O Vale do Ribeira, entre São Paulo e Paraná, é uma região de Mata Atlântica, com forte presença de povos indígenas, comunidades quilombolas, caboclas e caiçaras. São estas populações tradicionais que, com suas culturas e modos de vida, mantém as florestas da região em pé, resistindo à atividades predatórias e à exploração descontrolada dos recursos naturais. A presença quilombola, indígena, cabocla e caiçara faz do Vale do Ribeira um patrimônio socioambiental do Brasil e uma região fundamental para o equilíbrio climático, proteção da biodiversidade e produção de chuva entre duas grandes metrópoles do País: Curitiba e São Paulo.
O ISA atua no Vale do Ribeira desde o final da década de 1990 em parceria com associações e organizações locais da sociedade civil para garantir os direitos territoriais das comunidades quilombolas, bem como a proteção das florestas, rios, estuários e demais ecossistemas da região. Somos gratos pelo aprendizado de luta que as comunidades e suas lideranças transmitem há tantos séculos e ensinam às novas gerações.
O trabalho do ISA no Vale do Ribeira segue atualmente três linhas estratégicas: articulação política para defesa de direitos, fortalecimento do manejo de recursos em territórios quilombolas, com destaque para a estruturação da Rede de Sementes do Vale do Ribeira e valorização do Sistema Agrícola Tradicional Quilombola do Vale do Ribeira, e fomento à produtos da mata, com destaque para o apoio à produção e comercialização, pelas comunidades, da produção orgânica da agrobiodiversidade local para a geração de renda.
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Em memória: Ivy Wiens, parceira de luta das comunidades quilombolas do Vale do Ribeira
A alegria, a força e a dedicação marcaram sua presença nas comunidades e, todos os anos, na Feira de Trocas de Mudas e Sementes, em Eldorado (SP)
Com o microfone na mão, ela fazia sua voz ecoar - literalmente - no centro de Eldorado (SP) a cada edição da Feira de Trocas de Mudas e Sementes das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira.
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Ivy Wiens em apoio à campanha ‘Nenhum Quilombo a Menos’ em 2017|Victoria Franco/ISA
Ivy Wiens doava sua energia e fala poderosa para agitar as celebrações e passava de barraca em barraca, de cada comunidade, para perguntar às lideranças com os nomes na ponta da língua e celebrar a diversidade: “o que vocês trouxeram pra feira esse ano?”
Das respostas, brotava o orgulho de cada roça plantada e colhida e os sorrisos de respeito e reconhecimento de que ocupar a Praça Nossa Senhora da Guia com a força quilombola era uma luta de valor.
Nos dias 14 e 15 de agosto deste ano, ela conduziu mais uma vez com toda a sua energia e sorriso acolhedor a 17ª Feira de Trocas de Mudas de Sementes, chamando cada quilombola pelo nome, indicando a sua profunda ligação com o lugar, mas sobretudo com as pessoas.
O momento da feira sempre coroou sua profunda dedicação e alegria à luta quilombola no Vale do Ribeira e à defesa da Mata Atlântica, desde o movimento de resistência à instalação da hidrelétrica de Tijuco Alto, projeto que teria impactos irreversíveis nas comunidades e que em 2016, após 28 anos de protestos, teve sua licença prévia rejeitada pelo Ibama.
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Ivy e Leonila Priscila da Costa Pontes, poeta, agricultora e liderança quilombola, na Feira de Sementes em 2023|Claudio Tavares/ISA
Ivy nasceu em Itu (SP) em 25 de junho de 1978. Era militante da Marcha Mundial das Mulheres, relações públicas de formação e especialista em gestão pública e gerência de cidades, com mestrado em gestão ambiental. Mudou-se para o Vale do Ribeira em 2009, quando passou a trabalhar no Instituto Socioambiental (ISA) como assessora técnica para as comunidades quilombolas.
Permaneceu na organização até 2020, e seguiu nos anos seguintes colaborando com atividades importantes do território, em especial com a produção anual da feira de trocas de mudas e sementes.
“Ela sempre foi uma pessoa muito alegre e dedicada às coisas que ela fazia. Não deixava nada para trás. Gostava muito de ajudar as pessoas, muito carinhosa. Aquele sorriso dela vai ficar para sempre na mente das pessoas, no coração. Era uma pessoa do bem, de paz e de amor”, afirmou Valni de França, liderança do Quilombo São Pedro.
Recentemente, Ivy atuou como professora de inglês e espanhol pelo Centro Paula Souza no Quilombo André Lopes, e passou a gerir a Casa do Rio, em Eldorado, um hostel para receber pessoas amigas e turistas e apresentar a região que se tornou sua morada e território.
“Ela criou aqui no Vale do Ribeira uma grande família quilombola. É uma perda muito grande. Uma grande amiga dos quilombolas”, afirmou Benedito Alves da Silva, o Ditão, liderança histórica do Quilombo Ivaporunduva.
Neste 28 de agosto, o ISA lamenta profundamente a partida precoce de Ivy e se solidariza às comunidades quilombolas do Vale do Ribeira em seu luto.
Ela ofereceu durante sua vida o exemplo de que a luta, quando conduzida com alegria, é capaz de aproximar mundos, unir esforços e movimentar a defesa dos direitos das comunidades quilombolas. Abaixo, ouça Ivy Wiens abrindo a 17ª Feira de Troca de Sementes e Mudas Tradicionais das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira, que ocorreu nos dias 14 e 15 de agosto.
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*Texto em atualização.
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Feira quilombola tem partilha de saberes para preservação de sementes
17ª Feira de Trocas de Mudas e Sementes do Vale do Ribeira reuniu conhecedores tradicionais e poder público em seminário sobre bancos de sementes. Discussão também envolveu temas como território e clima
Para se fazer uma boa “coruja” - receita tradicional dos quilombos do Vale do Ribeira (SP) - são necessários pelo menos oito dias quando o clima está mais frio ou cinco dias em tempos mais quentes. É preciso primeiro deixar a mandioca de molho e, quando já estiver bem mole, é hora de prensar e secar. Depois basta misturar ovo e gordura à massa, enrolar na folha de bananeira e colocar para assar no forno de barro.
A receita é da poeta e liderança Leonila Rodrigues, que nasceu e vive no Quilombo Abobral Margem Esquerda, no município de Eldorado (SP), na região que concentra a maior área contínua de Mata Atlântica do país. A coruja foi um dos preparos servidos durante a 17ª Feira de Troca de Sementes e Mudas Tradicionais das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira.
A feira aconteceu na Praça Nossa Senhora da Guia, nos dias 14 e 15 de agosto, reunindo cerca de 1 mil pessoas entre participantes e visitantes.
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Entre conversas e compartilhamentos de receitas, sementes e mudas de resistência, a 17ª edição ocorreu nos dias 14 e 14 de agosto, em Eldorado (SP)|Júlio César Almeida/ISA
Na sexta-feira, após o café da manhã tradicional, a programação teve início com um seminário sobre bancos de sementes. Para a preservação das sementes são necessários - além do compartilhamento - titulação do território; troca de conhecimento e cuidado com o ambiente, conforme apontaram as discussões feitas durante o primeiro dia do encontro.
A primeira mesa foi composta pela pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Marília Lobo Burle; pela liderança quilombola Urias Morato, do Quilombo São Pedro; e por Ana Paula Donato dos Santos, pesquisadora e liderança do Quilombo Porto Velho. A mediadora Letícia Ester, da Equipe de Articulação e Assessoria às Comunidades Negras do Vale do Ribeira (Eaacone) e liderança do quilombo São Pedro, trouxe em sua fala a importância de se ouvir o conhecimento que vem de fora, mas também de valorizar e reconhecer os saberes que estão no território.
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Mesa reuniu Urias Morato, do Quilombo São Pedro, Ana Paula Donato, pesquisadora no tema de mudanças climáticas, Marília Lobo Burle, da Embrapa, e a mediadora Letícia Ester|Júlio César Almeida/ISA
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Conversa sobre contaminação por metais pesados e terras raras foi conduzida pela pesquisadora doutora quilombola Maíra Silva|Júlio César Almeida/ISA
A liderança quilombola Aurico Dias, do Quilombo São Pedro, um dos coordenadores do GT da Roça - que organiza a Feira de Sementes - informa que há um diálogo aberto com a Embrapa para verificar se há nos bancos de sementes da empresa de pesquisa variedades de espécies que são da região mas que acabaram se perdendo.
“Queremos entender se a Embrapa tem qualidades de sementes crioulas que perdemos, para que possamos ter de volta sementes da nossa cultura”, explica.
