Nos dias 14 e 15 de agosto, em Eldorado (SP), lideranças das comunidades quilombolas da região compartilham debates sobre preservação e a força da cultura viva em programação gratuita
Há sementes agrícolas que guardam séculos de história, resistência e cuidado com a terra. É com esse legado nas mãos que as comunidades quilombolas do Vale do Ribeira, no sudoeste de São Paulo, abrem suas portas para a 17ª Feira de Troca de Sementes e Mudas Tradicionais.
Nos dias 14 e 15 de agosto, a Praça Nossa Senhora da Guia, em Eldorado (SP), será palco de um grande encontro com muita comida boa, dança, cantos, conhecimento e alegria de compartilhar saberes e lutas.
Organizada pelo Grupo de Trabalho da Roça, composto por dezenove Associações das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira e parceiros, em conjunto com o Instituto Socioambiental (ISA), a feira visa fortalecer a cultura quilombola, a segurança alimentar e a proteção da agrobiodiversidade local. Em 2018, o Sistema Agrícola Tradicional (SAT) Quilombola do Vale do Ribeira, base da feira, foi reconhecido como patrimônio cultural brasileiro pelo Iphan.
Valni de França Dias, integrante do GT Roça e liderança do Quilombo São Pedro, celebra que a Feira é maior a cada ano. Para ela, é uma oportunidade de mostrar o que foi realizado desde a última edição e despertar o interesse de cada vez mais quilombolas por meio da conscientização.
“A Feira é para apresentar um trabalho que nós fazemos o ano todo com as nossas roças, com as sementes, com a nossa alimentação e também com as licenças”, explica. “E as sementes, para nós, é um patrimônio muito precioso. Por isso, temos que salvaguardar com cuidado, e contamos com representantes das comunidades e entidades parceiras nessa organização”, completa.
Para Ruan Carlos da Conceição, gerente do Sesc Registro, a Feira é uma das mais importantes expressões da relação entre cultura, território, biodiversidade e memória ancestral presentes na região.
“Para o Sesc Registro, participar desta iniciativa é reafirmar um compromisso construído ao longo dos anos ao lado das comunidades quilombolas, apoiando ações que valorizam seus saberes, modos de vida e formas de organização social”, diz. “Não atuamos apenas como parceiros, somos também aprendizes, neste convívio com as comunidades quilombolas e buscamos ampliar a visibilidade dessas narrativas e fortalecer o Sistema Agrícola Tradicional Quilombola como um patrimônio vivo, construído e preservado por gerações de agricultores e agricultoras que contribuem diretamente para a conservação da Mata Atlântica e para a manutenção da diversidade cultural do Vale do Ribeira”.
Ruan destaca o desenvolvimento conjunto de exposições, encontros, atividades formativas, ações educativas e programas culturais que aproximam diferentes públicos da riqueza desses conhecimentos.
“Acreditamos que a Feira é um espaço fundamental de intercâmbio, fortalecimento comunitário e mobilização social, capaz de conectar tradição e futuro.”
O evento é um convite aberto para todos que desejam se encantar com a riqueza das tradições afro-brasileiras e entender mais sobre os modos de vida que mantêm o maior maciço de Mata Atlântica em pé. Durante os dois dias, o público poderá vivenciar debates sobre a preservação ambiental, conhecer mais sobre a roça de coivara, coleta e beneficiamento de sementes, e fortalecer as comunidades ao saborear pratos da culinária tradicional e garantir mudas e sementes crioulas produzidas diretamente nas roças quilombolas da região.
Para Giselle Sousa, analista do Instituto Socioambiental (ISA), também parceiro histórico do evento, o compartilhamento é também sobre as pressões sofridas pelas comunidades quilombolas, como a crescente emergência climática. Ela explica que pesquisadores quilombolas também vão levar resultados sobre uma pesquisa nesse tema.
“O Instituto Socioambiental tem contribuído para o diagnóstico, com a implementação do protocolo LICCI (Indicadores Locais de Impactos das Mudanças Climáticas) junto a pesquisadores Quilombolas, que resultou em percepções de mudanças no clima nos territórios e que serão fundamentais para incidência em políticas públicas climáticas e estratégias de adaptação", diz.
A edição mais recente, a 16ª edição, realizada em agosto de 2025, reuniu cerca de 500 pessoas, entre quilombolas, indígenas, ribeirinhos e parceiros. O evento destacou a importância da roça como espaço de identidade e autonomia, promovendo a troca de mais de 300 variedades de sementes e mudas.
"A feira de troca de sementes é um movimento que viabiliza a visibilidade do modo de vida quilombola na região do Vale do Ribeira. A troca de sementes que são manejadas durante gerações conectam histórias, resistência e segurança alimentar dentro dos territórios", reforça Giselle.
Confira a programação
A sexta-feira (14/08) será dedicada ao aprendizado e à reflexão com um ciclo de seminários e começa com o café da manhã seguido de uma mística de abertura com o Seu Aurico, liderança do Quilombo São Pedro. Depois, a mesa "A Embrapa e a democratização de sementes: o resgate e o acesso às sementes crioulas", conta com a participação de Ana Paula Donato dos Santos, liderança do Quilombo São Pedro, da pesquisadora Patrícia Goulart Bustamante (Embrapa) e mediação de Letícia Ester (Eaacone).
No período da tarde, o público acompanha a apresentação do Iphan sobre salvaguarda patrimonial e um bate-papo importante sobre os impactos da contaminação por metais pesados no território, com Maira Silva, pesquisadora quilombola, doutora em Ciências na área de Geologia e Recursos Naturais.
No sábado (15/08), a festa ganha o coração da cidade. Das 9h às 14h, a praça se enche de vida com a tradicional Troca de Sementes e Mudas, feira de produtos vindos direto da roça, apresentações culturais com os Violeiros do Ivaporunduva; poesias da Tia Elvira; dança do Quilombo Cangume; puxirão Quilombo São Pedro; Nhá Maruca; Xondaro Guarani; e um imperdível almoço tradicional quilombola para encantar o paladar e celebrar a cultura viva.
Valni, que também compõe a equipe da cozinha, compartilha a alegria de participar do preparo do tradicional almoço com frutos de suas roças. “Os alimentos que a gente prepara, é a gente mesmo que planta, que colhe e é muito gratificante.”
A Feira de Troca de Sementes e Mudas Tradicionais é uma realização do GT da Roça com apoio do Instituto Socioambiental (ISA), Sesc Registro, Prefeitura de Eldorado, Prefeitura de Iporanga, Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e Bem-Te-Vi Diversidade.
Serviço
Evento: 17ª Feira de Troca de Sementes e Mudas Tradicionais das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira
Data: 14 e 15 de agosto
Local: Praça Nossa Senhora da Guia — Eldorado, SP, a 3hrs de São Paulo
Entrada: Gratuita e aberta a todos os públicos.
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