oscarina na sua passagem, como forma de despedida. tem certamente um significado diferente...de tristeza profunda, mas também de reconhecimento e homenagem. É preciso voltar atrás e tentar lembrar, quando, naquele ano de 2017, vi pela última vez o seu olhar, ouvi sua conversa e as suas gargalhadas e tudo que aprendi com ela antes disso…
Conheci a Dona Oscarina, mulher Desana do Clã Yuhugo, moradora de Acará Poço, Médio Rio Tiquié, nos idos de 2005, quando comecei a trabalhar no Programa Rio Negro do ISA. Mas foi em 2008 que nossos caminhos se cruzaram com mais força quando eu coordenava, junto com as jovens Tuyuka, a linha de pesquisa sobre conhecimentos femininos na Escola Utapinopona Tuyuka, e surpreendentemente, fui orientada a chamar uma mulher Desana, do médio Tiquié, para conduzir atividades de ensino-aprendizagem da cerâmica para as jovens Tuyuka, Tukano e Yebamahsã do Alto Tiquié, região conhecida pela resistência dos conhecimentos tradicionais.
Nessa época Oscarina ministrou oficinas de cerâmica e foi uma das conhecedoras que participou de um intercâmbio de conhecimentos entre mulheres indígenas Tukano-Orientais do Brasil e da Colômbia, do Alto Tiquié e do Rio Pirá Paraná (no Apapóris, afluente do Japurá). Nesses momentos, Oscarina, mostrou com maestria as diferentes etapas da confecção da cerâmica, contou histórias, falou das regras para a confecção das peças e contribuiu na formação de jovens moças, compartilhando generosamente seus conhecimentos, sem “sovinar”. Dessa maneira, participava ativamente, do início de um movimento que foi se constituindo aos poucos no Alto Rio Negro, através de iniciativas específicas nas calhas dos rios, de valorização das mulheres como conhecedoras e do fortalecimento da transmissão de seus conhecimentos em novos formatos, algo que havia sido muito restrito na região aos conhecedores e conhecimentos masculinos. Oscarina foi, portanto, pioneira.
Reencontrei Oscarina em 2014, durante o doutorado, e nessa época acompanhei um procedimento de parto em Pirarara-poço, comunidade vizinha da sua. Naquela ocasião, seu esposo Rafael realizou a maior parte dos procedimentos xamânicos necessários para o nascimento e nominação de uma criança e Oscarina realizou massagens na parturiente, orientou-a sobre posições adequadas para dar à luz e sobre os cuidados pós-parto entre mãe, pai e bebê. Ao acompanhar o parto e me hospedar na casa de Osca por algumas semanas, pude compreender a importância do companheirismo entre casais de conhecedores Tukano Orientais e muito mais do que isso, a beleza e a profundidade da parceria que existia entre Osca e Rafa.
Em 2017, nos reencontramos mais uma vez e eu não imaginava que essa seria a última vez. Dessa vez, durante o pós-doutorado, passei mais alguns dias na casa de Oscarina e nessa época ela era a única Aima mulher na região do rio Tiquié, sendo extremamente respeitada pelos demais Aimas pelo seu vasto conhecimento.
Acompanhava ela na roça e conversávamos todas as noites, Osca, eu e Rafael sobre as manivas e seus significados para estes povos. Ali pude compreender o quão denso eram aqueles conhecimentos. Oscarina, dona de roça, promotora de biodioversidade, encantadora de manivas, foi uma interlocutora central, porque fundamentou de maneira territorializada, a profunda conexão cosmológica e prática entre as mulheres, suas roças e os artefatos de trabalho. Por meio de suas memórias biográficas e exegeses cotidianas, ela demonstrou na prática o conceito da roça como uma ‘coleção’ de domínio exclusivamente feminino, ilustrado pelas 18 variedades de manivas que manejava, além de remédios, muitos deles, do âmbito do segredo feminino. Oscarina contribuiu de maneira fundamental para demonstrar as bases de uma ‘ética do cuidado’, revelando que a maniva é tratada como ‘uma pessoa’ que se alegra ao ser bem tratada e sofre como uma criança se for negligenciada, e ao detalhar as conexões diretas entre os benzimentos xamânicos (bahsese) e o sucesso na produtividade do processamento da mandioca.
Enfim, suas reflexões sobre a pedagogia tradicional vivida na própria infância e sua análise crítica sobre o atual desinteresse das novas gerações escolarizadas pelo trabalho agrícola mapearam com precisão as transformações sociais e os desafios da transmissão de saberes femininos no noroeste amazônico contemporâneo.
Adeus Dona Oscarina... sua sabedoria viverá para sempre nos corações e nos pensamentos das novas gerações, contribuindo para a continuidade do vasto território e da biodiversidade do alto Rio Negro.”
Melissa Oliveira, dra. em Antropologia Social
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