Em sua apresentação, a pesquisadora Marília Burle, que atua no Centro Nacional de Recursos Genéticos e Biotecnologia (Cenargen/Embrapa), explicou sobre os bancos ativos de germoplasma da Embrapa e ações para ampliar o acesso das comunidades às sementes crioulas. Um banco de germoplasma é formado a partir da identificação, da caracterização e da preservação de células germinativas de alguns seres vivos, sejam eles animais ou vegetais. Ela explica que a instituição possui uma série de coleções de sementes e um banco central mantido em Brasília.
“A unidade da Embrapa à qual pertenço, o Cenargen, foi criada na década de 1970. Foi um período em que vários países começaram a se preocupar com a perda da diversidade agrícola e passaram a formar seus bancos de germoplasma ex situ, mantidos em grandes geladeiras pelo Estado, sob a concepção de que era preciso coletar materiais antes que variedades antigas fossem perdidas”, explica.
As sementes estão registradas em um sistema de informações chamado Alelo, que trata-se de uma plataforma digital pública de tecnologia da informação. Os números são expressivos: a coleção de milho conta com mais de quatro mil variedades, enquanto a de arroz supera 20 mil variedades.
Marília destaca que a Embrapa atua em projetos em rede, como o projeto Mãos Guardiãs, realizado em parceria com o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), que inclui ações diretas nos territórios. “Quem faz a conservação local não somos nós. A gente entra nesse projeto fazendo diálogos, ajudando nesse fluxo de material, onde a gente está aprendendo também”, diz.
Para as comunidades tradicionais, o vocabulário técnico ganha outro contorno.
“Para esse termo técnico, banco de germoplasma, nós povos e comunidades tradicionais usamos outros termos. A gente entende bem melhor quando se fala em um paiol de semente, uma casa de semente, um cantinho de semente”, explica Letícia Ester, da Eaacone.
A liderança quilombola Urias Morato resume o que está no centro dessa questão. “Nós temos que fazer com que uma semente fique deste ano para outro ano para fazermos a nova plantação”, disse. Para que isso aconteça, há todo um conhecimento tradicional envolvido. “Nós temos o nosso jogo de cintura para assegurar a semente, que são conhecimentos desde quando vai debulhar a semente até o plantio e também o armazenamento que vamos fazer para que ela não dê caruncho”, diz.
Nascido e criado no Quilombo São Pedro, Urias aprendeu o trabalho na roça aos nove anos com seus pais e tios. Ele relata que a comunidade, que hoje conta com cerca de 60 famílias, tinha um cotidiano pautado pelo compartilhamento mútuo de alimentos e produção.
A liderança Vanilda Donato, do Quilombo Porto Velho, reforçou que a discussão sobre sementes é inseparável da luta pela terra e cobrou a titulação de territórios quilombolas. “Não tem como ter semente saudável se o solo está doente, na mão de quem invade. Para falar de semente é preciso falar de titulação. Porque nós sabemos produzir de forma saudável. Essa terra é cuidada por nós. Mas hoje a gente não consegue descansar o solo por falta de território”, disse.
Pesquisa “Aquilombando o Clima”
O tema dos impactos das mudanças climáticas também foi discutido durante a Feira de Sementes, com o relato de Ana Paula Donato dos Santos, pesquisadora e liderança do Quilombo Porto Velho, sobre a pesquisa “Aquilombando o Clima”.
Quatro comunidades quilombolas do Vale do Ribeira (Cangume, Maria Rosa, Nhunguara e Porto Velho) investigaram como as mudanças climáticas vêm alterando seus territórios. Os resultados apontam rios com menos volume, temperaturas mais altas, roças menos produtivas, menos peixes e estações de plantio imprevisíveis.
A partir do diagnóstico, as comunidades formularam propostas de adaptação, entre elas melhoria nas formas de conservação e os bancos de sementes crioulas, restauração de matas ciliares e nascentes e titulação dos territórios. O estudo é coordenado pela analista em pesquisas interculturais do ISA, Lúcia Chamlian Munari.
“Durante a pesquisa notamos que os rios e os peixes estão diminuindo e isso é consequência do capitalismo que colocou na cabeça das pessoas só agir por dinheiro. Isso afeta quem cuida da natureza. Mas os jovens querem aprender com os mais velhos para resgatar esses conhecimentos e aprender o tempo certo do plantio, das luas. Os professores sobre o meio ambiente não estão apenas fora, nas universidades, mas também dentro dos territórios”, diz Ana Paula Donato dos Santos.
Na tarde de sexta-feira, um dos temas em discussão foi o Sistema Agrícola Tradicional do Quilombola do Vale do Ribeira (SAT), reconhecido como patrimônio nacional. O público acompanhou a apresentação do técnico do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Evandro Domingues, sobre as salvaguardas patrimoniais, que são ações para o fortalecimento do SAT Quilombola.
Ao longo deste ano estão sendo realizadas oficinas reunindo os atores locais, Associações Quilombolas, Eaacone, Cooperquivale, Iphan, Embrapa, ISA, Conaq, Sesc Registro e outros parceiros para dialogar sobre essas ações. Muitas delas já vêm sendo desenvolvidas pelas comunidades quilombolas. A partir dessas discussões será elaborada a Carta de Intenção do plano de salvaguarda, prevista para ser lançada na Feira de Sementes do ano que vem.
Logo em seguida, a pesquisadora quilombola Maíra Silva, doutora em Ciências na área de Geologia e Recursos Naturais, conversou com os presentes sobre contaminação por metais pesados e terras raras e como isso afetou e afeta o Vale do Ribeira.
Partilhas
A chuva no início da manhã de sábado não atrapalhou a troca de sementes, com participação dos quilombos da região, como como Porto Velho, Cangume, Praia Grande, Bombas, Pilões, Maria Rosa, Nhunguara, São Pedro, Galvão, Ivaporunduva, Piririca, André Lopes, Sapatu, Pedro Cubas, Pedro Cubas de Cima, Abobral Margem Esquerda, Abobral Margem Direita, Morro Seco, Peropava e Mandira.
Só na banca de Urias Morato havia pelos menos nove tipos de produtos, como palmito pupunha, cará, milho da palha grossa, chuchu, mandioca, mel, limão e seis tipos de feijão. Lucas Gattai, que trabalha com agricultura orgânica, visitou a feira pela primeira vez e fez boas trocas. Em uma das permutas, ele entregou feijão e levou quiabo japonês, além de conhecer a jabutitana que - segundo os quilombolas - é remédio pra tudo.
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Urias Morato, liderança do Quilombo São Pedro levou diversidade de produtos para a Feira|Júlio César Almeida/ISA
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Alimentos como milho, palmito, banana, cará, cana-de-açúcar, além de mudas foram compartilhadas no segundo dia|Júlio César Almeida/ISA
Comunidades do povo Guarani Mbya, na região do Vale, também estiveram presentes na feira, com suas próprias bancas de exposição de artesanatos e uma apresentação de danças tradicionais feitas pelos xondaro da Reserva Indígena Takuari, de Eldorado (SP).
Werá Abílio, liderança da aldeia Takuarity da TI Pakurity, em Cananeia (SP), foi até Eldorado com a família e contou que leva para a sua aldeia as sementes e mudas que consegue trocar por artesanato.
“É a segunda vez que participamos da feira de troca de sementes. E nós gostamos muito porque em algumas regiões os Guarani também perderam sementes importantes para nós. E quando a gente participa, encontramos algumas sementes e ramas de mandioca. Para trocar, a gente traz mais artesanato, que tem vários significados, importância e cultura de gerações. Fazemos com carinho e queremos mostrar para os povos e sociedade”, disse.
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Povo Guarani da Terra Indígena Pacurity, em Cananéia, participou da Feira pela segunda vez|Júlio César Almeida/ISA
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Os participantes também puderam aproveitar artes quilombola feita com produtos locais|Júlio César Almeida/ISA
Grupos de jovens também marcaram presença. Paulo Silvio Pupo Júnior, de 17 anos, estudante do ensino médio e integrante do recém-criado Grupo de Jovens do Quilombo Ivaporunduva, participou da feira junto com outros jovens. “A feira trata de vários temas que são de nosso interesse, como a nossa cultura. Por isso, decidimos participar conjuntamente. Todos nós fazemos trabalhos comunitários e entendemos a importância de estarmos em contato com os conhecimentos do nosso território”, disse. Os jovens criaram um grupo no Instagram para compartilhar informações e mobilizações.
Na programação também aconteceram diversas apresentações culturais, como os Violeiros do Ivaporunduva; Sarau da Tia Elvira, com leitura de poemas por Vaniele, Duda, Letícia, Júlia, Leonila e Iago; Dança do Quilombo Cangume; Puxirão Quilombo São Pedro; Nhã Maruca e Xondaro Guarani.
