Manchetes Socioambientais
As notícias mais relevantes para você formar sua opinião sobre a pauta socioambiental
“O encontro entre índios e brancos só se pode fazer nos termos de uma necessária aliança entre parceiros igualmente diferentes, de modo a podermos, juntos, deslocar o desequilíbrio perpétuo do mundo um pouco mais para frente, adiando assim o seu fim.”
Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo, um dos fundadores do ISA
O tema "Povos Indígenas" está na origem da existência do Instituto Socioambiental. Lá se vão pelo menos quatro décadas de comprometimento e trabalho com o tema, produzindo informações para a sociedade brasileira conhecer melhor seus povos originários. Desde sua fundação, em 1994, o ISA dá continuidade ao trabalho do Centro Ecumênico de Documentação e Informação (Cedi), que havia sido iniciado em 1980 e que, por sua vez, remonta ao começo dos anos 1970, quando o então governo da ditadura militar lançava o Plano de Integração Nacional, com forte componente de obras de infraestrutura na Amazônia, região que era então descrita pelo discurso oficial como um "vazio demográfico".
Por meio dos relatos coletados, dados produzidos e pesquisas empreendidas por uma rede de colaboradores espalhada pelas diversas regiões do País, o Cedi ajudou a derrubar essa tese. Ao dar publicidade às informações levantadas por essa rede social do tempo do telex, o Cedi colocou, definitivamente, os povos indígenas e suas terras no mapa do Brasil. Seus integrantes ainda participaram ativamente no movimento de inclusão dos direitos indígenas na Constituição de 1988 e, juntamente com integrantes do Núcleo de Direitos Indígenas (NDI) e ativistas ambientais, fundaram o ISA em 1994.
De lá para cá, ampliando sua rede de colaboradores em todo o País, o ISA se consolidou como referência nacional e internacional na produção, análise e difusão de informações qualificadas sobre os povos indígenas no Brasil. O site "Povos Indígenas no Brasil", lançado em 1997, é a maior enciclopédia publicada sobre as etnias indígenas no Brasil, com suas línguas, modos de vida, expressões artísticas etc. O site é uma das principais referências sobre o tema para pesquisadores, jornalistas, estudantes e acadêmicos.
A atuação hoje é transversal aos territórios onde atuamos, especialmente na Bacia do Xingu, no Mato Grosso e Pará, e Bacia do Rio Negro, no Amazonas e Roraima, e também envolve povos indígenas de todo o Brasil, por meio da atualização permanente do site e de seus mais de 200 verbetes, inclusão de novos textos sobre etnias emergentes e indígenas recém-contatados, além do monitoramento e cobertura jornalística sobre situações de violência e perda de direitos contra estas populações. O tema "Povos Indígenas" ainda é tratado no site "PIB Mirim", voltado ao público infanto juvenil e de educadores.
O monitoramento de Terras Indígenas também é um eixo central do nosso trabalho com o tema, e remonta à sistematização de dados e divulgação de informações iniciada pelo Cedi em 1986, e se dá por meio da produção de livros impressos e mapas temáticos sobre pressões e ameaças, como desmatamento, mineração, garimpo, obras de infraestrutura, entre outras, além do site "Terras Indígenas no Brasil".
Confira os conteúdos produzidos sobre este tema:
|
Imagem
|
Em formato de enciclopédia, é considerado a principal referência sobre o tema no país e no mundo |
|
Imagem
|
A mais completa fonte de informações sobre o tema no país |
|
Imagem
|
Site especial voltado ao público infanto-juvenil e de educadores |
|
Imagem
|
Painel de indicadores de consolidação territorial para as Terras Indígenas |
Até o momento não há vestígios de indigenista e jornalista desaparecidos na região da cidade de Atalaia do Norte (AM). Sociedade civil cobra mais empenho do governo nas buscas
O jornalista britânico Dom Phillips, colaborador do jornal The Guardian no Brasil, e o indigenista Bruno Araújo Pereira, servidor da Fundação Nacional do Índio (Funai), estão desaparecidos, desde domingo (5), na região do município de Atalaia do Norte, no extremo oeste do Amazonas. Segundo a União das Organizações Indígenas do Vale do Javari (Univaja), a última informação do paradeiro deles foi da comunidade São Gabriel, rio abaixo da comunidade São Rafael.
A dupla estava em campo para visitar a equipe de vigilância da Univaja na localidade Lago do Jaburu, a 15 minutos de São Rafael. O lago também está nas proximidades da Base de Vigilância da Funai no Rio Ituí, uma das quatro existentes na Terra Indígena Vale do Javari, a segunda maior do país, com 8,5 milhões de hectares. A região é alvo de conflitos e invasões provocados por madeireiros, garimpeiros, pescadores ilegais e pelo narcotráfico internacional.
Após pressão da Embaixada da Inglaterra e a comoção que tomou parte das redes sociais, a Marinha e a Polícia Federal iniciaram timidamente, na tarde da segunda-feira (6), as buscas, mas sem nenhum resultado concreto até agora. Apesar do governo federal ter divulgado uma nota, o presidente Jair Bolsonaro banalizou o caso, como em diversas outras situações, sugerindo tratar-se de uma “aventura não-recomendável”, como divulgou o canal R7.
A Univaja, o Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato (OPI) e a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) publicaram uma nota pública, denunciando a omissão do Estado e exigindo a rapidez nas buscas dos dois profissionais.
Confira a nota na íntegra:
A UNIVAJA (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari), o Opi (Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato), a COIAB (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira) e a APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) informam que o indigenista Bruno Araújo Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips seguem desaparecidos desde a manhã deste domingo (dia 05 de junho de 2022), quando viajavam em uma embarcação de pequeno porte entre a comunidade ribeirinha São Rafael e a cidade de Atalaia do Norte, no rio Itaquaí (afluente do rio Javari), no estado do Amazonas.
Durante todo o dia de segunda-feira, 6 de junho, a equipe de vigilância da UNIVAJA continuou a estabelecer articulações e solicitar pedidos para que as instituições que operam na fronteira pudessem ampliar as buscas que a organização indígena já tinha iniciado no domingo (dia 5), realizando duas incursões na região sem obter resultado. Foram acionados o Comando de Fronteira Solimões/8° Batalhão de Infantaria de Selva (Cmdo Fron Solimões/8°BIS), a Capitania Fluvial de Tabatinga, o Departamento da Polícia Federal de Tabatinga, o 8° Batalhão da Polícia Militar e o Ministério Público Federal de Tabatinga.
Com exceção dos 06 Policiais Militares e de uma equipe da Funai, que iniciaram as buscas ainda ontem junto com a equipe da Univaja, as informações acerca do cenário das buscas revelam a omissão dos órgãos federais de proteção e segurança, assim como das Forças Armadas. Embora tenha sido instado a colaborar com um efetivo de 25 militares, o exército brasileiro até o presente momento não disponibilizou nenhum efetivo para a operação. A Polícia Federal, da mesma forma, deslocou um único delegado para Atalaia do Norte, junto com oficiais da Marinha que se deslocaram ainda ontem para Atalaia. Ressaltamos que não foi constituída uma Força-Tarefa para as operações de busca.
A Univaja e a Defensoria Pública da União - DPU recorreram à Justiça Federal (processo de número 1004249-82.2018.4.01.3200) pedindo: “a) Que a União viabilize o uso de helicópteros à Polícia Federal, sejam eles das Forças de Segurança ou das Forças Armadas, pois até o presente momento não existem helicópteros auxiliando as buscas, o que seria imprescindível; b) ampliação das equipes de buscas; c) ampliação do número de barcos”. A solicitação da UNIVAJA foi feita diante da necessidade de serem realizadas buscas tanto por meio fluvial como por meio aéreo. Ressaltamos que na região de Tabatinga se encontram efetivos e pelotões de fronteira das Forças Armadas. Até o momento, no entanto, o número de agentes disponibilizados é ínfimo diante da urgência em se encontrar o paradeiro do indigenista e do jornalista desaparecidos.
Durante todo o dia 6, as articulações da UNIVAJA tiveram apoio de parlamentares da Câmara dos Deputados e do Senado. A Frente Parlamentar Indígena oficiou o ministro da Justiça e Segurança Pública, a Diretoria da Polícia Federal e a Superintendência da Polícia Federal em Manaus. Os Gabinetes dos Senadores Randolfe Rodrigues (REDE) e Jaques Wagner (PT/BA), bem como o Ofício da liderança da minoria na Câmara, reiteraram as solicitações ao MJSP e Ministério da Defesa para emprego de maiores efetivos nas buscas.
