Após mais de 20 anos de contato e remoção forçada, a Terra Indígena Panará foi demarcada e população voltou a crescer
Atenção: a nota e os documentos utilizados apresentam conteúdos sensíveis sobre graves violações de direitos humanos e violência contra povos indígenas.
Entre 1995 e 1997, o povo indígena Panará retornou a uma parte de seu território tradicional depois de mais de duas décadas de exílio e de ter sofrido um dos mais graves episódios de contato e remoção forçada de povos indígenas durante a ditadura civil-militar no Brasil (1964-1985).
Motivado pela abertura da Rodovia BR-163, ou Cuiabá-Santarém, o contato oficial ocorreu em 1973 e, com a transferência da população para o então Parque Indígena do Xingu em 1975, os Panará sofreram o extermínio de quase 70% de sua população por doenças epidêmicas e massacres. Uma história que só começou a ser revertida em 1995, após o retorno a seu território, no Rio Peixoto de Azevedo, entre os estados de Mato Grosso e Pará, e a demarcação da Terra Indígena Panará, em 1996.
Assista ao documentário Panará, a volta por cima dos índios gigantes:
O retorno terminou em 22 de outubro de 1997, quando os Panará contavam 178 pessoas e formaram sua primeira aldeia na TI demarcada: Nansêpotiti. Nas últimas duas décadas, a população voltou a crescer e hoje são mais de 850 pessoas, distribuídas por outras seis aldeias: Kresan, Sankuê, Nänpôôrö, Sôkarasã, Canaã e Kôtikô.
Uma história de resistência
Nos registros coloniais, diferentes grupos indígenas foram identificados pelos cronistas como Kayapó do Sul, denominação que abrangia populações de ampla territorialidade, incluindo áreas do atual interior de São Paulo. Pesquisas históricas e linguísticas demonstraram que os atuais Panará constituem a continuidade histórica direta desse mesmo povo.
A partir de meados do século XVIII, em resposta à violenta ofensiva militar colonial no Triângulo Mineiro e no "caminho de Goiás", promovida por bandeirantes para desimpedir as rotas do ouro, os Panará empreenderam um longo êxodo rumo a noroeste, atravessando o vale do Rio Teles Pires até encontrarem refúgio na floresta amazônica.
Estabelecidos tradicionalmente em uma extensa área nas bacias dos rios Peixoto de Azevedo e Iriri (norte de Mato Grosso), onde viveram em relativo isolamento por quase dois séculos, os Panará – também identificados na documentação histórica do século XX como Kreen-Akarore – viram seu território e seus modos de vida sofreram profundas transformações a partir das décadas de 1960 e 1970, quando o avanço das frentes de ocupação e a abertura da rodovia BR-163 precipitaram o traumático contato oficial de 1973.
O cerco de tratores e a poluição dos rios forçaram o povo a constantes fugas que impediram o cultivo de roças. Entre 1972 e 1973, epidemias de gripe e malária reduziram a população de 500 para 79 sobreviventes.
A foto que consta no fac-símile acima é uma das mais emblemáticas do povo Panará. O registro, do fotógrafo Pedro Martinelli, foi publicado na edição de 11 de fevereiro de 1973 do jornal O Globo. Quem demarca sua existência, em ato de resistência, é Sokrit Panará.
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Em 1975, o Estado Brasileio transferiu o povo Panará para o então Parque Indígena do Xingu (PIX), hoje conhecido como Território Indígena do Xingu (TIX). Após a traumática transferência, foram forçados a viver como estrangeiros em Ypo’o E’yi, uma aldeia, do povo Kawaiwete (Kaiabi).
Entre fevereiro e outubro de 1975, menos de um ano após a transferência, a população chegou a apenas 69 pessoas, em decorrência de dez mortes. Os Panará descreviam o Xingu como "terra ruim" e sentiam a falta da kypakjä (terra preta), solo fértil de seu território original indispensável para o cultivo de suas variedades tradicionais de amendoim e milho, elementos centrais de sua identidade cultural e alimentar.