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Grupo de dança do Quilombo Cangume esteve na programação do segundo dia|Júlio César Almeida/ISA
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Leitura de poemas, Xondaro Guarani, Puxirão do Quilombo Cangume e mais na celebração de mais uma edição|Júlio César Almeida/ISA
O Vale do Ribeira é uma das regiões com maior sociobiodiversidade do estado de São Paulo, abrigando mais de 40 comunidades quilombolas, além de povos indígenas, caiçaras e caboclos. Essas comunidades habitam a região há mais de 400 anos e desempenham um papel fundamental na manutenção do maior remanescente contínuo de Mata Atlântica.
Coordenador do Programa Vale do Ribeira do Instituto Socioambiental (ISA), Frederico Viegas explica que, historicamente, a legislação ambiental restritiva impôs obstáculos às práticas tradicionais agrícolas locais. Diante da proibição de práticas como a roça de coivara na década de 1990, que gerou multas e perseguições, as comunidades criaram a feira como instrumento de resistência e preservação de variedades.
“O Vale do Ribeira destaca-se pela sociobiodiversidade e resistência histórica de comunidades tradicionais. A feira de sementes surgiu como estratégia contra a criminalização de práticas agrícolas ancestrais. Este ano ocupamos um novo espaço na praça, sendo um marco que indica seu fortalecimento a cada edição”, diz.
A 17ª edição reuniu representantes da Embrapa, do Iphan, do MDA, do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), do ISA, da Eaacone, do Slow Food, Sesc Registro, da Prefeitura de Eldorado, entre outros. Em 2025, circularam pela feira 235 variedades de sementes e mudas e 1,5 tonelada de mudas, sementes, alimentos processados e não processados e doações. Os dados deste ano ainda estão sendo organizados.
Na hora do almoço tradicional, servido no sábado, uma celebração dos sistemas agrícolas: palmito, farofa de ostras, arroz, feijão, carne de porco. A fartura dos quilombos do Vale continua - como nos ensina seu Urias - de um ano para o outro!
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No almoço tradicional quilombola, para fechar o evento, farofa de ostras, mandioca, feijão e carne de porco|Júlio César Almeida/ISA
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Refeição farta é preparada por mulheres dos quilombos da região, com suas produções|Júlio César Almeida/ISA
A Feira de Troca de Sementes e Mudas Tradicionais é uma realização do GT da Roça com apoio do Instituto Socioambiental (ISA), Sesc Registro, Prefeitura de Eldorado, Prefeitura de Iporanga, Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e Bem-Te-Vi Diversidade. Em 2025, circularam pela feira 235 variedades de sementes e mudas e 1,5 tonelada de mudas, sementes, alimentos processados e não processados e doações. Os dados deste ano ainda estão sendo organizados.
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Nos dias 14 e 15 de agosto, em Eldorado (SP), lideranças das comunidades quilombolas da região compartilham debates sobre preservação e a força da cultura viva em programação gratuita
Há sementes agrícolas que guardam séculos de história, resistência e cuidado com a terra. É com esse legado nas mãos que as comunidades quilombolas do Vale do Ribeira, no sudoeste de São Paulo, abrem suas portas para a 17ª Feira de Troca de Sementes e Mudas Tradicionais.
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Feira promove trocas e vendas de sementes e mudas tradicionais, apresentações culturais e o tradicional almoço quilombola|Júlio César Almeida/ISA
Nos dias 14 e 15 de agosto, a Praça Nossa Senhora da Guia, em Eldorado (SP), será palco de um grande encontro com muita comida boa, dança, cantos, conhecimento e alegria de compartilhar saberes e lutas.
Organizada pelo Grupo de Trabalho da Roça, composto por dezenove Associações das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira e parceiros, em conjunto com o Instituto Socioambiental (ISA), a feira visa fortalecer a cultura quilombola, a segurança alimentar e a proteção da agrobiodiversidade local. Em 2018, o Sistema Agrícola Tradicional (SAT) Quilombola do Vale do Ribeira, base da feira, foi reconhecido como patrimônio cultural brasileiro pelo Iphan.
Valni de França Dias, integrante do GT Roça e liderança do Quilombo São Pedro, celebra que a Feira é maior a cada ano. Para ela, é uma oportunidade de mostrar o que foi realizado desde a última edição e despertar o interesse de cada vez mais quilombolas por meio da conscientização.
“A Feira é para apresentar um trabalho que nós fazemos o ano todo com as nossas roças, com as sementes, com a nossa alimentação e também com as licenças”, explica. “E as sementes, para nós, é um patrimônio muito precioso. Por isso, temos que salvaguardar com cuidado, e contamos com representantes das comunidades e entidades parceiras nessa organização”, completa.
Para Ruan Carlos da Conceição, gerente do Sesc Registro, a Feira é uma das mais importantes expressões da relação entre cultura, território, biodiversidade e memória ancestral presentes na região.
“Para o Sesc Registro, participar desta iniciativa é reafirmar um compromisso construído ao longo dos anos ao lado das comunidades quilombolas, apoiando ações que valorizam seus saberes, modos de vida e formas de organização social”, diz. “Não atuamos apenas como parceiros, somos também aprendizes, neste convívio com as comunidades quilombolas e buscamos ampliar a visibilidade dessas narrativas e fortalecer o Sistema Agrícola Tradicional Quilombola como um patrimônio vivo, construído e preservado por gerações de agricultores e agricultoras que contribuem diretamente para a conservação da Mata Atlântica e para a manutenção da diversidade cultural do Vale do Ribeira”.
Ruan destaca o desenvolvimento conjunto de exposições, encontros, atividades formativas, ações educativas e programas culturais que aproximam diferentes públicos da riqueza desses conhecimentos.
“Acreditamos que a Feira é um espaço fundamental de intercâmbio, fortalecimento comunitário e mobilização social, capaz de conectar tradição e futuro.”
O evento é um convite aberto para todos que desejam se encantar com a riqueza das tradições afro-brasileiras e entender mais sobre os modos de vida que mantêm o maior maciço de Mata Atlântica em pé. Durante os dois dias, o público poderá vivenciar debates sobre a preservação ambiental, conhecer mais sobre a roça de coivara, coleta e beneficiamento de sementes, e fortalecer as comunidades ao saborear pratos da culinária tradicional e garantir mudas e sementes crioulas produzidas diretamente nas roças quilombolas da região.
Para Giselle Sousa, analista do Instituto Socioambiental (ISA), também parceiro histórico do evento, o compartilhamento é também sobre as pressões sofridas pelas comunidades quilombolas, como a crescente emergência climática. Ela explica que pesquisadores quilombolas também vão levar resultados sobre uma pesquisa nesse tema.
“O Instituto Socioambiental tem contribuído para o diagnóstico, com a implementação do protocolo LICCI (Indicadores Locais de Impactos das Mudanças Climáticas) junto a pesquisadores Quilombolas, que resultou em percepções de mudanças no clima nos territórios e que serão fundamentais para incidência em políticas públicas climáticas e estratégias de adaptação", diz.
A edição mais recente, a 16ª edição, realizada em agosto de 2025, reuniu cerca de 500 pessoas, entre quilombolas, indígenas, ribeirinhos e parceiros. O evento destacou a importância da roça como espaço de identidade e autonomia, promovendo a troca de mais de 300 variedades de sementes e mudas.
"A feira de troca de sementes é um movimento que viabiliza a visibilidade do modo de vida quilombola na região do Vale do Ribeira. A troca de sementes que são manejadas durante gerações conectam histórias, resistência e segurança alimentar dentro dos territórios", reforça Giselle.
Confira a programação
A sexta-feira (14/08) será dedicada ao aprendizado e à reflexão com um ciclo de seminários e começa com o café da manhã seguido de uma mística de abertura com o Seu Aurico, liderança do Quilombo São Pedro. Depois, a mesa "A Embrapa e a democratização de sementes: o resgate e o acesso às sementes crioulas", conta com a participação de Ana Paula Donato dos Santos, liderança do Quilombo São Pedro, da pesquisadora Patrícia Goulart Bustamante (Embrapa) e mediação de Letícia Ester (Eaacone).
No período da tarde, o público acompanha a apresentação do Iphan sobre salvaguarda patrimonial e um bate-papo importante sobre os impactos da contaminação por metais pesados no território, com Maira Silva, pesquisadora quilombola, doutora em Ciências na área de Geologia e Recursos Naturais.