Na tarde do dia 6, o Comando Militar da Amazônia (CMA) divulgou nota informando que tem condições para realizar “missão humanitária de busca salvamento” mas que as ações só “serão iniciadas mediante acionamento por parte do Escalão Superior”. Dadas as características de logística, infraestrutura, eficácia operativa e capacidade de intervenção imediata em ações humanitárias garantidas pela autoridade militar na Amazônia, assistimos com perplexidade à demora, hesitação e lentidão do “Escalão Superior” para implementar de forma imediata as ações de busca e salvamento. Apesar do que tem sido veiculado nos canais oficiais do Ministério da Justiça, por exemplo, e em alguns veículos de imprensa, não há força tarefa atuando na região de maneira efetiva.
Já na manhã de hoje (07/06), a Assessoria Especial de Imprensa do Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) divulgou uma nota informando que o “Departamento de Polícia Federal (PF) está atuando naquela região e tomando todas as providências para localizá-los o mais rápido possível. A PF fez repetidas incursões e tem contado com o apoio da Marinha do Brasil, que se somou aos esforços nos trabalhos de buscas de ambos os cidadãos”. Tais informações divulgadas pelo Governo Brasileiro, no entanto, não são verdadeiras, considerando que na data de ontem a Marinha do Brasil ainda não havia iniciado as buscas e apenas 01 agente da Polícia Federal havia sido deslocado para a região.
A principal informação que temos até agora é a de que a Polícia Civil deteve dois dos principais suspeitos de estarem envolvidos com o desaparecimento (pescadores identificados apenas por "Churrasco" e "Jâneo") no início da noite da segunda-feira. Ambos foram levados para a cidade de Atalaia do Norte para prestar esclarecimentos. Segundo informações do movimento indígena, os dois suspeitos foram liberados depois de intervenção do poder público local de Atalaia do Norte. Há informações também de que um terceiro suspeito, conhecido por “Pelado”, está foragido na floresta, na região das comunidades ribeirinhas em questão.
Diante dessa situação desgovernada, a UNIVAJA convocou as instituições para uma Sala de Situação na manhã de hoje (7 de junho), na cidade de Atalaia do Norte-AM. No entanto, apenas o já mencionado efetivo de seis policiais militares participou da reunião.
Hoje as buscas prosseguem. As equipes formadas pela Equipe de Vigilância da UNIVAJA (EVU) e pela Polícia Militar seguem com o objetivo de encontrar tanto os desaparecidos quanto o suspeito foragido.
A região do desaparecimento condensa conflitos graves num clima de violência em que madeireiros, pescadores ilegais e o narcotráfico internacional exercem suas atividades no entorno e no interior da Terra Indígena Vale do Javari, diante da incapacidade e omissão dos órgãos responsáveis pela fiscalização e proteção dos territórios indígenas. Esse cenário exige uma intervenção organizada e bem articulada das forças de segurança pública, numa necessária interlocução e cooperação com as organizações indígenas locais, que têm assumido desde o primeiro momento a iniciativa pelas buscas e apuração dos fatos, uma vez percebido o desaparecimento de Bruno Pereira e Dom Phillips.
Ressaltem-se os trágicos precedentes ocorridos na região em 2019, quando o colaborador da Funai Maxciel Pereira dos Santos, da Frente de Proteção Etnoambiental do Vale do Javari, foi brutalmente assassinado a tiros em sua residência em Tabatinga. A sensação de impunidade se consolidou diante da ausência de julgamento e punição do crime perpetrado contra Maxciel por invasores da Terra Indígena Vale do Javari. A Base de Proteção Etnoambiental Ituí, situada nas proximidades do local do desaparecimento, também foi atacada recentemente em oito episódios de violência armada contra indígenas e funcionários da Funai. Essas e outras situações vem sendo sistematicamente denunciadas às autoridades pelo movimento indígena, inclusive ao Supremo Tribunal Federal, no âmbito da ADPF nº 709, pela APIB.
Diante desse panorama, torna-se necessária de maneira urgente uma ação eficaz de apuração dos fatos e de busca imediata: cada hora que passa coloca em risco definitivo a possibilidade de sobrevivência dos dois desaparecidos, ao mesmo tempo em que faz crescer a consolidação de um território sem lei, nas mãos de criminosos confiantes nos seus plenos poderes perante a incapacidade de atuação dos representantes legítimos do Estado de direito.
Durante a jornada de ontem, circularam informações sobre as limitações das forças de segurança para obter, entre outros meios, helicópteros que dessem o necessário suporte às operações de busca, o que é imprescindível para complementar as ações fluviais e terrestres dadas as condições geográficas da região. As Forças Armadas e de segurança pública não deveriam poupar esforços para garantir direitos fundamentais colocados em xeque no atual cenário do vale do Javari.
Nesta região, avança de forma cada vez mais descontrolada a violência exercida mediante a invasão das terras indígenas e outras terras da União, a repressão contra a liberdade de imprensa e o exercício do jornalismo e a ameaça impune contra a vida e a atuação de servidores públicos engajados no cumprimento da Constituição Federal. Diante deste quadro de quebra drástica dos fundamentos da democracia, é urgente uma intervenção do Governo Brasileiro para uma efetiva busca e salvamento do indigenista Bruno Araújo Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips.
Assistimos uma vez mais o atual Governo Brasileiro se omitir de suas responsabilidades diante da escalada de violência contra os povos indígenas e defensores de direitos humanos no Brasil. A UNIVAJA e o movimento indígenas e seus aliados, ao contrário, não estão medindo esforços, estando de forma permanente na área do ocorrido, realizando o trabalho de vigilância indígena para encontrar nossos amigos Bruno e Dom.
Atalaia do Norte, Amazonas, 07 de junho de 2022
União dos Povos Indígenas do Vale do Javari - UNIVAJA
Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato - Opi
Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira - COIAB
Articulação dos Povos Indígenas do Brasil - APIB
Notícias e reportagens relacionadas
#ElasQueLutam! Uma das lideranças de maior projeção nacional e internacional, Soninha não mede esforços para garantir direitos e amplificar as vozes e visões dos povos indígenas
Perfil publicado originalmente em 20 de abril de 2021 e atualizado em 26 de maio de 2022.
“Não podemos arredar o pé da luta pelos nossos direitos”. Em 2021, quando a pandemia de Covid-19 não permitiu que os povos indígenas se reunissem em Brasília para a maior mobilização do movimento, o Acampamento Terra Livre (ATL), pelo segundo ano consecutivo, foi assim que Sonia Guajajara, coordenadora-executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) resumiu o momento. À época, o ATL 2021 seguiu virtualmente, ocupando redes e demarcando telas.
É esse tipo de atitude que dá o tom da trajetória de Soninha, como é carinhosamente conhecida. Na última segunda-feira (23), o compromisso com os direitos dos povos indígenas e com a luta do movimento indígena lhe rendeu um lugar na lista das 100 personalidades mais influentes do ano da revista Time. “É um reconhecimento da luta indígena global, que é coletiva e defende o futuro de toda a humanidade”, ela escreveu em sua conta do Twitter após a publicação da lista.
“Eu já nasci militando”, ela contou ao jornal Brasil de Fato. “Todo tempo eu queria encontrar um jeito de contar como trazer essa história e essa vida dos povos indígenas para um conhecimento da sociedade”. Formou-se em Letras e Enfermagem e atuou por muitos anos nas duas áreas. Mas, em 2001, participou do seu primeiro encontro nacional indígena e percebeu que sua missão seria se dedicar à luta coletiva dos povos originários.
Sonia começou na Coordenação das Articulações dos Povos Indígenas do Maranhão (COAPIMA), onde ajudou a dar um fôlego cada vez maior ao movimento indígena do estado. Migrou então para a vice-coordenação da Coordenação dos Povos Indígenas da Amazônia (Coiab) e, ao fim dos quatro anos de mandato, foi eleita para a coordenação da Apib. Hoje, ela talvez seja a liderança feminina de maior projeção nacional e internacional, e não mede esforços para garantir direitos duramente conquistados e amplificar as vozes e visões dos povos indígenas.
“Nós estamos aqui para fazer diferente e mostrar a Terra como a Mãe Terra, esse bem sagrado, que precisa de cuidado, que dá sustento e que garante a vida”, afirmou ao Instituto Escolhas. “O desafio só cresce e agora é como se a gente voltasse de novo para o início, de retomar a briga pela demarcação dos territórios, que, para nós, é a bandeira de luta maior e principal dos povos indígenas”.
Em quase duas décadas de mobilização, Sonia alçou voo, assumiu posições de destaque e ajudou a fortalecer a presença feminina no movimento indígena e em outros espaços. Atualmente, como gosta de lembrar, já vê muitas outras colegas à frente de associações indígenas e até mesmo atuando na política partidária. Nas eleições presidenciais de 2018, Sonia foi candidata a vice na chapa de Guilherme Boulos (PSOL). “Eu não tenho dúvidas de que o resultado político da minha candidatura motivou e abriu muitos caminhos para outras mulheres se candidatarem”, disse ao jornal O Globo.