O retorno
Em 1991, com apoio dos parceiros do Núcleo de Direitos Indígenas (NDI), os Panará sobrevoaram a região do Peixoto de Azevedo e constataram que suas terras foram desmatadas, transformando-se em pastos e áreas de garimpo. Voando mais para o norte, acabaram avistando uma área de floresta intacta e decidiram que iriam voltar.
Em 1992, o povo Panará começou a construir uma aldeia e a fazer as primeiras roças para a mudança do Parque Indígena do Xingu, que ocorreu entre os anos de 1995 e 1997. Em 1997, fundaram a aldeia Nänsêpotiti, reconhecida como o centro (pôri) do território, restaurando sua cosmologia espacial concêntrica, veja nas fotos abaixo.
Hoje, os Panará habitam a Terra Indígena Panará, um território de aproximadamente 495 mil hectares, reconhecido na década de 1990 e situado na divisa entre os estados de Mato Grosso e Pará. Localizada em pleno bioma amazônico, nas proximidades da Serra do Cachimbo, a terra tradicional abrange as cabeceiras e o curso alto do rio Iriri (denominado Nänsêpotiti na língua indígena), pertencente à bacia hidrográfica do Xingu.
A lista de Teseya Panará
Teseya Panará, um dos anciãos Panará e sobreviventes desse grave episódio, fez um relato impactante para o antropólogo Stephan Schwartzman sobre sua versão da história do contato oficial:
“Vou começar a contar desde o início. Primeiro, não tinha branco. Eu era pequeno quando eles chegaram, primeiro, na aldeia Yopuyüpaw. Chegou um avião e jogou coisas lá de cima. A minha mãe ainda me carregava nas costas. Não tinha branco. O pessoal viu o avião. Eu não vi o branco naquela época, não sabia de branco lá na terra da gente, no meu mato”, recordou.
“Todo mundo ficou deitado, prostrado. Os outros foram para o mato, um foi por aqui, outro acolá. Morreu, morreu, morreu, ficou todo mundo doente. ‘O que é que está acontecendo conosco? Talvez seja por causa do branco’, falaram. Todo mundo morreu, lá.”
O relato de Teseya pode ser lido na íntegra, entre as páginas 101 e 106 do livro "Panará: a volta dos índios gigantes"
Em novembro de 1994, Teseya Panará e as mulheres mais velhas, Sàrkyarasà, Kyütakriti e Swakie, reconstituíram, um por um, a lista de 176 pessoas panará mortas por doenças epidêmicas entre 1973 e 1975, na região do Peixoto de Azevedo
Sem a possibilidade quantificar com precisão, os parentes mortos tiveram a idade estimada. A classificação foi feita por classes de faixa etária tradicionais ou por comparação com pessoas conhecidas. Na lista, o símbolo "35 < " quer dizer "acima de 35 anos" e representa uma estimativa da idade das classes de idade dos velhos (taputun , em panará) e das velhas (twatun).
A lista organizada por Teseya pode ser vista na íntegra, entre as páginas 107 e 111 do livro "Panará: a volta dos índios gigantes"
A reparação
Em 1994, os Panará, com o apoio do Núcleo de Direitos Indígenas (NDI) moveram uma ação judicial contra a União e a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), reivindicando reparação pelos danos decorrentes do contato forçado, das mortes e da transferência compulsória de seu território tradicional para o Parque Indígena do Xingu, na década de 1970. Em 1997, a Justiça Federal proferiu sentença favorável à comunidade, condenando os réus ao pagamento de indenização por danos morais.
Continuada pelo ISA, essa ação foi pioneira no Brasil ao buscar judicialmente a responsabilização do Estado por reposição territorial e perdas e danos causados a um povo indígena. A decisão favorável foi proferida em 1997, reconhecendo o direito à indenização e, no ano 2000, uma decisão sem precedentes do Tribunal Regional da 3ª Região (TRF-3) condenou a União e a Funai ao pagamento de cerca de R$ 1 milhão ao povo Panará – montante que foi pago em 2003 e aplicado em um fundo de apoio, administrado pela Associação Iakiô.