No sábado (15/08), a festa ganha o coração da cidade. Das 9h às 14h, a praça se enche de vida com a tradicional Troca de Sementes e Mudas, feira de produtos vindos direto da roça, apresentações culturais com os Violeiros do Ivaporunduva; poesias da Tia Elvira; dança do Quilombo Cangume; puxirão Quilombo São Pedro; Nhá Maruca; Xondaro Guarani; e um imperdível almoço tradicional quilombola para encantar o paladar e celebrar a cultura viva.
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Valni de França Dias, do Quilombo São Pedro, na cozinha da 16ª Feira de Troca de Sementes e Mudas Tradicionais das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira|Júlio César Almeida/ISA
Valni, que também compõe a equipe da cozinha, compartilha a alegria de participar do preparo do tradicional almoço com frutos de suas roças. “Os alimentos que a gente prepara, é a gente mesmo que planta, que colhe e é muito gratificante.”
A Feira de Troca de Sementes e Mudas Tradicionais é uma realização do GT da Roça com apoio do Instituto Socioambiental (ISA), Sesc Registro, Prefeitura de Eldorado, Prefeitura de Iporanga, Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e Bem-Te-Vi Diversidade.
Serviço
Evento: 17ª Feira de Troca de Sementes e Mudas Tradicionais das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira
Data: 14 e 15 de agosto
Local: Praça Nossa Senhora da Guia — Eldorado, SP, a 3hrs de São Paulo
Entrada: Gratuita e aberta a todos os públicos.
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Nota de pesar pelo falecimento de Zulmira Rosa de Oliveira, liderança do Quilombo Porto Velho (SP)
Benzedeira, artesã e referência no Sistema Agrícola Tradicional Quilombola, Dona Zulmira deixa um legado inestimável de fé, sabedoria e cura no Vale do Ribeira
O Instituto Socioambiental (ISA) lamenta com profundo pesar o falecimento de Zulmira Rosa de Oliveira, liderança do Quilombo Porto Velho, no Vale do Ribeira (SP).
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Zulmira Rosa Oliveira com suas peças artesanais na primeira Feira de Troca de Sementes e Mudas de Plantas Tradicionais dos quilombos do Vale do Ribeira, que ocorreu em Eldorado, Vale do Ribeira, em 2008|Claudio Tavares/ISA
Dona Zulmira, como era conhecida no quilombo e nas redondezas, foi uma cuidadora de gentes. No quilombo de Porto Velho, era uma das referências para fazer o benzimento, o chá, a garrafada e as orações quando uma criança ou qualquer outra pessoa ficava doente. Conhecia muitas ervas e rezas de cura. Também era artesã e seu canto iluminava as romarias.
Zulmira, mãe de quatro filhos, um enteado, três netos e seis bisnetos, também sempre esteve próxima à luta pelo território e, com sua família, trabalhou e cultivou a terra, sendo guardião de muitas variedades agrícolas e mestre na arte de fazer farinha.
“Ela realmente dava a vida pela luta. Só tenho a agradecer. É uma perda de história. Ela contava causo de duas horas, três horas a fio de conversa. Eu cresci nesses causos, torrando farinha junto com ela. Ela conheceu a comunidade inteira, conhecia muito. É uma perda irreparável para nossa cultura. Ela fez muito por nós. Muito mesmo”, lamenta Osvaldo dos Santos, liderança do Quilombo Porto Velho.
Participou do grupo de lideranças quilombolas que criaram a Feira de Trocas de Sementes e Mudas Tradicionais dos Quilombos do Vale do Ribeira e participou da primeira edição em 2008.
Agradecemos seus ensinamentos e que sua sabedoria continue inspirando gerações de quilombolas e parceiros para seguir a luta dessa mulher quilombola tão inspiradora que ancestralizou.
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Feira de Troca de Sementes e Mudas Tradicionais das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira vence prêmio do governo de SP
Iniciativa realizada anualmente há quase 20 anos foi uma das reconhecidas pelo Prêmio Governador do Estado 2026 na categoria Valorização do Patrimônio Cultural na última quarta-feira (29/07)
A Feira de Sementes e Mudas Tradicionais das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira venceu o Prêmio Governador do Estado para as Artes 2026, da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, na categoria Valorização do Patrimônio Cultural. A cerimônia foi realizada na noite de 29 de julho, no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo.
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Benedita Santos Rocha, do Quilombo Maria Rosa, e Leonila Priscila da Costa Pontes, do Quilombo Abobral Margem Esquerda, na 11ª Feira de Troca de Sementes e Mudas Tradicionais das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira|Claudio Tavares/ISA
Realizada em Eldorado de forma comunitária e com uma história de quase duas décadas, a Feira promove o intercâmbio de sementes, mudas e conhecimentos entre as comunidades quilombolas do Vale do Ribeira. A iniciativa contribui para a preservação da biodiversidade, a transmissão dos conhecimentos tradicionais entre gerações e a continuidade das práticas agrícolas ancestrais, como a roça de coivara, parte do Sistema Agrícola Tradicional Quilombola, reconhecida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como patrimônio imaterial do Brasil.
Para Leonila Priscila da Costa Pontes, do Quilombo Abobral Margem Esquerda e integrante do Grupo de Trabalho Roça, que organiza a Feira todos os anos, é uma alegria receber este reconhecimento.
“Eu frequento a feira desde a primeira vez, quando eu morava no sítio, meus tios ainda eram vivos. A gente plantava mandioca, batata, plantava tudo. E quando era na feira de semente, eu trazia bolo de roda, rosquinha econômica, coruja, trazia de tudo que a gente sabia fazer”, explica.
A premiação reforça a importância da Feira como espaço de preservação do patrimônio cultural quilombola, que representa os modos de vida por meio de seus produtos agrícolas, sementes e mudas compartilhadas.
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Variedades de espécies presentes nas tendas da 15° Feira de Troca de Sementes e Mudas Tradicionais das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira|Júlio César Almeida/ISA
“Eu me criei na Roça de Coivara, além de plantar arroz, feijão, mandioca, cará, banana e laranja, me criei debaixo do pé do café”, celebra Leonila, que hoje está com 77 anos e meio. “Acho muito gratificante ter recebido essa premiação aí, que eu sinto com muita gratidão, muito prazer, e fico sensibilizada com tudo isso”, completa.
A Feira concorreu com outras quatro iniciativas na categoria Valorização do Patrimônio Cultural e recebeu um prêmio de R$ 35,5 mil. A edição de 2026 do Prêmio Governador do Estado reconheceu projetos em 13 categorias e distribuiu mais de R$ 400 mil aos vencedores.
Instituído em 1986, o Prêmio Governador do Estado para as Artes reconhece artistas, instituições e iniciativas que contribuem para a produção e a diversidade cultural paulista. A vitória da Feira amplia a visibilidade dos saberes quilombolas e destaca a contribuição das comunidades do Vale do Ribeira para a proteção da diversidade cultural e ambiental do estado de São Paulo.
E a próxima edição da Feira já tem data marcada. Acompanhe presencialmente em Eldorado (SP) e confira essa e outras novidades em nossas redes sociais.
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Iniciativa quilombola, Casa de Sementes Jucão recebe prêmio internacional de arquitetura
Edificação no Quilombo Nhunguara (SP) foi escolhida por combinar beleza e função ecológica, atender às necessidades locais e dar poder às pessoas de transformar realidades
Construída em estrutura de taipa de pilão, construção da Casa de Sementes Jucão valoriza conhecimento tradicional quilombola|Alain Briatte Mantchev
A premiação, além de reconhecer o valor social e ecológico da construção de 42m2 localizada no Quilombo Nhunguara, em Iporanga (SP), valoriza o conhecimento tradicional dos antepassados dos coletores e abre caminhos para novos projetos.
De acordo com a comissão avaliadora do Ammodo Architecture Award 2025, a escolha da Casa de Sementes do Jucão se deu pela forma inovadora que o projeto combina beleza e função ecológica, ao mesmo tempo em que atende às necessidades locais com potencial de transformação e amplia o poder de transformação social, transformando-se, portanto, em algo extraordinário.
Conheça a Casa de Sementes Jucão!
O espaço é seguro e saudável para sementes, e contribui para a manutenção e regeneração da floresta brasileira no futuro. O reconhecimento exalta um exemplo de como uma estrutura pode ser ao mesmo tempo bela, simples e ainda com potencial de ajudar a resolver um problema global.
Estruturada em taipa de pilão com cascalho do Rio Ribeira de Iguape, podendo armazenar toneladas de sementes coletadas da Mata Atlântica, a casa de sementes foi inaugurada em 15 de dezembro de 2021.