“Estamos aqui demarcando o nosso território, nosso espaço de fala, nossa participação enquanto mulher guerreira. A nossa voz precisa ecoar pelo mundo”, avisou, em discurso durante a 1ª Marcha das Mulheres Indígenas. Sempre ao lado de suas companheiras, as mulheres da terra, das águas e das florestas, Soninha ajudou a fundar a ANMIGA, a Articulação Nacional das Mulheres Indígenas – Guerreiras da Ancestralidade, que une os saberes, tradições e resistências das indígenas de todo o país.
“A gente não vai desistir”, salientou à agência Pública. “Não há outro jeito de a gente continuar vivo, de a gente continuar existindo, se não for por meio da luta”.
#ElasQueLutam é a série do ISA sobre mulheres indígenas, ribeirinhas e quilombolas e o que as move! Acompanhe no Instagram
Notícias e reportagens relacionadas
#ElasQueLutam! Atenta à luta pelo território desde criança, a jovem indígena tornou-se advogada por acreditar no coletivo e querer contribuir com seu povo
Quando criança, Samara Pataxó queria ser professora. “Eu tinha a intenção de crescer e ser uma profissional que somasse [na luta]”, conta. Foi assim até o Ensino Médio, quando, após um período como Jovem Aprendiz no escritório da Fundação Nacional do Índio (Funai), decidiu se tornar advogada.
“Eu vi que não só a minha aldeia, mas outras, enfrentavam problemas parecidos: falta de políticas públicas, falta de demarcação. Foi aí que eu escolhi um curso que eu pudesse ajudar o meu povo”.
Mas a dedicação com a luta pelos direitos dos seus começou bem antes. Aos dez, presenciou a demarcação da Terra Indígena Coroa Vermelha (BA), em um processo incompleto que deixou de fora vários trechos de ocupação tradicional e consolidou dentro dela a importância da luta pela defesa o território. Desde cedo, observou a atuação do avô, Manuel Siriri, liderança fundamental na organização da comunidade indígena de Coroa Vermelha.
Mas é à escola básica, que frequentou dentro do território, que ela atribui sua formação para o movimento indígena.
“Meus avós, meus pais, não tiveram acesso à escola, ao ensino. Mas eu tenho a sorte de crescer em uma geração em que essa situação se tornou diferente,” comenta. “A gente tem na escola indígena o ensino da língua materna, o fortalecimento da cultura, da nossa identidade. Há todo um preparo da criança indígena para ela ser uma adulta que vai estar na luta. E essa foi a minha formação”.
Antes mesmo de se formar, Samara já participava de reuniões da comunidade, auxiliava as lideranças a elaborarem documentos e denúncias e atuava na assessoria jurídica de organizações de base. “O meu estágio foi na luta”, relata. Um contraste claro à experiência universitária, onde as questões indígenas mal eram abordadas.
“[Com] o sistema de cotas, você começa a ter indígenas, negros, quilombolas, na universidade. Porém, o tipo de ensino é o mesmo, os professores são os mesmos”, explica.
O curso universitário foi um desafio. Não só ela estava vivendo há 700 quilômetros de casa, em Salvador, mas ainda precisava se desdobrar para incluir a perspectiva do direito indígena nas discussões em classe. Mas, entendendo sua presença na universidade como uma estratégia de luta construída desde muito antes, por todos que acreditaram nela, seguiu em frente e concluiu o curso.
Outra das inspirações de Samara para cursar direito tem nome e sobrenome: Joenia Wapichana, hoje deputada federal pela Rede de Roraima, a primeira mulher indígena a eleger-se para o Congresso. À época, Joenia começava a ganhar relevância no cenário nacional por ser a primeira advogada indígena a fazer uma sustentação oral no Supremo Tribunal Federal (STF), no caso da Terra Indígena Raposa Serra do Sol (RR).
“Ter mulheres indígenas como referência é muito importante. Essas mulheres que acabam assumindo certos protagonismos, sendo pioneiras em determinados lugares, elas abrem caminhos para outras mulheres”, explica. “Eu recebo feedbacks diariamente de outras mulheres jovens indígenas. Assim como eu tive a Joenia como inspiração, essas meninas jovens têm a mim.”
Em 2021, Samara pôde seguir os passos da parlamentar, fazendo a primeira sustentação oral de sua vida no STF, durante o julgamento que irá definir o entendimento sobre a tese do “marco temporal” das demarcações. “Foi uma megaresponsabilidade. Como eu iria sintetizar uma defesa tão importante em cinco minutos? Quais [seriam] as minhas contribuições nesse tema?”, relembra.
Apesar do nervosismo, ela criticou o marco temporal de maneira brilhante e foi bastante elogiada nas redes sociais. “Não há como construir uma tese sobre Terras Indígenas sem considerar as vidas dos povos indígenas,” salientou em sua sustentação. “E não há como falar de vida sem a proteção de nossos territórios”.
🏹 Samara Pataxó (@PataxoSamara)
— socioambiental (@socioambiental) 2 de setembro de 2021
✅ Povo Pataxó, na Bahia
✅ Assessora jurídica da @ApibOficial
✅ Doutoranda em Direito na @unb_oficialhttps://t.co/w5SzDCfou1
O julgamento foi um dos pontos altos de uma intensa trajetória de atuação no movimento indígena. Nos últimos anos, Samara passou pelas instâncias local, regional e nacional, trabalhando no Movimento Unido dos Povos e Organizações Indígenas da Bahia (Mupoiba), na Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme) e n Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). Agora, continua a batalha por direitos indígenas em novas trincheiras, assessorando e implementando um núcleo de diversidade no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
“É uma grande responsabilidade [ocupar esses espaços]. Além de trazer o peso de uma representatividade indígena, também temos que passar por um julgamento pelas pessoas que estão no sistema de Justiça, [sobre] se a gente é capaz mesmo,” finaliza.
“O que me move é valorizar aqueles que lutaram para que eu estivesse aqui, mas também saber que o que eu faço tem importância e representatividade para pessoas que querem fazer a diferença”.
#ElasQueLutam, a série do ISA sobre mulheres indígenas, ribeirinhas, quilombolas e o que as move. Acompanhe no Instagram!
Notícias e reportagens relacionadas
Parte da tradição e confeccionada seguindo os “fazeres sábios” desse povo, a peça venceu na categoria Produção Coletiva e ficará em exposição com outras 25 obras no Museu A CASA do Objeto Brasileiro, em São Paulo
As folhas de cipó Ködaayu coletadas na floresta são a base do Fishau ou Wöwa Tömennato, cesta do povo Ye'kwana que está entre os vencedores do 10º Prêmio Objeto Brasileiro, promovido pelo Museu A CASA do Objeto Brasileiro, em São Paulo.
O prêmio reconhece a riqueza e a diversidade da produção artesanal e do design em todo o país. O cesto, com cor vibrante, arte, cultura e beleza, venceu na categoria Produção Coletiva.
No total, foram selecionadas 26 obras - sendo quatro vencedoras de categorias e 22 selecionadas para a exposição presencial. O prêmio destaca iniciativas divididas nas categorias de Produção Autoral, Produção Coletiva, Ação Socioambiental e Novos Talentos. As peças selecionadas farão parte da exposição presencial na sede do museu, com abertura e cerimônia de premiação marcadas para 14 de novembro de 2026.
A peça foi inscrita no Prêmio Objeto Brasileiro pela Associação Wanasseduume Ye'kwana (Seduume), com sede em Boa Vista (RR), em parceria com o Programa Rio Negro do Instituto Socioambiental (ISA).
Presidente da Seduume, Júlio Ye'Kwana comemora a premiação e diz que a exposição é muito importante como forma de valorizar a floresta, o artesanato e o conhecimento do seu povo.
“A premiação é bem importante para nós, pois com a exposição a gente mostra o nosso artesanato e leva mais longe nossos conhecimentos tradicionais. A exposição para nós é isso: mostrar para a algumas pessoas, para a sociedade brasileira ou até mesmo para o mundo todo, a importância do nosso conhecimento e da nossa floresta. Porque a natureza é importante para nós”, diz.
Formado em Gestão Territorial e pesquisador do artesanato Ye'Kwana, Julio dedicou seus estudos à relação das cestarias, conhecimentos e preservação dos saberes Ye'kwana, fazeres indissociáveis - o que ele denomina de fazeres sábios.
Ele explica que as pessoas que se destacam por tal habilidade dominam não apenas a técnica de produção, mas todas as relações, os espíritos/donos dos recursos utilizados e os seres invisíveis com os quais os Ye'kwana esperam se comunicar ao utilizar as produções.
