Benzedeira, artesã e referência no Sistema Agrícola Tradicional Quilombola, Dona Zulmira deixa um legado inestimável de fé, sabedoria e cura no Vale do Ribeira
O Instituto Socioambiental (ISA) lamenta com profundo pesar o falecimento de Zulmira Rosa de Oliveira, liderança do Quilombo Porto Velho, no Vale do Ribeira (SP).
Dona Zulmira, como era conhecida no quilombo e nas redondezas, foi uma cuidadora de gentes. No quilombo de Porto Velho, era uma das referências para fazer o benzimento, o chá, a garrafada e as orações quando uma criança ou qualquer outra pessoa ficava doente. Conhecia muitas ervas e rezas de cura. Também era artesã e seu canto iluminava as romarias.
Zulmira, mãe de quatro filhos, um enteado, três netos e seis bisnetos, também sempre esteve próxima à luta pelo território e, com sua família, trabalhou e cultivou a terra, sendo guardião de muitas variedades agrícolas e mestre na arte de fazer farinha.
“Ela realmente dava a vida pela luta. Só tenho a agradecer. É uma perda de história. Ela contava causo de duas horas, três horas a fio de conversa. Eu cresci nesses causos, torrando farinha junto com ela. Ela conheceu a comunidade inteira, conhecia muito. É uma perda irreparável para nossa cultura. Ela fez muito por nós. Muito mesmo”, lamenta Osvaldo dos Santos, liderança do Quilombo Porto Velho.
Seus conhecimentos ajudaram a compor o inventário de referências culturais quilombolas do Vale do Ribeira e posteriormente ao registro do Sistema Agrícola Tradicional Quilombola como patrimônio imaterial do Brasil.
Participou do grupo de lideranças quilombolas que criaram a Feira de Trocas de Sementes e Mudas Tradicionais dos Quilombos do Vale do Ribeira e participou da primeira edição em 2008.
Agradecemos seus ensinamentos e que sua sabedoria continue inspirando gerações de quilombolas e parceiros para seguir a luta dessa mulher quilombola tão inspiradora que ancestralizou.
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