O espaço foi batizado como Casa de Sementes Jucão em homenagem a José Rodrigues de Almeida, liderança do Quilombo Nhunguara, um batalhador pelas roças tradicionais e sempre à frente na luta pelo reconhecimento do seu território, falecido em novembro de 2021.
Giovanna Bernardes, do Instituto Socioambiental (ISA) e responsável técnica da Rede de Sementes do Vale do Ribeira, conta que o prêmio, de 10 mil euros, será revertido para melhorias na construção.
“Essas melhorias fortalecerão o papel da Casa de Sementes, potencializando seu efeito multiplicador em diversas atividades. A Casa de Sementes tornou-se um espaço acolhedor e um elo vital nos esforços contínuos da rede para restauração ecológica e engajamento comunitário”, informa.
A Rede de Sementes do Vale do Ribeira é um projeto apoiado pelo ISA e faz parte do Redário, mobilizando cerca de 60 coletoras e coletores dos quilombos André Lopes, Maria Rosa, Nhunguara, São Pedro e Bombas.
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Maria Tereza Vieira, é quilombola, agricultora, viveirista e coletora de sementes, uma das fundadoras da Cooperativa da Rede de Sementes do Vale do Ribeira|Cláudio Tavares/ISA
De acordo com Maria Teresa Vieira, secretária da Rede de Sementes do Vale do Ribeira, a beleza e funcionalidade da Casa de Sementes faz a diferença na região, além de atrair visitantes há algum tempo.
“Esse prêmio vai nos ajudar, principalmente para nossa casa da semente, que é um local onde a gente está começando a receber o turismo também, para o pessoal que está vindo para visitar. Então, a gente tem que ter alguns reparos”, explicou. “O mais importante de tudo é ser reconhecido, sabendo que tem gente lá fora, tem pessoas que pensa positivo a nosso respeito, seja brasileiro ou estrangeiro, mas que também luta pela mesma causa de ver um planeta mais saudável, um planeta com mais verde. Por esse motivo eu agradeço esse prêmio em nome da rede toda e de todos coletores”, conclui.
Conhecimento tradicional
Alain Briatte Mantchev, arquiteto responsável pelo projeto, acredita que a aplicação da técnica tradicional dos quilombos foi o que proporcionou o resultado premiado.
“Ela já é própria dos quilombos, né? Todos os fogões de taipa que a gente vê tradicionalmente, é a mesma técnica das paredes ali. Então, na verdade, a gente se inspirou nessa técnica quilombola para construir a casa de sementes. E aí acho que cabe uma frase muito significativa para o projeto: guardar as sementes na terra para na terra a gente semear. E acho que tudo isso faz muito sentido”, afirma
Mantchev explica que o Prêmio Ammodo de Arquitetura celebra a arquitetura ecológica e social, a partir da seleção de projetos escolhidos por especialistas de vários continentes. O projeto Casa de Sementes do Jucão foi indicado pela arquiteta chilena, Amanda Riviera.
O evento de premiação aconteceu em cerimônia virtual em 13 de novembro de 2025.
O prêmio
A Ammodo Architecture promove e apoia a arquitetura social e ecologicamente responsável em todo o mundo. O Prêmio Ammodo de Arquitetura para escala local incentiva projetos com orientação social e ecológica. Na edição 2025, 26 projetos foram selecionados - 12 na categoria escala local, 12 na categoria engajamento social e dois na categoria arquitetura social.
A Ammodo é uma fundação holandesa que estimula o desenvolvimento da arte, da ciência e da arquitetura.
A Cooperativa da Rede de Sementes do Vale do Ribeira leva para a 13ª edição da Feira de Práticas Socioambientais Pétala por Pétala, no Sesc Interlagos, neste sábado (13/09), a vivência da “Muvuca de Sementes”, conhecida também como método de semeadura direta, com Giovanna Bernardes, engenheira agrônoma e responsável técnica da Rede, e Zélia Pupo, coletora de sementes e elo do grupo de coletores do Quilombo André Lopes.
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A Rede de Sementes do Vale do Ribeira atua desde 2017 e reúne coletores de cinco comunidades quilombolas de Eldorado e Iporanga|Andressa Cabral Botelho/ISA
A técnica consiste em misturar sementes de espécies florestais nativas, agrícolas e de adubação verde, junto a um material que auxilia na homogeneização, como areia, serragem ou terra. As espécies são escolhidas de acordo com o ecossistema local e a sucessão florestal, promovendo a formação de novas florestas e sua longevidade.
Com o tema “Pisar a Terra”, a Feira busca inspirar reflexões sobre a relação que estabelecemos com a terra a partir de diferentes perspectivas e em diálogo com as questões socioambientais contemporâneas.
Como parte da programação, o Instituto Socioambiental (ISA) e a Cooperativa da Rede de Sementes do Vale do Ribeira reforçam ainda o aspecto ecológico e comunitário da muvuca de sementes, que valoriza o conhecimento tradicional, incentiva a participação popular no reflorestamento e cria pontes entre o meio rural e urbano, contribuindo para a conservação da biodiversidade.
Além da atividade, Alina Morato e Omelina Santos, coletoras do Quilombo André Lopes estarão com um estande ao longo do evento no sábado e no domingo, expondo o Guia de Sementes "Do Quilombo à Floresta", além de algumas sementes e produtos quilombolas.
A oficina acontece no Hall do Viveiro de forma gratuita e tem duração de 180 minutos a partir das 13h. A Feira de Práticas Socioambientais Pétala por Pétala é uma realização do Sesc São Paulo com apoio do Consulado Geral da Alemanha em São Paulo.
Sobre a Rede de Sementes do Vale do Ribeira
A Rede de Sementes do Vale do Ribeira é uma iniciativa que atua desde 2017 na região do Vale do Ribeira, no sudeste de São Paulo. Atualmente, reúne cinco comunidades quilombolas (André Lopes, Bombas, Maria Rosa, Nhunguara e São Pedro), localizadas nos municípios de Eldorado e Iporanga. O objetivo é fornecer sementes florestais nativas com qualidade e em quantidade para a restauração ecológica do bioma Mata Atlântica.
As sementes da Rede já foram utilizadas em diversas regiões do Estado de São Paulo. Em 2024, venderam mais de 1 tonelada de sementes, contribuindo para a restauração da Mata Atlântica e gerando uma renda superior a 130 mil reais para 60 famílias quilombolas.
Serviço
Muvuca de Sementes com a Cooperativa da Rede de Sementes do Vale do Ribeira na Feira de Pétala por Pétala
Local: Hall do Viveiro, no Sesc Interlagos
Dia e horário: Sábado, 13/09, a partir das 13h
Duração: 180 minutos
Entrada gratuita e por ordem de chegada
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Decisão que invalida sobreposição de Unidade de Conservação a quilombo no Vale do Ribeira ganha prêmio do CNJ
Reconhecimento de sentença sobre o Quilombo Bombas valoriza luta histórica pela permanência dos quilombolas em seu território
Decisão da juíza Hallana Duarte Miranda, do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJSP), foi premiada no 2º Concurso Nacional de Decisões Judiciais e Acórdãos em Direitos Humanos do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) na categoria Direitos dos Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais. A cerimônia de premiação aconteceu em 12 de agosto.
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Hallana Duarte Miranda, do TJSP, foi reconhecida na categoria Direitos dos Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais|YouTube do CNJ
A sentença foi proferida em dezembro de 2023 a favor do Quilombo Bombas, que historicamente vive e resiste no Vale do Ribeira, e que, desde 1958, passou a sofrer com conflitos socioambientais derivados da sobreposição de seu território pelo Parque Estadual Turístico do Alto do Ribeira (Petar), Unidade de Conservação de Proteção Integral, que não admitiria a presença humana em seu interior.
Segundo ela, o CNJ tem trabalhado na proteção e incentivo à aplicação, pelo Poder Judiciário brasileiro, dos tratados e convenções internacionais de direitos humanos que asseguram direitos a diferentes segmentos da sociedade, entre eles, povos e comunidades tradicionais, que abrange os povos indígenas, comunidades quilombolas e outras comunidades tradicionais.
“O Brasil internalizou a Convenção 169 da OIT, que trata dos povos e comunidades tradicionais, uma das normativas que protege as comunidades quilombolas. O reconhecimento dessa decisão, na verdade, é um reconhecimento de que o sistema de justiça entende como importante a proteção territorial dessas comunidades”, afirmou.
