Série com seis episódios compartilha experiências e sugestões de povos e comunidades tradicionais para lidar com eventos climáticos extremos
O Instituto Socioambiental (ISA) lançou nesta quinta-feira (10/09) uma série especial de boletins de áudio sobre o El Niño, fenômeno climático que já impacta várias regiões do país em 2026. A série integra o podcast “Vozes do Clima” e será composta de seis episódios de até 10 minutos cada.
O objetivo é apresentar como os efeitos do El Niño vêm se intensificando com o aquecimento global e as mudanças climáticas e apresentar sugestões sobre como lidar com escassez de chuva, estiagem prolongada, ondas de calor, chuvas fortes, alagamentos e insegurança alimentar.
O episódio de lançamento explica o fenômeno e sua intensidade em 2026 e 2027, que deu a ele o nome de “Super El Niño”. Também traz estratégias preventivas, inspiradas em aprendizados gerados nos territórios onde o ISA trabalha.
Ouça agora!
A apresentação do primeiro episódio é de Raimundo Quilombola, comunicador da Rádio Rampa, do Quilombo Rampa, no Maranhão. As vozes são de Nicéia Santos, do Quilombo Maria Rosa, em São Paulo, e integrante da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq); e de Tépãncipa - também conhecido como Clarindo Chagas - benzedor e conhecedor do povo indígena Tariana, em Barcelos, Amazonas.
O Super El Niño
O El Niño é um processo natural, que ocorre de tempos em tempos, quando as águas da parte superficial do Oceano Pacífico ficam mais quentes que o normal. Isso altera as movimentações do vento, a formação de nuvens e a distribuição das chuvas em várias partes do planeta. Em alguns lugares, chove muito pouco; em outros, chove demais.
Como o planeta está mais quente em consequência do aquecimento global, as águas do pacífico podem esquentar ainda mais, tornando o El Niño mais forte e mais frequente, causando mais impactos e piorando a crise climática. Agora em 2026 e 2027 a previsão é de um El Niño mais forte que o anterior. Por isso, ele está sendo chamado de Super El Niño.
A maioria das previsões indicam que os efeitos mais graves devem começar a partir de outubro, terão o pico em dezembro e podem se prolongar pelo primeiro semestre de 2027. Esses eventos extremos afetam a vida de toda a população, mas para indígenas, quilombolas, povos e comunidades tradicionais e populações periféricas, pode ser ainda pior.
“Meu pai plantou uma uma roça grande de arroz e deu uma chuvarada assim que não produziu”, conta Nicéia Santos, liderança quilombola do Vale do Ribeira.
A perda da roça foi por causa do El Niño de 2023 e 2024. A região do Vale do Ribeira, em São Paulo, e áreas dos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul sofreram com fortes chuvas e enchentes.
“Eu converso com o espírito da floresta. Eu converso com o reino das águas. Mas não adianta mais a gente conversar, porque a gente não vai conseguir manter, porque essa mudança é muito drástica, é muito forte e grande. A mãe Terra já foi muito destruída, por causa do ouro, do desmatamento”, completa Clarindo Chagas, com sua sabedoria de benzedor.
Na Amazônia, os rios já estão sendo impactados. No alto e médio Rio Negro, região onde vivem Clarindo e seus parentes indígenas, as águas continuam baixando de forma acelerada. A vazão do Rio Xingu, que já sofre por causa da operação da Usina Belo Monte, está diminuindo ainda mais.
Papel do Estado
Para as lideranças ouvidas no “Vozes do Clima”, além das ações desenvolvidas pelos povos da floresta, o poder público também precisa investir em políticas de prevenção, mitigação e adaptação para enfrentar os impactos do Super El Niño. A sociedade precisa unir esforços e cobrar ação dos governos, que muitas vezes não chegam aos territórios mais afetados.
“A gente queria que o Estado, as prefeituras, o governo como um todo, sentassem com a gente enquanto comunidade tradicional e perguntassem: ‘Como vocês estão vivendo, sobrevivendo até hoje?’. Acho que aí a gente conseguiria buscar caminhos para tentar mudar essas essas mudanças”, pontua Nicéia.
“A gente tenta conversar com autoridade, com instituições governamentais, eles não tem resposta, infelizmente. Mas eu fico matutando na minha cachola que tem que ser rápido”, finaliza Clarindo.
O que é o “Vozes do Clima” e a série especial sobre o El Niño?
O boletim de áudio “Vozes do Clima” é uma realização do ISA, com produção da produtora de podcasts Bamm Mídia e apoio da Environmental Defense Fund (EDF), e propõe levar informações a povos e comunidades tradicionais sobre os temas relacionados à pauta climática. Além de ser distribuído via Whatsapp e Telegram, o programa poderá ser ouvido nas plataformas de áudio Spotify, iHeartRadio, Amazon Music, Podcast Addict, Castbox e Deezer.
Já a série especial de seis episódios sobre o El Niño faz parte do “Vozes do Clima” e leva o tema às comunidades dos territórios onde o ISA trabalha, como as bacias do Rios Xingu (Mato Grosso e Pará), do Rio Negro (Amazonas e Roraima) e do Ribeira de Iguape (Paraná e São Paulo).
Os próximos episódios abordarão temas como: prevenção e controle de incêndios; produção e extrativismo; segurança alimentar; impactos dos extremos climáticos na saúde; e governança local e regional.
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