O veredito foi em função dos danos materiais e morais provocados pelo trágico contato promovido a partir de fevereiro de 1973, pela construção da BR-163. Paralelamente, a luta pela recuperação do território tradicional panará levou à demarcação da Terra Indígena Panará, em 1996, assegurando parte das terras das quais haviam sido expulsos na década de 1970.
O processo foi acompanhado por cinco representantes do povo Panará, incluindo Teseya, citado acima. A ação indenizatória, por sua vez, foi movida e acompanhada pelos advogados do Instituto Socioambiental (ISA).
Foi a primeira vez que o Judiciário reconheceu a responsabilidade estatal pelo desastre demográfico indígena, inspirando outras movimentações de reparação e justiça para povos indígenas.
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Apesar da vitória jurídica do povo Panará, a área que corresponde atualmente à Terra Indígena Panará, lugar onde vivem até hoje, é muito menor se comparada com seu território tradicional. Neste cenário, a recuperação demográfica dos Panará se traduz em dificuldades em razão do confinamento populacional em uma área cada vez mais povoada.
A comunidade enfrenta ainda pressões no entorno da Terra Indígena, como ameaça de invasões e garimpos, e os efeitos das mudanças climáticas em suas roças, com alterações nos rios, ciclo de chuvas, controle do fogo, entre outras, que comprometem diretamente a produção de alimentos e a segurança física e alimentar.
O “Kit Didático: Como reparar o irreparável? Povos indígenas e o retorno a territórios expropriados” elaborado por pesquisadores do ISA apresenta fontes históricas e exemplos de atuação para serem trabalhados com estudantes de todo o Brasil. Leve a história do povo Panará para as salas de aula!
Pessoas educadoras, venham conhecer a série Hoje na História Socioambiental, que reúne fontes e documentos em kits didáticos com propostas de reflexão para apoiar discussões e atividades sobre temáticas socioambientais em sala de aula!
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Referências bibliográficas
ARAÚJO LEITÃO, Ana Valéria Nascimento (Org.). PANARÁ: Advogado responsável pela condução do caso: Sérgio Leitão. In: ARAÚJO LEITÃO, Ana Valéria Nascimento (Org.). A defesa dos direitos indígenas no judiciário: ações propostas pelo Núcleo de Direitos Indígenas. São Paulo: Instituto Socioambiental, 1995, p. 284 - 332.
ARNT, Ricardo. Índios gigantes: uma história com um grande final feliz. Super Interessante, São Paulo : Abril, v. 10, n. 12, p. 36-45, dez. 1996.
_______________. PINTO, Lúcio Flávio. PINTO Raimundo. Panará: volta dos índios gigantes. São Paulo : Instituto Socioambiental, 1998.
INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL (ISA). Panará. Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil. Disponível em: <https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Panar%C3%A1>. Acesso em: 12 out. 2026.
SCHWARTZMAN, Stephan. Laudo etno-histórico sobre "Os Panará do Peixoto de Azevedo e cabeceiras do Iriri : história, contato e transferência ao Parque do Xingu". s.l. : s.ed., 1992
**A série Hoje na História Socioambiental apresenta a riqueza de informações do Acervo do ISA que conta com mais de 250 mil itens catalogados voltados para a temática socioambiental como publicações, livros, teses e dissertações, mapas, notícias, materiais audiovisuais, entre outros. Hoje na História Socioambiental é um convite a reler o Brasil com mais amplitude, sensibilidade e justiça, valorizando a memória e documentação dos diversos povos.
Esta publicação conta com o apoio do Fundo Amazônia e é um produto do projeto "Defesa e Promoção dos Direitos Indígenas no Brasil: Construir Capacidades e Engajar Pessoas por um Futuro mais Justo", realizado pelo Instituto Socioambiental (ISA), com o financiamento da União Europeia.
Este material tem conteúdo de responsabilidade exclusiva da instituição realizadora e não reflete a posição da União Europeia.
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