A partir da década de 1980, a Unidade de Conservação criada no papel em 1958 começou a ter seu perímetro delimitado fisicamente pelo Governo do Estado de São Paulo. Esse processo exerceu grande pressão pela expulsão de comunidades tradicionais de suas terras, já que o Petar se sobrepõe aos territórios quilombolas e de comunidades Caboclas. Essa pressão pela expulsão das comunidades ocorreu, e ainda ocorre, apesar dos direitos constitucionais e convencionais desses povos e comunidades, da ocupação centenária dessas áreas por esses sujeitos coletivos e da constatação de que o modo de vida tradicional mantém o maior maciço de Mata Atlântica do Brasil em pé.
Suzana Pedroso, liderança do Quilombo Bombas de Cima, relata os desafios provocados pela sobreposição para a comunidade, que perdeu muitas famílias por conta das inúmeras limitações, principalmente para plantar as roças tradicionais.
"O parque quer dizer que nós não preserva. Nossas famílias nunca destruiu lá. Nunca destruiu a mata. Tem cerca de 25 famílias lá e nós preserva, nós planta e os bichos são os primeiros que comem. Nós sabe trabalhar e nós quer trabalhar livre. O parque levou nosso direito. Eu vivo na roça, eu trabalho na roça, criei meus filho na roça, meu pai me criou na roça", disse.
Na decisão inédita no país e histórica, a juíza reconheceu a invalidade da sobreposição do Petar ao território do Quilombo Bombas, situado na região do Vale do Ribeira, a sudoeste do estado, no município de Iporanga. Após mais de duas décadas de diálogos da comunidade com a Fundação Florestal e com organizações ambientalistas, o conflito derivado das sobreposições não foi resolvido no diálogo. Nesse contexto, a decisão judicial supre a inoperância do Poder Executivo do Governo de São Paulo em resolver essas questões, garantindo direitos às comunidades. Há outros conflitos judicializados que aguardam solução, como no caso das comunidades caiçaras da Juréia e no Quilombo da Fazenda, ambos em São Paulo.
Além disso, a decisão determina a apresentação do cronograma de execução e prazo para início da obra da estrada de acesso ao quilombo, que já fora determinada em decisão liminar anterior, proferida em 2015.
Suzana comemorou a decisão. "Foi muito importante e esse prêmio foi muito merecido. Ela viu o sofrimento do povo. O parque vem oprimindo muito o povo. Ele libera uma parte da roça e depois, mesmo liberado, vem a multa. E nós estamos sofrendo muito com isso. Quem somos nós no mato se a gente não puder viver da nossa roça? Eu me sinto presa, sem poder trabalhar. Era para ter nossa roça de feijão, rama e não tem essa liberação. Antes da instalação do parque, nós era livre. Hoje nós vive com medo, está difícil morar lá", desabafou.
Durante a Feira, Suzana e Hallana se conheceram. Suzana apresentou a família e a agradeceu. Emocionada, a juíza contou que o maior reconhecimento veio da própria comunidade quilombola.
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Encontro entre a juíza Hallana Duarte Miranda e Suzana Pedroso, liderança do Quilombo de Bombas de Baixo|Julio César Almeida/ISA
“Mais do que ganhar prêmio, acho que é o que mais me emocionou, e foi hoje, foi conhecer a dona Suzana, que é membro e liderança da comunidade de Bombas, e ela disse que a decisão para ele significa muito. Então, eu acho que, acima de qualquer teoria, prêmio ou academia, você ver a transformação na realidade, as pessoas sendo protegidas, é a coisa mais satisfatória, não só para mim, mas é a coisa mais satisfatória para quem tem um compromisso mesmo, que os direitos humanos se implementem.”
Trocas que germinam futuro: sementes circulam de mão em mão, fortalecendo a alma da feira|Julio César Almeida/ISA
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Cantos e batuques se somam, com os sons que também fazem florescer a resistência quilombola|Julio César Almeida/ISA
Mais de 300 pessoas se reuniram em Eldorado (SP) para viver dois dias de partilha e celebração na 16ª Feira de Troca de Sementes e Mudas Tradicionais das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira, encontro que reafirma a força dos quilombolas da região e celebra o Sistema Agrícola Tradicional (SAT), guardião de sementes, histórias e modos de vida.
Nem o céu nublado atrapalhou as conversas, trocas e encontros, que acontecem todos os anos em agosto. A feira recebeu comunidades quilombolas de diferentes municípios da região, estudantes do ensino fundamental ao universitário, organizações sociais, parceiros e autoridades.
A 16ª edição é uma realização Grupo de Trabalho da Roça – GT da Roça, composto por 19 Associações das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira e parceiros como a Equipe de Articulação e Assessoria às Comunidades Negras (Eaacone) e o Instituto Socioambiental (ISA). Também apoiaram o evento o Sesc Registro e as Prefeituras de Eldorado, Iporanga e Itaoca.
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Abertura da 16ª Feira de Troca de Sementes e Mudas Tradicionais das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira aconteceu em Eldorado|Júlio César Almeida/ISA
Na manhã de 15/08, a feira se inaugurou ao som da palavra quilombola. Com o tema “Educação Quilombola, transmissão de saberes e os desafios da juventude nos territórios”, o seminário de abertura trouxe as vozes dos anciãos Benedita Santos Rocha, do Quilombo Maria Rosa, e João Catá, do Quilombo Nhunguara, guiados pela mediação de Luiz Ketu, do Quilombo São Pedro, escritor e co-autor de obras como Na companhia de Dona Fartura, uma história sobre cultura alimentar quilombola.
Com a proposta de consolidar ainda mais um processo de educação que considere os saberes dos mais velhos sobre o território como conhecimento, a mesa teve falas poderosas, que evidenciaram o compromisso com a cultura quilombola, em todas as suas formas.
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Da esquerda para direita: Luiz Ketu, João Catá e Benedita Santos Rocha|Júlio César Almeida/ISA
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Segunda mesa da parte da manhã discutiu os tempos de hoje e o futuro ancestral - começo, meio e começo|Júlio César Almeida/ISA
“Como é importante a organização, convivência e união para a continuação do nosso antepassado. Eu aprendi muito com meus pais a cuidar da vida. Nós somos os guardiões do nosso território”, explicou Benedita. Segundo ela, seus pais não tinham a sabedoria do papel, mas sustentaram a família de forma abundante, ensinando o cuidado com a natureza e conceitos como sazonalidade e aproveitamento integral dos alimentos.
“Lá na Maria Rosa a gente aprendeu desde pequeno a plantar arroz, feijão, milho. Fomos nos formando na agricultura, na universidade do plantio. Os pais foram nossos professores", disse ela, que também aprendeu com os pais a fazer o plantio sem agrotóxico, cozinhar no fogão a lenha e a valorizar o lugar onde nasceu. Benedita, que aprendeu a escrever seu nome após os 30 anos, se orgulha por hoje dividir mesa com os professores.
Seu João da Mota, mestre no manejo da floresta, aproveitou o momento para relembrar sua primeira professora, Dona Zilda, em 1954, época em que as escolas ainda eram de pau a pique. E hoje eles continuam lutando para repassar aos mais jovens a importância do modo de ser quilombola, inclusive na questão de saúde, que Seu João fez questão de compartilhar: “Eu tenho 71 anos, nunca pousei num hospital, sempre remédio de ervas que eu tomo”.
Luiz Ketu, atualmente Doutorando em Educação pela Universidade Federal de São Carlos (UFScar), agradeceu pela resistência de ambos diante das dificuldades e ressaltou a importância de também abrir caminhos para outros espaços, como a universidade, que foram conquistados graças à luta das comunidades quilombolas aliadas às organizações locais, que motivaram a criação de políticas públicas de inclusão e protocolos de consulta. Para ele, a luta continua.
“A gente precisa fortalecer o território. Ter essa roda aqui envolvendo jovens, mais velhos e mais velhas, crianças faz parte de um processo de luta nosso”, disse em plenária.
Na plateia, estavam estudantes da Escola Estadual Alay Jose Correa Vereador, de Registro; Escola Estadual Nascimento Sátiro da Silva, de Iporanga; Escola Estadual Maria Chules Princesa de Eldorado, além das Escolas Municipais de Educação Infantil e Ensino Fundamental dos Quilombos Sapatu, André Lopes, Nhunguara, Ivaporunduva, Galvão, Cangume e São Pedro.
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As publicações "Roça é Vida" e "Do quilombo à floresta" valorizam conhecimento ancestral das Comunidades Quilombolas|Julio César Almeida/ISA
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Estudantes do Ensino Fundamental e Médio compareceram ao primeiro dia do evento para ouvir e falar sobre sobre seus futuros|Julio César Almeida/ISA
Haviam também estudantes de licenciatura em Educação do Campo - Ciências da Natureza da Universidade do Paraná (UFPR), e universitários da licenciatura em Educação Escolar Quilombola - Pedagogia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), em turma composta por 30 estudantes quilombolas, sendo 90% delas mulheres, estavam em aula.