“Por isso somos sábios, ainda temos os sábios para cantar, rezar, fazer ritual, sonhar. Ainda tem natureza. A natureza é bem importante pra nós. Sem a natureza, a gente não vive”, defende.
“Eu optei por fazer essa pesquisa para não esquecer de vez, mas hoje em dia a gente pratica muitas coisas ainda nos conhecimentos tradicionais. É forte ainda porque a nossa fala aqui é língua Yequã. Na comunidade a gente se comunica com a Yequã, língua indígena, e não em português”, completa.
Conheça mais da arte Ye'kwana na Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil.
O Fishau é uma cesta artesanal, com tampa e de formato cilíndrico tradicionalmente confeccionada por homens do povo Ye'kwana da região de Awaris, na Terra Indígena Yanomami, em Roraima. A peça é trançada manualmente com diferentes desenhos e grafismos tradicionais e apresentam imagens como a do Yaddakadu (macaco) e de outras diferentes gravuras culturais Ye'kwana.
Após serem coletadas, as folhas do cipó usadas na composição são descascadas, limpas, fiadas e tingidas e, só então, trançadas. O tingimento é feito com corantes naturais retirados de cipós, cascas de árvores e raízes. Alguns dos pigmentos ficam na lama por até duas semanas até que atinja a cor desejada pelo artesão. Com os fios já pintados de amarelo, vermelho e preto, o cipó é trançado e os grafismos e desenhos de animais vão aparecendo.
O reconhecimento do Fishau no 10º Prêmio Objeto Brasileiro evidencia a relevância das tradições indígenas e do fazer coletivo na valorização do patrimônio cultural brasileiro perante o design e a arte contemporânea.
Além de preservar a cultura ancestral dos Ye'kwana e fortalecer os conhecimentos tradicionais, o artesanato tem importante papel na geração de renda e na proteção territorial, pois, ao coletarem a matéria-prima na floresta, os indígenas percorrem longas distâncias a partir de suas malocas e, durante esse percurso, também realizam a vigilância.
Essas são ações previstas no Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) da Terra Indígena Yanomami, que busca valorizar e preservar o patrimônio material e imaterial indígena, protegendo os recursos naturais e a qualidade de vida nos territórios indígenas.
A Associação Ye'kwana Seduume conta com 72 associados e representa, em média, 1.500 pessoas dos povos Ye'kwana do Brasil, desempenhando papel fundamental no fortalecimento do artesanato por meio do apoio técnico às comunidades, da valorização da produção tradicional e do auxílio na comercialização das peças.
O ISA atua em parceria com a Sedumme para fortalecimento das Economias da Sociobiodiversidade por meio da valorização do artesanato Ye'kwana e da mobilização por políticas públicas adequadas aos territórios, entre outras frentes.
Agenda
10º Prêmio Objeto Brasileiro
De 14 de novembro de 2026 a 14 de março de 2027
Museu A CASA do Objeto Brasileiro | Avenida Pedroso de Morais, 1216, Pinheiros, São Paulo – SP
Terça a domingo, das 10h às 18h. Fechado às segundas
Entrada gratuita.
Notícias e reportagens relacionadas
Em evento no Rio de Janeiro, Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) dos povos Tukano, Desana e Baniwa mostram como a observação das constelações orienta o manejo ambiental
A observação dos ciclos da natureza tendo por referência as constelações guia a escrita de diários dos Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs), no Alto Rio Negro (AM), que fazem pesquisas a partir do cotidiano em meio à floresta Amazônica.
Esses saberes e práticas foram compartilhados por indígenas dos povos Tukano, Desana e Baniwa durante a XIII Escola Interamericana de Astronomia Cultural “Blas Servín” e a XII Jornada Interamericana de Astronomia na Cultura (SIAC 2026), entre os dias 14 e 20 de setembro, no Rio de Janeiro.
“Nesse calendário a gente observa a constelação, a gente desenha essas estrelas. Mas dentro dessa constelação a gente observa sobre os animais, as plantas, nível do rio, migração dos peixes, migração das aves. Conforme cada constelação, a gente faz esse desenho representando o que acontece nesse período", explica Walter Lopes da Silva, do povo Baniwa, que participou do encontro. Ele vive na comunidade Canadá, região do Rio Ayari, município de São Gabriel da Cachoeira (AM), Alto Rio Negro.
Nessa região, uma das mais preservadas da Amazônia, os indígenas Baniwa e Koripako olham para o céu e enxergam 19 constelações. Mas para organizar seu calendário astronômico, eles privilegiam 12 constelações maiores e, a partir daí, anotam os ciclos ambientais. O calendário está sendo aperfeiçoado com as trocas de informação com os mais velhos, os conhecedores.
Realizadas no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS/UFRJ) e no Museu Nacional, as atividades reuniram pesquisadores, educadores e lideranças para debater as relações entre a sociedade, a cultura e os eventos celestes sob o tema "Sob os céus do Sul Global".
O painel “Ciclos anuais no noroeste amazônico – relações entre ciclos socioambientais e calendário astronômico entre povos Tukano Orientais e Baniwa-Koripako” foi apresentado por Ismael dos Santos, Desana; Lucas Bastos, Tukano; Walter Lopes, Baniwa; pelo conhecedor Roberto Tomé, Baniwa; e Aloisio Cabalzar, antropólogo e pesquisador do Programa Rio Negro do Instituto Socioambiental (ISA).
Aloisio Cabalzar explica que o trabalho de observação realizado pelos AIMAs a partir das constelações busca estabelecer o monitoramento ambiental e climático; fortalecer os direitos territoriais; promover os conhecimentos e sua circulação entre as gerações, além de incentivar as pesquisas interculturais, que unem conhecimentos indígenas e não indígenas.
“O monitoramento acompanha a marcação do tempo, o manejo ambiental e as relações entre as espécies. A metodologia é a escrita de diários. Basicamente, o trabalho é observar os ciclos, o que é natural entre o grupo, formado por agricultores, pescadores, coletores de frutos, moradores das comunidades engajados em atividades produtivas. A cada dia eles tomam notas sobre o que observaram e escutaram dos parentes em relação a esses eventos cíclicos. Temos ainda as reuniões e oficinas a cada semestre para organizar dados, fazer textos e realizar as representações do ciclo”, explica.
Durante o encontro de astronomia cultural, diversas formas de olhar para o céu foram apresentadas, como as dos povos Tikuna/Magüta, das populações ribeirinhas na Amazônia, de povos na Argentina e no Uruguai.
Conhecimento tradicional na política pública
Especialista em Indigenismo da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), a antropóloga Melissa Santana de Oliveira defendeu que os calendários astronômicos ecológicos devem ser reconhecidos oficialmente por políticas públicas como ferramenta de gestão territorial, devendo integrar os Planos de Gestão Territorial e Ambiental indígenas (PGTAs), que são instrumentos oficiais que traduzem os diagnósticos comunitários em diretrizes de pactuação com o Estado e parceiros.
“Como explicitaram aqui os conhecedores Tukano, Desano e Baniwa, a astronomia é essencial para a gestão ambiental e territorial, porque o movimento das constelações vai reger a ocorrência de invernos e as enchentes dos rios, os períodos de estiagem e de vazantes. Então é uma leitura do céu que orienta o manejo agrícola, o plantio de maniva, as florações, coletas de frutas, frutas, pesca, caça ”, considera. “Os calendários têm o potencial para articular políticas indígenas e indigenistas ambientais, de educação e patrimônio”, completa.
O AIMA Lucas Bastos, do povo Tukano, ensinou que, para seu povo, as estrelas são pessoas. Ao conversar com essas “pessoas”, os conhecedores indígenas conseguem antecipar os fenômenos, apoiando na organização das atividades.
“Os conhecedores - os grandes pajés - conversam com as constelações e repassam para a comunidade os fenômenos que estão por vir. Mas muitos dos saberes se perderam e agora temos poucos conhecedores, o que dificulta recebermos as orientações sobre os ciclos”, explica.
Ele falou da importância do compartilhamento de informações durante o encontro no Rio de Janeiro. “Apresentamos aqui nesse encontro a pesquisa que nós estamos fazendo desde 2005. É importante mostrar para os pesquisadores das universidades a nossa pesquisa local. São visões diferentes e, assim, podemos compartilhar experiências de diferentes lugares e países”, diz. “Mesmo sendo um céu observado, mudam a língua, a escrita, os símbolos”, completa.
Leia também
20 anos dos AIMAs: pesquisadores indígenas contam na COP30 como medem a crise climática no Rio Negro
Indígena do povo Desana, Ismael dos Santos traz em seus diários desenhos que são verdadeiras obras de arte que representam os ciclos. Ao ser perguntado sobre as alterações climáticas que - invariavelmente - vêm aparecendo nos diários, ele responde: “O que muda não são as constelações, o que muda é o tempo. Antigamente a chuva e o sol vinham no tempo certo. Agora está diferente”.
Para Lucas Bastos e Ismael dos Santos, a viagem ao Rio de Janeiro guarda um elemento especial. O principal mito de origem dos povos Tukano e Desana indica que a Cobra Canoa ou a Canoa da Transformação, um símbolo sagrado da criação da humanidade, saiu do Lago de Leite - que corresponde à Baía de Guanabara - e seguiu pelo litoral até a região Norte, abrindo caminho até onde hoje é o município de São Gabriel da Cachoeira.
Astronomia cultural
A astronomia cultural é um campo interdisciplinar que estuda como diferentes culturas, antigas e atuais, percebem e integram os fenômenos celestes em sua visão de mundo. Especialista em astronomia cultural e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Walmir Thomazi Cardoso explica que a esse é um campo de investigação que se desenvolveu sobretudo a partir da década de 1990, sendo composta de outras disciplinas como a arqueoastronomia - uma junção de astronomia com arqueologia - e etnoastronomia.
“Quando a gente olha a diáspora africana ou populações indígenas em todos os continentes, e particularmente na América do Sul, a gente vai ver que esses grupos utilizam o céu de maneira calendárica, lendo formas de se relacionar com a natureza e entendendo que esse todo está conectado”, explica.
O pesquisador considera que muitos desses conhecimentos foram invisibilizados nos processos colonizadores.
"O colonizador precisa impor a sua cultura, seja ela material ou imaterial. E quando você olha para as culturas ao redor do planeta e como elas se relacionam com o céu, quais os significados que elas atribuem ao céu, seja na medida do tempo, seja na transcendência, seja em qualquer outro aspecto, isso cria uma ligação tão forte entre as pessoas que são enfeixadas pela cultura, de modo que fica muito difícil você desmontar uma estrutura tão forte quanto essa. É por isso mesmo que muitas dessas culturas, muitos desses grupos tiveram seus símbolos, seus objetos, seus rituais, suas línguas retiradas. No entanto, esses grupos são muito mais fortes", explica.
Durante o encontro no Rio de Janeiro, vários dos grupos que resistem puderam trocar suas experiências.
Saiba mais sobre os Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs)
A Rede de Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) completou 20 anos em 2025, sendo um projeto do Instituto Socioambiental (ISA) em parceria com a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN).
Atualmente a Rede de AIMAs conta com aproximadamente 40 integrantes que vivem em comunidades indígenas na região do Médio e Alto Rio Negro, onde vivem povos de 23 etnias, entre elas Tukano, Tuyuka, Yeba Masã, Piratapuya, Desana, Hupda, Dãw e Baniwa.
Leia também:
Conhecedores da Amazônia
Com anotações em diários e tablets, os agentes registram enchentes, florações, migração e piracema de peixes, secas e rituais tendo como referência central as constelações indígenas (como Aña - Jararaca, Pamo - Tatu, Ñohkoatero - Plêiades, entre outras). Embora a iniciativa tenha surgido do manejo pesqueiro tradicional, os registros dos AIMAs têm evidenciado os impactos da emergência climática e de fenômenos extremos na Amazônia.
Notícias e reportagens relacionadas
Atividades de formação e debate realizados durante o Agosto Indígena propuseram caminhos para superar o apagamento histórico e fortalecer o ensino de histórias e culturas indígenas na educação básica
Como parte da programação do Agosto Indígena, nos dias 11, 18 e 22 de agosto, o Instituto Socioambiental (ISA) se aliou à Secretaria Municipal de Educação (SP) para levar uma série de atividades a professores da rede municipal de ensino com objetivo de integrar saberes e histórias indígenas ao cotidiano das salas de aula da capital paulista.
A iniciativa buscou fortalecer a implementação da Lei Federal nº 11.645/2008, que torna obrigatório o ensino de histórias e culturas afro-brasileiras e indígenas na educação básica, ao combater o apagamento histórico e promover o letramento étnico-racial.
A programação, mediada pela Iniciativa de Educação do ISA, foi dividida em duas ações principais: o curso Aldear a Educação, ministrado por Maria Martinha Mendonça, do povo Guajajara, uma das coordenadoras executivas do Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena (Fneei) e diretora na Escola Municipal Indígena Guarani Para Poty Nhe'ë Ja, em Maricá (RJ); e a palestra Povos Indígenas no Brasil: debates contemporâneos, com a professora Dona Elisa Pankararu, liderança e antropóloga indígena, com o professor Izaque João, pesquisador, do povo Guarani Kaiowá, e mediação de Luma Prado, responsável pela Iniciativa de Educação no ISA, que compôs a formação Histórias e Culturas Indígenas em perspectivas: possibilidades pedagógicas, realizada por meio da parceria entre o Núcleo de Educação para as Relações Étnico-Raciais (NEER) e o ISA.
O curso, Aldear a Educação, realizado em três encontros, dois síncronos online e uma oficina presencial, teve como objetivo a promoção do diálogo entre as experiências pedagógicas dos educadores e os conhecimentos de escolas indígenas para a construção de propostas de ensino que fortaleçam a aplicação da Lei.
Na formação, realizada nos dias 11, 15 e 18 de agosto, Martinha Guajajara, destacou cinco mudanças essenciais para o ensino de histórias e culturas indígenas. A primeira delas diz respeito ao conhecimento genérico sobre povos indígenas, que deve ser superado por meio da compreensão sobre a sociodiversidade de povos, línguas e territórios. O segundo deslocamento referencial, por sua vez, é em relação ao reconhecimento das vidas, lutas e produções indígenas na atualidade, e não apenas restritas ao passado.
Na sequência, ela falou sobre a importância da autoria indígena e integração da temática ao planejamento anual, e não somente fixado às datas comemorativas. Por fim, ela apontou como essencial o movimento de investigar, pesquisar, analisar e produzir sobre a temática, ressaltando o atributo de pesquisador que os educadores devem, segundo ela, aprimorar.
A partir desses deslocamentos, Martinha propôs na oficina presencial a análise de imagens sobre povos indígenas e o desenvolvimento de uma proposta pedagógica pelos professores em grupo. Os resultados serviram de base para a elaboração de propostas pedagógicas feitas por cada participante como trabalho final da formação.
A palestra Povos Indígenas no Brasil: debates contemporâneos, por sua vez, fez parte da formação Histórias e Culturas Indígenas em perspectivas: possibilidades pedagógicas, sediada na Biblioteca Mário de Andrade, na região central de São Paulo.
Com cerca de 190 professores presentes, a palestra foi precedida pela mesa Histórias e culturas Indígenas: o fazer pedagógico nas Unidades Educacionais, que contou com apresentação de relatos de prática sobre histórias e culturas indígenas pelos professores da rede municipal Barbara Borba, da Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Armando Cridey Righetti; Edi Medeiros, da EMEF Prestes Maia; Jefferson Gabriel, da Escolas Municipais de Educação Infantil (EMEI) Dona Maria de Lourdes Coutinho Torres. A mediação ficou a cargo de Fernanda Borsatto, do Tribunal de Contas do Município de São Paulo (TCM-SP).
Na sequência, Dona Elisa Pankararu e Izaque João, lideranças indígenas do Nordeste e do Centro-Oeste do país, debateram temas como disputas fundiárias, demarcação de Terras Indígenas, luta das mulheres indígenas, resistências e articulação política.
Dona Elisa Pankararu, trouxe em sua fala a violência sofrida pelos povos indígenas no Brasil e como a presença e ausência vêm com o propósito de perpetuar um genocídio. Ela destacou ainda que as escolas já foram espaços usados para perpetuar esse ciclo de violências.
Para ela, diante desse contexto, o papel da educação atualmente é de promover um fazer pedagógico que retrate as culturas dos povos e traga reflexões. Ela reforça que isso é especialmente importante em São Paulo, que de 1940 em diante teve uma intensa migração de indígenas para construir a cidade. Dona Elisa Pankararu defende que é preciso falar de racismo contra povos indígenas e fomentar para que tenha cada vez mais autorias indígenas.
Na sequência, Izaque João falou sobre o contexto dos povos Guarani e Kaiowá no Mato Grosso do Sul. Ele explicou sobre o processo de esbulho territorial sofrido por seu povo, que foi expulso de suas áreas e confinado em aldeamentos. Com a perda do território, perdem-se também os cantos, ele lamenta. Neste contexto de conflito entre os grandes proprietários de terra e os Guarani, ele também reforça que os saberes indígenas não estão restritos às salas de aula; mas também do lado de fora: na floresta, na beira de rios, em momento de ritual.