Benedita, ressalta a importância de que os futuros profissionais entendam cada vez mais a importância de voltar para os territórios. "É muito importante estudar. Fora da casa da gente é sofrido, mas é um sofrido compensado. Depois da formatura, ele volta com outro jeito de ver a realidade lá fora".
“A educação quilombola muda o mundo”
Na segunda mesa, “Os tempos de hoje e o futuro ancestral - começo, meio e começo”, Lorrayne Silva, do Quilombo André Lopes, fez a mediação junto com Vaniely dos Anjos Santos Dias, do Quilombo São Pedro, das falas das jovens lideranças Misael Henrique Rodrigues Dos Santos, do Quilombo Galvão; Ana Laura Donato dos Santos, do Quilombo Porto Velho; Letícia Ester França, do Quilombo São Pedro; e Niceia Santos, do Quilombo Maria Rosa.
Os participantes relataram que hoje tem o entendimento sobre o quanto a educação quilombola transforma, mas essa consciência nem sempre foi motivo de orgulho por conta da forma como as comunidades eram representadas no ambiente escolar.
"Os povos tradicionais, as comunidades quilombolas sofreram muito. Quantas pessoas deixaram de ter essa conversa nas escolas? Como alunos, era muito difícil para a gente trabalhar esses temas na sala de aula", lamentou Letícia Ester França em fala sobre racismo ambiental e a educação. Niceia Santos concorda: "Esse preconceito era sofrido também na escola. Eu não falava para os meus colegas que morava em quilombo, tinha vergonha. Mas os tênis estavam cheios de barro."
As lideranças ressaltaram que ações que exaltem a ancestralidade, os modos de ser e viver dentro dos quilombos, são estratégias para dar continuidade à cultura quilombola, e tudo isso passa pela valorização dos mais velhos.
"O conhecimento que eles [os mais velhos] têm, a gente enquanto jovem não tem dimensão disso. É um conhecimento do dia-a-dia, uma troca. No momento que a gente leva os conhecimentos ao território, a gente retorna às nossas raízes. A gente que forma o território", colaborou Misael Henrique, do Quilombo Galvão.
E formar essa consciência é lutar também por infraestrutura, por políticas públicas que cheguem e pela garantia de direitos fundamentais. Tudo isso passa pelo direito ao território. "Estamos abrindo portas, tendo a oportunidade de nos inserir cada vez mais nos espaços de discussão, de enfrentamento, de fazer política", destacou Vaniely dos Anjos Santos Dias.
Viviane Luiz, diretora de seis escolas quilombolas em Eldorado concorda. “Dentro dessa questão da educação como modalidade de ensino, perpassa questões do território, como o transporte escolar, como a merenda escolar. Então a alimentação está no cerne dessa discussão entendendo que a produção da roça, a produção da vida, ela se dá nos territórios quilombolas. E os quilombolas, tanto mulheres quanto homens, são os detentores desse conhecimento.”
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Na preparação do almoço quilombola, ingredientes tradicionais, como palmito e ostras foram utilizados|Julio César Almeida/ISA
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Time que cuidou da alimentação durante a Feira. Arroz, feijão, salada, carne de porco e sucos também fizeram parte do cardápio|Julio César Almeida/ISA
Após o almoço, foi o momento das oficinas simultâneas. Para a confluência de saberes, o evento promoveu discussões sobre comida quilombola, sementes agrícolas e florestais e manejo integrado do fogo.
Alimento é identidade
A oportunidade de partilhar histórias e exaltar a cultura quilombola em torno das comidas é algo que se cria. E esse aspecto ficou explícito durante a mesa “Comida quilombola na escola: a experiência da política Catrapovos no município de Iporanga/SP”, que teve a apresentação de Carlos Ribeiro, assessor técnico do Instituto Socioambiental (ISA), Vanilda Donato, liderança do Quilombo Porto Velho, e Mariana Camargo Relva da Silva, nutricionista da prefeitura de Iporanga.
Os resultados do primeiro ano de implementação da Catrapovos, que abrange sete comunidades, oito escolas e 179 crianças impactadas, surpreenderam o público.
Para Vanilda Donato, ter uma educação que espelha a cultura dos pais e do território é essencial e, segundo ela, esse é um dos ganhos da Catrapovos, por possibilitar um novo olhar das crianças sobre o trabalho dos pais e ainda gera economia dentro da própria comunidade.
“Eu acho que o Catrapovos se tornou um caminho onde se encontrou território e educação, que, por muito tempo, esteve muito distante”, disse. “Se o alimento que o pai e a mãe produz é saudável, se é importante que o pai e a mãe produz, então, viver no território é importante”, completou Vanilda.
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Ainda nos preparativos, legumes plantados no território em seu tratamento final|Julio César Almeida/ISA
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Palmito do Sistema Agrícola Tradicional das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira (SATQ)|Julio César Almeida/ISA
A nutricionista Mariana da Silva levantou também a questão dos alimentos industrializados. Por questões logísticas, servir alimentos frescos que chegavam de fora da comunidade era um desafio, o que abria espaço para refeições com altas adições de corantes, aromatizantes, emulsificantes e conservantes, que facilitam o aparecimento de doenças e afasta quem consome da cultura alimentar.
Com a Catrapovos, as sete escolas nos Quilombos Nhunguara, Maria Rosa, Pilões, Piririca, Bombas, Praia Grande e Porto Velho agora conseguem refeições frescas, saudáveis e cheias de histórias. Reeducação alimentar também é resgate cultural.
A implementação da política, a primeira incidência no estado de São Paulo, teve muitos desafios. Carlos Ribeiro explicou que houve um trabalho de apresentação e convencimento das lideranças das comunidades quilombolas e, em seguida, da prefeitura de Iporanga para aderir a esse projeto. Fazer um cardápio alinhado com a produção dos agricultores, fechar a logística de modo que as entregas semanais de alimentos frescos e seguros para consumo fossem garantidas esteve entre os desafios.
“Foram várias reuniões com a prefeitura, com a Secretaria de Educação para convencer sobre a importância desse projeto para o território e também para o município. A incidência começou em 2022 e a primeira chamada pública saiu em 2024. Teve um processo burocrático, desde criar o edital, o levantamento produtivo, como os alimentos seriam entregues nas escolas, então, tivemos bons resultados porque a nutricionista também abraçou isso. A nutricionista foi uma chave fundamental para esse projeto”, ressaltou.
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Roda de conversa com Carlos Ribeiro, Vanilda Donato e Mariana Camargo Relva da Silva discutiu alimentação quilombola nas escolas|Julio César Almeida/ISA
O trabalho foi feito em parceria com os agricultores e as comunidades, entendendo processos de plantio e colheita, sazonalidade e formas tradicionais de fazer. A geração de renda é um dos resultados, principalmente para as mulheres, que são a maioria nesse projeto.
Carlos explica que foram entregues 55 produtos diversos, entre eles arroz do sistema agrícola, feijão, mandioca, farinha de mandioca, frutas e ovo caipira, tudo dentro do hábito alimentar quilombola.
A alimentação no currículo escolar, além de aproximar a criança do território, pode ser usada para ensino de outras matérias, como destacou Vanilda. “Você pode estudar a história do território, você pode estudar a geografia do território, onde que produz isso, onde que é melhor produzir, qual lua que é melhor produzir, você trabalha ciência, trabalha tecnologia, biologia, dá para trabalhar.”
Para além das matérias, fomentar a participação das mulheres, é também um ganho. Vanilda comemora: “quando a gente começou a levar as mulheres para formações, para salas de aula, dentro do movimento, dentro das reuniões, elas começaram a levar com elas os filhos. Então, a gente formou as mulheres e junto com ela formamos a criança”.
Paralelo a isso, as oficinas "Sementes agrícolas e florestais: desafios de conservação e manutenção de variedades", feita em parceria com a Embrapa, e "Manejo integrado do fogo programa Prevfogo", feito em parceria com o Ibama e com a presença da brigada, compartilharam experiências e mostraram a potência das comunidades quilombolas da região.
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A discussão "Sementes agrícolas e florestais: desafios de conservação e manutenção de variedades" compôs a programação|Julio César Almeida/ISA
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Brigadista da Prevfogo participaram da conversa sobre manejo integrado, em parceria com o Ibama|Julio César Almeida/ISA
Aurico Dias, liderança do Quilombo São Pedro e integrante do GT Roça comemorou: “nós não deixamos a nossa cultura morrer, nós queremos que ela continue. E essa continuação é dos jovens, das crianças que estão na escola, então eles têm que aprender os dois lados, tanto falar na roça como sobreviver e na escola, na técnica na escola, para aprender a ler, escrever, aprender os direitos, né? Ter uma aprendizagem melhor, mas não deixa de ser lá da roça e aprender as duas coisas.”
O segundo e último dia foi um momento de pura celebração da cultura quilombola em toda sua essência. A Praça Nossa Senhora da Guia recebeu estandes com diversidade de comidas, artes, artesanatos, sementes e mudas. Na parte mais cultural, apresentações de danças, cantos, a tradicional poesia de Leonila Pontes, do Quilombo Abobral Margem Esquerda, e o puxirão, mostraram a beleza das gerações em harmonia.
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Apresentações culturais no segundo dia de evento tiraram o público para dançar|Júlio César Almeida/ISA
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Nha Maruca do Quilombo Sapatu também teve espaço na Feira de Sementes|Julio César Almeida/ISA
Ao final, o evento reforçou que a educação, a roça, a memória e a ancestralidade caminham juntas, garantindo que o conhecimento, a resistência e a identidade quilombola floresçam em cada semente e palavra trocadas.
João Santos Rosa, do Quilombo Sapatu, se apresentou ao público|Julio César Almeida/ISA
Integrantes do Quilombo Cangume fizeram apresentação de dança|Julio César Almeida/ISA
O arroz preparado nas escolas quilombolas do Vale do Ribeira (SP) pode até parecer igual a outro qualquer. Mas guarda alguns segredos especiais que começam no plantio e garantem um sabor único. As sementes do arroz encontrado nas roças tradicionais nessa região são cultivadas e repassadas por gerações entre os quilombolas, e esse alimento ancestral – assim como outros, como feijão, mandioca, farinha – estão chegando cada dia mais ao prato dos alunos e ganhando espaço em relação a alimentos ultraprocessados.
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O arroz, assim como feijão, mandioca, farinha fazem parte da alimentação tradicional. Na foto, mutirão de colheita do grão no Vale do Ribeira|Marília Garcia Senlle/ISA
Nos próximos dias 15 e 16 de agosto, acontece em Eldorado (SP) a 16ª Feira de Troca de Sementes e Mudas Tradicionais das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira. O evento, organizado pelo Grupo de Trabalho da Roça (GT da Roça), celebra a resistência quilombola e promove a troca de sementes e mudas, e um dos temas que serão debatidos é a importância do alimento tradicional na escola.
Na sexta-feira (15/08), será realizada a oficina “Confluência de saberes: Comida quilombola na escola, a experiência da política pública Catrapovos no município de Iporanga/SP”. Na cidade, 95% da alimentação escolar vêm das roças quilombolas. Analista socioambiental do ISA, Carlos Ribeiro explica que a atividade busca informar secretarias de educação, nutricionistas, prefeitos e lideranças da região sobre a iniciativa, reforçando a importância da agricultura tradicional na escola.
A Comissão de Alimentos de Povos Tradicionais (Catrapovos), instituída pelo Ministério Público Federal (MPF), fomenta a adoção da alimentação tradicional em escolas indígenas, quilombolas e de comunidades ribeirinhas, extrativistas, caiçaras, entre outras, em todo o país.
Além disso, o grupo – composto por representantes de órgãos públicos e da sociedade civil – discute os entraves, desafios e formas de viabilizar as compras públicas da produção de comunidades indígenas e tradicionais, buscando o ajuste do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) às realidades locais.
Uma das conquistas foi a implementação da nota técnica do autoconsumo, que permite que alimentos processados e de origem animal produzidos nas comunidades sejam entregues nas escolas locais. “Isso ajuda os agricultores a entregarem seus produtos de forma mais simples e segura”, explica.
Com isso, as escolas passaram a receber alimentos como pães caseiros, beiju, farinha, frango caipira, ovos, arroz, feijão, mandioca e verduras frescas. Os produtores, na maior parte das vezes, são os familiares dos estudantes.
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Almoço do dia na escola do Quilombo Praia Grande conta com arroz, feijão, salada, legumes e carne|Fellipe Abreu/ISA
No Vale do Ribeira, a Catrapovos é composta pelo ISA, lideranças quilombolas, MPF e representantes de órgãos públicos. A iniciativa do PNAE/Catrapovos está sendo executada em Iporanga, um dos municípios da região, desde 2024. A lista de alimentos fornecidos tem cerca de 50 tipos de produtos das roças tradicionais.
Liderança do Quilombo Porto Velho, mãe, agricultora e estudante de Pedagogia, Vanilda Donato, fala da importância da Catrapovos. “A Catrapovos promove o resgate da cultura alimentar das crianças. A cultura alimentar e a forma de produzir passam a fazer parte da escola. E também acho a coisa mais linda quando as crianças estão comendo aquele alimento que vem do tio, da madrinha, do padrinho, da tia, da mãe. Então a criança passa a ter um reconhecimento do quanto o pai e a mãe também são produtores, são pessoas que contribuem com a renda e para o meio ambiente”, conta.
Vanilda Donato estará na oficina falando de sua experiência, assim como a nutricionista Maryana Camargo, da Secretaria Municipal de Educação de Iporanga, que ressalta que a oficina durante a Feira de Sementes será uma oportunidade para falar sobre o sucesso do programa.
“Em Iporanga, 95% da merenda escolar vêm da produção daqui. Eu consigo abastecer bem as escolas com alimentação de qualidade, sem ultraprocessados e industrializados. É bom para as comunidades, para a identidade e a autonomia. E é importante repassar as informações para que os municípios vizinhos possam conhecer a iniciativa”, diz.
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O SAT Quilombola do Vale do Ribeira é considerado patrimônio cultural brasileiro por cultivo com roças em meio à floresta|Fellipe Abreu/ISA
Segundo ela, o acesso ao alimento melhorou muito. “Como as comunidades tradicionais são distantes da cidade, havia um problema para a entrega. Com a Catrapovos, esse problema acabou. Alimentos como verduras, frutas, pão, bolo e queijo são entregues pela própria comunidade na escola. O cardápio funcionou certinho nessas comunidades tradicionais”, afirma.
A feira também reforça o fortalecimento da agricultura tradicional na região. O Sistema Agrícola Tradicional Quilombola do Vale do Ribeira é considerado patrimônio cultural brasileiro. A forma de cultivo, com roças em meio à floresta, produz fartura e, ao mesmo tempo, protege o ambiente. Esse sistema de saberes promove regulação climática, cuida da água e da biodiversidade.
A programação da feira inclui seminários, mesas redondas e troca de saberes, promovendo a valorização das sementes tradicionais e das práticas agroecológicas.
Família na escola
Em julho, foi realizada em Iporanga uma oficina que uniu mães de alunos e merendeiras. Durante o encontro foi promovida uma troca de conhecimentos sobre preparo de alimentos tradicionais, possibilitando a aproximação entre quem entrega o alimento – as mães agricultoras - e quem está recebendo e vai preparar os pratos. Além da troca de saberes, houve a possibilidade de se criar um vínculo de confiança.
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Oficina com mães e merendeiras promoveu troca de saberes e aproximação dos quilombos com a comunidade escolar|Programa Vale do Ribeira/ISA
“Na hora de fazer um arroz com frango caipira, cada uma fez à sua maneira. Mas o que teve de importante foi a troca de emoção. A mãe faz a forma que aprendeu com as avós. As merendeiras, do jeito que aprenderam na escola. Mas a receita acabou ganhando mais uma ligação afetiva. Quando forem fazer, vão lembrar das histórias! Foi uma forma de aproximar os quilombos da escola”, finaliza a nutricionista Maryana Camargo.
Serviço
16ª Feira de Troca de Sementes e Mudas Tradicionais das Comunidades Quilombolas
Dias 15 e 16 de agosto em Eldorado, SP
Participação gratuita
Programação:
15/8 das 9h30 à 12h30
Seminário: Educação Quilombola, transmissão de saberes e os desafios da juventude quilombola nos territórios.
Mesa redonda 1: No tempo dos Avós.
Mesa redonda 2: Os tempos de hoje e o futuro ancestral - começo, meio e começo.
15/8 das 14h30 às 16h
Momento da prosa: Confluência de saberes
Comida quilombola na escola, a experiência da política pública Catrapovos no município de Iporanga/SP.
Sementes agrícolas e florestais: desafios de conservação e manutenção de variedades.
Manejo Integrado do Fogo - Programa Prevfogo.
16/08 das 9h às 14h
16ª Feira de Trocas de Sementes e Mudas Tradicionais das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira com tradicional almoço quilombola
Local: Praça Nossa Senhora da Guia/Eldorado/SP.
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