Ele conta ainda que o povo Guarani e Kaiowá tem se fortalecido em processos de retomada. Assim como Dona Elisa, Izaque reforça que a escola, antes uma arma contra os Guarani e Kaiowá, agora passa a ser um espaço de resistência a partir da educação escolar indígena. A exemplo disso, ele cita o encontro de Professores Guarani e Kaiowá, promovido pela Aty Guasu, a Grande Assembleia do Povo Guarani e Kaiowá desde o final dos anos 1990, que foi responsável por muitos marcos e avanços na educação, como é o caso da criação da Licenciatura Intercultural Indígena "Teko Arandu", que desde 2006 forma professores indígenas.
A programação, uma iniciativa da SME-SP com o ISA, integra uma série de atividades da Iniciativa de Educação do Instituto Socioambiental como o Edital Aldear a Educação Básica, que premiou onze propostas pedagógicas de educadores. Saiba mais.
Notícias e reportagens relacionadas
Curso de Vigilância Indígena na Aldeia Gorotire, Terra Indígena Kayapó, reuniu diferentes gerações para debater direitos, pensar a proteção territorial e reforçar a luta contra o garimpo e outras atividades ilegais
Entre os dias 04 e 07 de agosto, as associações indígenas da Terra Indígena (TI) Kayapó, o Instituto Socioambiental (ISA), a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI) e o Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e realizaram uma formação de Vigilância Indígena na aldeia Gorotire, na Terra Indígena Kayapó.
A formação é fruto da parceria entre as organizações e contou com a participação de 35 indígenas para o planejamento de ações de proteção no contexto pós-desintrusão do território. As associações presentes foram Angrokrere, Tuto Pombo, Kranhmenhti, Piokrere, Floresta Protegida, Kenorukuare e Wejo.
A formação envolveu indígenas de diferentes faixas etárias e gênero que refletiram juntos sobre a dimensão do desafio de proteger uma área de mais de 3,2 milhões de hectares na floresta amazônica.
Nos últimos anos, a TI Kayapó vem lidando com a fragmentação da paisagem no entorno e a constante invasão para a retirada de madeira e, sobretudo, para o garimpo ilegal. A necessidade de fortalecer a proteção tornou-se ainda mais evidente após o cumprimento da ADPF 709, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou a desintrusão de áreas invadidas em oito TIs no Brasil.
Embora a desintrusão da TI Kayapó tenha sido finalizada oficialmente em julho de 2025, a proteção preventiva e segura pelas próprias comunidades é essencial para impedir o avanço dos invasores.
Manifesto histórico contra o garimpo
O engajamento dos participantes no curso está atrelado a uma decisão política já consolidada entre o povo Mẽbêngôkre, quando caciques e lideranças da TI Kayapó reuniram-se numa assembleia na Casa do Guerreiro, na Aldeia Gorotire, e relataram suas preocupações com os impactos do garimpo sobre os rios, a fauna, a saúde das comunidades e o enfraquecimento da governança indígena.
Diante disso, ficou decidido por unanimidade que qualquer atividade ilícita no interior da Terra Indígena, especialmente o garimpo, mas também a extração ilegal de madeira ou outras práticas que possam degradar os recursos naturais e culturais do território, devem ser recusadas e coibidas por todos.
Os indígenas destacaram que impedir os ilícitos na TI é condição central para dar continuidade às parcerias vitais para a comunidade, como o Projeto de Crédito de Carbono e o Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) da TI Kayapó.
O documento também reafirmou que, embora o compromisso de coibir o garimpo seja das lideranças, as ações de combate direto aos ilícitos são função do Estado brasileiro e de instituições como Funai, Ibama e a Polícia Federal.
Diálogo de saberes e o mapeamento das ameaças
Com esse espírito de urgência, esperança e mobilização, o curso de Vigilância Indígena foi marcado por grandes trocas e contou com a tradução simultânea conduzida por dois professores indígenas seguindo uma metodologia integradora e participativa.
O primeiro dia foi dedicado à apresentação dos participantes e o compartilhamento dos conceitos fundamentais para a atividade. No segundo, os participantes foram estimulados a mostrar o processo de ocupação histórica da TI Kayapó e os indígenas ilustraram o território antes da exploração ilegal de ouro e madeira, o que mudou após as invasões e quais são os desafios atuais para garantir o usufruto exclusivo da terra. O grupo também debateu instrumentos vitais de proteção, como a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e os protocolos de consulta.
No terceiro dia de formação, ocorreu o mapeamento coletivo de situações de vulnerabilidade utilizando mapas impressos e os indígenas apontaram as principais ameaças, destacando o tipo de ilícito, as regiões mais vulneráveis, a época do ano em que ocorrem e as possíveis estratégias para enfrentá-las. Para inspirar essas estratégias, o grupo conheceu relatos de vigilância indígena bem-sucedidas na bacia do Xingu apresentados por integrantes da Rede Xingu+, além das bases de vigilância da própria TI Kayapó, coordenada pela Associação Floresta Protegida (AFP), e também do Plano de Proteção Territorial da TI Arara.
Leia também
Povo Arara lança Plano de Proteção Territorial no ATL 2025
O fechamento da atividade foi coordenado pelos próprios indígenas, sob mediação do assessor da AFP, Igor Ferreira, com uma recapitulação dos conceitos abordados ao longo das atividades, a apresentação das suas percepções sobre a formação e a reflexão sobre os próximos passos para proteção territorial.
De acordo com o coordenador da CR Kayapó Sul do Pará, Camilo Soares, esta oficina se insere no conjunto de ações de pós-desintrusão e busca garantir a posse plena da TI pelos indígenas com o apoio das organizações indígenas, instituições governamentais e não governamentais.
“A oficina de vigilância indígena foi um momento de pensar conjuntamente em estratégias para proteger o território e fortalecer a gestão compartilhada por meio da participação de representantes de todas as regiões da TI”, disse Soares.
O representante da Associação Floresta Protegida e conselheiro da Rede Xingu+, Kajte Kayapó, também avaliou como positiva a realização da atividade.
“Esta formação é muito importante, pois os indígenas estão aprendendo cada vez mais sobre as expedições, o monitoramento do território e das bases de vigilância”, destacou o conselheiro da Rede Xingu +.
Notícias e reportagens relacionadas
Evento em São Paulo, dia 17 de setembro, marca o lançamento da obra “Poéticas e políticas indígenas” e conta com mediação de Tatiane Klein, antropóloga e jornalista do Instituto Socioambiental (ISA)
No dia 17 de setembro, quinta-feira, às 19h, o espaço Floresta no Centro, do Instituto Socioambiental (ISA), recebe a escritora, poeta e cordelista Auritha Tabajara e a antropóloga e musicista não indígena Paola Gibram para o evento Poéticas Indígenas.
Com mediação de Tatiane Klein, antropóloga e jornalista do ISA, o bate-papo explora as conexões entre poéticas, literatura e música, partindo das trajetórias das convidadas e de duas obras de suas autorias: a coletânea Poéticas e políticas indígenas (Insular, 2026) e o Um cordel para Aldear a Educação (ISA, 2026).
Auritha Tabajara é a primeira cordelista indígena e um dos nomes mais relevantes da literatura indígena contemporânea. Nascida no Ceará, a artista do povo Tabajara navega com sua arte entre a oralidade e a literatura contemporânea. Por suas obras, recebeu o selo da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) em 2019 pela obra Coração na aldeia, pés no mundo. Em 2024, recebeu o Prêmio Jabuti. Auritha ainda integra a Academia Internacional de Literatura Brasileira (AILB) e também foi protagonista do documentário A mulher sem chão, realizado em parceria com Débora MecDwell.
Paola Gibram, por sua vez, possui uma longa trajetória de pesquisa junto a povos indígenas, principalmente aos Kaingang. Junto à pesquisadora Nyg Kuitá, ela dirigiu o documentário audiovisual Nẽn Ga vĩ: uma retomada kanhgág em movimento, que acompanhou o movimento da juventude indígena kaingang. Pós-doutoranda no Museu de Etnologia e Arqueologia da Universidade de São Paulo (USP), Paola também atua como instrumentista, compositora e diretora musical.
No evento, a musicista e a escritora Auritha Tabajara compartilham ainda suas pesquisas antropológicas sobre cantos, danças, ornamentos rituais em sua conexão com as lutas indígenas contemporâneas e o processo de construção do livreto ilustrado e da faixa musical da obra Um cordel para Aldear a Educação, lançado em abril deste ano.
Leia também
Com obra inédita, Auritha Tabajara traz a força de sua poesia para Aldear a Educação
O bate-papo deriva também um episódio do podcast Floresta no Centro, para levar as reflexões sobre o papel das artes na vida e na luta dos povos indígenas para outros públicos. Criado pelo Instituto Socioambiental (ISA), o programa é gravado durante eventos realizados na Floresta no Centro, espaço da organização na Galeria Metrópole, em São Paulo (SP), que apresenta saberes de comunidades do Xingu, Rio Negro e Vale do Ribeira por meio de itens tradicionais, exposições, encontros e publicações.
Ouça um episódio recente abaixo!
Serviço
Evento: Poéticas Indígenas
Data: Quinta-feira, 17 de setembro de 2026
Horário: 19h
Local: Espaço Floresta no Centro – Galeria Metrópole, 2º andar, Loja 28 (Av. São Luís, 187, São Paulo/SP)
Convidadas: Auritha Tabajara e Paola Gibram
Mediação: Tatiane Klein
Confira abaixo o clipe da música Aldear a Educação, composto por Auritha Tabajara a pedido do Instituto Socioambiental (ISA).
Notícias e reportagens relacionadas
Marcada na memória, a manifestação de Ailton conseguiu atenção da imprensa nacional e internacional, abrindo espaço para debates importantes dos direitos indígenas
Na sessão da Assembleia Nacional Constituinte de quatro de setembro de 1987, durante os debates que antecederam a promulgação da Constituição de 1988, Ailton Krenak realizou um discurso que na época conquistou olhares da imprensa nacional e internacional:
“Que [o Brasil] saiba respeitar um povo que sempre viveu à revelia de todas as riquezas, um povo que habita casas cobertas de palha, que dorme em esteiras no chão, não deve ser identificado de jeito nenhum como um povo que é o inimigo dos interesses do Brasil, inimigo dos interesses da nação e que coloca em risco qualquer desenvolvimento. O povo indígena tem regado com sangue cada hectare dos oito milhões de quilômetros quadrados do Brasil, os senhores são testemunhas disso.”
Foi o que ele disse ao discursar pintando seu rosto de tinta preta na tribuna da Constituinte, na Câmara dos Deputados, quando defendia a emenda popular da União das Nações Indígenas (UNI) sobre os direitos da população originária.
Leia também
Hoje na História Socioambiental: Em 1980, é criada a União das Nações Indígenas, a UNI
A manifestação teve ampla repercussão na imprensa brasileira e internacional, expandindo a visibilidade das reivindicações dos povos indígenas em um momento decisivo da redemocratização do país.
A imprensa teve uma atuação bastante ativa nas disputas pela inclusão do Capítulo dos Índios no texto da Constituição. Pouco antes do discurso de Ailton, começava uma campanha contra os povos indígenas, que afirmava, entre outras coisas, que os povos originários eram contra os interesses do Estado brasileiro.
O discurso de Ailton veio para desmontar esse argumento. Ao ser questionado sobre a campanha contra os povos indígenas, liderada por parte da imprensa, Ailton afirmou: "Nós ignoramos qualquer iniciativa, nesse sentido, que venha contrariar os interesses do país. Inclusive porque, se há os primeiros filhos desta terra, são os povos indígenas. E não há nada mais estúpido do que afirmar que os povos indígenas vão contrariar os interesses do Brasil. Se o Brasil está ameaçado pelos povos indígenas, então provavelmente não é o Brasil dos brasileiros."*
A campanha contra os povos conseguiu que, do dia pra noite, o chamado “Capítulo dos Índios” fosse excluído. A ferramenta que os povos e aliados encontraram para remontar a discussão e garantir a inclusão do texto foi o abaixo-assinado, que subsidiou uma emenda-popular.
Ailton, como uma das lideranças da União das Nações Indígenas (UNI) e juntamente com representações de diversos povos, participou da articulação desse abaixo-assinado que reuniu mais de 100 mil assinaturas, de ponta a ponta do Brasil, em apoio à inclusão dos direitos dos povos indígenas na nova Constituição Federal.
Leia também
Hoje na História Socioambiental: Em 1988, 'Capítulo dos Índios' é aprovado na Constituinte
Demarcar saberes
O que muita gente não sabe é o que estava acontecendo por trás da fotografia emblemática do discurso. No livro “Subvertendo a gramática e outras crônicas socioambientais”, escrito por Márcio Santilli, presidente do Instituto Socioambiental (ISA), são revelados detalhes deste acontecimento histórico que muitos desconhecem.
No livro, Márcio conta que a intenção inicial de Ailton Krenak era apenas pintar o rosto de preto, em silêncio. No entanto, como os registros oficiais das sessões da Assembleia Nacional Constituinte eram feitos por gravações posteriormente transcritas para o Diário do Congresso, uma manifestação sem palavras ficaria registrada apenas pelas câmeras de televisão. Foi preciso, então, que ele discursasse enquanto realizava o gesto.
Outro desafio era o protocolo do plenário: sem trajes formais, Ailton recebeu emprestados um paletó branco e uma gravata de Márcio, criando o contraste que marcaria a cena. Na ausência do jenipapo ou do urucum, os dois percorreram gabinetes de parlamentares recolhendo pequenas quantidades de máscara de cílios e tinta para sobrancelhas, usadas para compor a pintura. Márcio ainda conta que depois foi impossível usar seu paletó, por conta das manchas de tinta.
No filme “Mapear Mundos”, obra que articula imagens de arquivos indigenistas com testemunhos atuais para rememorar os passos dados por organizações da sociedade civil na luta pelos direitos dos povos originários no Brasil, Beto Ricardo, fundador do ISA, conta sobre o momento do discurso:
“Não tinha ninguém no Congresso, era hora do almoço, estava vazio. A câmera fica no Ailton porque não tem ninguém. Ele tava sozinho, ele fala sozinho. Quer dizer, ele fala sozinho não. Ele criou um gesto de comunicação de mídia que explodiu o mundo inteiro, que não haveria sessão do Congresso que chegaria perto da difusão que essa ideia teve, com aquela imagem de 15 segundos, entendeu?”
Assista ao filme 'Mapear Mundos'
Depois de saber que não havia ninguém na plenária, é ainda mais curioso saber que a imagem de Ailton pintando o rosto na tribuna permanece, até hoje, como um dos símbolos visuais mais notáveis da luta indígena no Brasil. A imagem marcada na memória reforça o poder dos gestos comunicativos, e o modo com que alguns símbolos podem representar e lembrar lutas históricas.
Quase quatro décadas depois, a comunicação indígena segue ocupando um papel central na defesa dos direitos dos povos originários e evidenciando o que há de mais bonito na natureza e em suas culturas e histórias. Agora, comunicadores indígenas mobilizam diversas plataformas e variados formatos para garantir que sejam cada vez mais ouvidos.
Pessoas educadoras, venham conhecer o Kit Didático: "Demarcar saberes: a comunicação indígena nos seus diferentes formatos", que reúne fontes e documentos com propostas de reflexão para apoiar discussões e atividades sobre o assunto em sala de aula!
*MAPEAR MUNDOS. Direção: Mariana Lacerda. Produção: Instituto Socioambiental. Brasil: 2024. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=27NGsnEELwM. Minutagem: 15’20” - 15’45”.
Referências bibliográficas
BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988. Capítulo VIII, Arts. 231-232. Disponível em: http://camara.leg.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=469704. Acesso em: 5 maio 2026.
CENTRO ECUMÊNICO DE DOCUMENTAÇÃO E INFORMAÇÃO (CEDI). Povos Indígenas no Brasil 1987/88/89/90. São Paulo: CEDI, 1991.
MAPEAR MUNDOS. Direção: Mariana Lacerda. Produção: Instituto Socioambiental. Brasil: 2024. Disponível em: Filme | Mapear Mundos
RICARDO, Beto; ARNT, Ricardo. Uma enciclopédia nos trópicos: memórias de um socioambientalista. Rio de Janeiro: Zahar, 2024.
SANTILLI, Márcio Santilli. Subvertendo a gramática e outras crônicas socioambientais. São Paulo: Instituto Socioambiental, 2019. Disponível em: https://acervo.socioambiental.org/acervo/publicacoes-isa/subvertendo-gramatica-e-outras-cronicas-socioambientais. Acesso em: 5 maio 2026.
**A série Hoje na História Socioambiental apresenta a riqueza de informações do Acervo do ISA que conta com mais de 250 mil itens catalogados voltados para a temática socioambiental como publicações, livros, teses e dissertações, mapas, notícias, materiais audiovisuais, entre outros. Hoje na História Socioambiental é um convite a reler o Brasil com mais amplitude, sensibilidade e justiça, valorizando a memória e documentação dos diversos povos.
Esta publicação conta com o apoio do Fundo Amazônia e é um produto do projeto "Defesa e Promoção dos Direitos Indígenas no Brasil: Construir Capacidades e Engajar Pessoas por um Futuro mais Justo", realizado pelo Instituto Socioambiental (ISA), com o financiamento da União Europeia.
Este material tem conteúdo de responsabilidade exclusiva da instituição realizadora e não reflete a posição da União Europeia.
Notícias e reportagens relacionadas
Com a delimitação de três áreas no Amazonas, o governo avança no processo demarcatório de 933 mil hectares no estado; duas delas estão na área de impacto da BR-319
Em 8 de julho, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) oficializou o reconhecimento e delimitação de três novas Terras Indígenas (TIs) no estado do Amazonas, consolidando a proteção de mais de 933 mil hectares, o equivalente a aproximadamente seis vezes a área da cidade de São Paulo.
São elas: Terra Indígena Apurinã do Alto Tupana, em Beruri (AM), do povo Apurinã; Terra Indígena Paiol, Cajual e Palhal, em Manaquiri (AM), dos povos Apurinã e Mura; e a Terra Indígena Kapyra Kanakury, em Pauini (AM), dos povos Apurinã e Jamamadi.
O reconhecimento das TIs aconteceu em um cenário de avanços no asfaltamento da BR-319, rodovia que liga Manaus a Porto Velho e que tem sido apontada como vetor de desmatamento, queimadas, grilagem de terras e abertura de ramais clandestinos.
Seguindo o rito demarcatório, agora as TIs aguardam declaração de suas áreas pelo Ministério da Justiça e, na sequência, a homologação pelo presidente da República.
Ao todo, existem 838 TIs em diferentes fases do processo. 167 estão em identificação, aguardando finalização dos estudos pela Funai; 45 TIs já delimitadas aguardam declaração pelo Ministério da Justiça; 71 TIs já declaradas aguardam a homologação pelo Presidente da República. Até hoje, 540 áreas já passaram por esse longo processo, estando homologadas ou reservadas. Há ainda 15 Reservas Indígenas em processo de regularização.
Até o momento, somam-se 21 TIs identificadas no governo Lula, 20 homologadas e 21 declaradas.
BR-319 e a pressão sobre Terras Indígenas
Duas das TI cujos estudos foram aprovados, a TI Apurinã do Alto Tupana e a TI Paiol, Cajual e Palhal, são adjacentes à via e têm sido impactadas pelo processo de ocupação desordenada impulsionado pelo asfaltamento, segundo os Relatórios Circunstanciados de Identificação e Delimitação (RCID).
A continuidade das obras na rodovia foram anunciadas em maio, em visita do Presidente Lula ao Amazonas. Na ocasião, além de prometer um pacote de medidas para destravar as obras da BR-319, como parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o presidente também reconheceu a sensibilidade da região e garantiu que os investimentos na região seriam feitos com o "maior cuidado ambiental do mundo".
A aprovação do projeto de lei conhecido como “PL da Devastação”, entretanto, vai na contramão da promessa. O enfraquecimento do licenciamento ambiental promovido pela normativa transforma obras como essas em ainda mais pressão sobre territórios indígenas, defendem especialistas.
Ainda, apesar do julgamento de sua inconstitucionalidade, que começou em 12/08, as obras já foram iniciadas seguindo o que determina a nova Lei Geral do Licenciamento Ambiental (nº 15.190/2025). Isso é, sem consulta aos povos que serão afetados por ela, como determina a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) da qual o Brasil é signatário.
Ao todo, segundo a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, existem 69 Terras Indígenas na região de influência da BR-319. Essas áreas, mesmo anteriormente, já eram intensamente violadas, como mostraram monitoramentos recentes realizados pelo Observatório da BR-319. Segundo o estudo realizado pela rede de organizações, em 2025, existiam ao menos 2,2 mil quilômetros de estradas ilegais conectadas à BR-319, sendo 1,2 mil em territórios indígenas.
Isso ocorre porque a pavimentação de rodovias impulsiona a estrutura fundiária e o uso da terra em seu entorno e funciona como um vetor para incêndios criminosos, como o que aconteceu no que ficou conhecido como ‘Dia do Fogo’, evento que completou sete anos neste ano. É o que mostra a Nota Técnica Queimadas em Terras Indígenas do ISA, de 2024.
Leia também
Na Amazônia, rodovias impulsionam queima de área duas vezes maior que o estado de RJ
“Esse dia, que ficou conhecido como Dia do Fogo, foi marcado pela combinação de grandes queimadas, que contribuíram significativamente para o aumento do desmatamento e da destruição de áreas florestais no entorno da BR-163, entre Peixoto Azevedo, no norte do Mato Grosso, e Trairão, no sul do Pará”, explica a Nota Técnica, que aponta também que naquele ano, foram registrados 3.946 focos de calor.
Apesar da comoção, nos anos seguintes, os focos de incêndio na região seguiram aumentando nos entornos das BRs 163, 230 e 319.
“A persistência dos incêndios criminosos é parte dos efeitos deletérios da construção de uma rodovia sem o amparo de um plano de sustentabilidade e sem fiscalização ambiental eficiente”, completa o documento.
A formalização das TIs é vista como uma estratégia para assegurar o modo de vida tradicional frente a essas pressões externas, defende o pesquisador do ISA Tiago Moreira.
“A delimitação dessas TIs traz proteção para que os povos indígenas continuem protegendo a floresta e seu território tradicional. Mas só o avanço do processo demarcatório pode frear o avanço do desmatamento e da grilagem que a BR-319 traz para a região”, finaliza.
Conheça as Terras Indígenas identificadas
A Terra Indígena Apurinã do Alto Tupana, situada no estado do Amazonas, é ocupação tradicional do povo Apurinã. Localizada em Beruri (AM), a TI possui uma área delimitada de 251.388,9111 hectares. Ao todo, foram 22 anos de espera pelo andamento do processo de demarcação, com o primeiro Grupo de Trabalho criado em 2004 e reconstituído em 2024. Segundo o RCID, o povo Apurinã que habita esse território foi intensamente afetado durante o período de exploração das chamadas “drogas do sertão”. Além disso, o relatório também aponta que a população indígena Apurinã sofreu com a atuação de missões religiosas, que promoveram um processo de aldeamento e trabalho compulsórios, conversão religiosa e integração forçadas. Além disso, o relatório aponta ainda uma trajetória marcada por deslocamentos compulsórios e violências contínuas.
A Terra Indígena Paiol, Cajual e Palhal, situada no estado do Amazonas, é de ocupação tradicional dos povos Apurinã e Mura. Localizada em Manaquiri (AM), a TI possui uma área de 114.601,0860 hectares. Ao todo, foram 22 anos de espera pelo andamento do processo de demarcação, com o primeiro Grupo de Trabalho criado em 2004 e reconstituído em 2024. Segundo o RCID, a presença dos Mura na região banhada pelos baixos Rios Madeira, Purus, Solimões e Negro é registrada desde o início do século XVIII, em documentos jesuítas relacionados à instalação dos primeiros aldeamentos da Companhia de Jesus na região do baixo Rio Madeira.
O relatório aponta que os Mura ocuparam tradicionalmente e de maneira contínua a localidade até 1970 e 1972, quando funcionários da então Fundação Nacional do Índio (Funai) levaram para a região um grupo Apurinã originário dos igarapés Peneri e Tacaquiri, que havia deixado a região em meados da década de 1950, em razão dos conflitos provocados pela ocupação e exploração violenta do trabalho nos seringais. Atualmente, o território também está inserido em uma região de intensa pressão sobre as florestas públicas, agravada pelo asfaltamento progressivo da BR-319 e pela ocupação desordenada de áreas públicas não destinadas, como indicam as declarações no Cadastro Ambiental Rural sobrepostas a essas áreas.
A Terra Indígena Kapyra Kanakury, situada no estado do Amazonas, é ocupação tradicional dos povos Apurinã (Aruak) e Jamamadi (Arawá). Localizada em Pauini (AM), a TI possui uma área de 567.606,00 hectares e uma população estimada em 300 pessoas. O Grupo de Trabalho para identificação e delimitação do território foi criado em 2024. Foram dois anos de espera pela conclusão dos estudos.
Segundo o RCID, a região do vale do Rio Purus e seus habitantes permaneceram relativamente isolados do mundo ocidental até meados do século XIX, quando a chegada de trabalhadores de diferentes partes do Brasil provocou profundas transformações no modo de vida das populações indígenas que habitavam a região, entre elas os povos Apurinã e Jamamadi. No caso específico da Terra Indígena Kapyra Kanakury, o relatório registra uma ocupação contínua da área pelas mesmas famílias Apurinã há pelo menos 120 anos. A história oral preservada pelo povo também reconhece na paisagem evidências de uma ocupação ainda mais antiga, que ultrapassa o período alcançado pela memória das famílias.
Carregando