A comitiva, formada por 11 lideranças, conecta justiça climática às pautas racial e de gênero a partir do manifesto 'Vozes Quilombolas: Mulheres em Defesa do Clima'
A Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) chega à 31ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP31), realizada de 9 a 20 de novembro de 2026 no Expo Center em Antalya, na Turquia, com uma marca política histórica: a sua primeira delegação internacional constituída inteiramente por mulheres quilombolas. A mobilização consolida uma guinada estratégica no posicionamento do movimento quilombola brasileiro nos espaços multilaterais, transferindo a liderança direta dos debates e das negociações climáticas para os corpos que estão na linha de frente da proteção dos biomas.
A atuação das delegadas em Antalya parte da premissa de que a justiça climática é indissociável da justiça de gênero e racial. Para embasar tecnicamente a incidência política nos grupos de trabalho e articular compromissos com representações internacionais, a comitiva utiliza como um dos principais instrumentos o livro e o manifesto "Vozes Quilombolas: Mulheres em Defesa do Clima".
Construída coletivamente pelo Coletivo de Mulheres da Conaq com articulação de lideranças, a publicação relaciona a conservação da biodiversidade ao conceito de corpo-território, demonstrando que as mulheres são as primeiras atingidas pelos eventos climáticos extremos e, simultaneamente, as detentoras das tecnologias ancestrais de convivência e manejo sustentável necessárias para conter o aquecimento global.
“A presença de mulheres quilombolas na delegação fortalece uma mensagem: nossas comunidades têm propostas e precisam ser reconhecidas como parte das negociações.”
Da denúncia pioneira ao avanço regional
A chegada a Antalya representa o amadurecimento de cinco anos contínuos de incidência internacional estruturada da Conaq nas COPs. Esse percurso começou em 2021, na COP26, quando o movimento negro brasileiro e as lideranças quilombolas integraram, de forma inédita, uma delegação oficial organizada pela Coalizão Negra por Direitos para cobrar que o debate global não ignorasse quem de fato protege as florestas brasileiras. No ano seguinte, durante a COP27 no Egito, a Conaq consolidou a sua própria delegação institucional, pautando o fundo de Perdas e Danos e cobrando o repasse direto de recursos climáticos aos territórios tradicionais.
Esse aprendizado diplomático se expandiu na COP28, em Dubai, quando a articulação ultrapassou as fronteiras nacionais e estruturou ações conjuntas com a Articulação Intercontinental dos Povos Afrodescendentes da América Latina e do Caribe (Citafro). Naquele momento, as organizações passaram a atuar de forma combinada para visibilizar as lutas de comunidades tradicionais de toda a região, inclusive denunciando a violência letal contra defensoras da terra e as lacunas nos mecanismos estatais de salvaguarda.
Posicionamento político reivindica justiça climática e financiamento direto
Durante a Convenção de Partes a Conaq apresentará sua Carta de Posicionamento Político, reafirmando que não existe justiça climática sem justiça territorial, racial e histórica. O documento destaca o papel estratégico dos povos quilombolas na conservação da biodiversidade e no enfrentamento das mudanças climáticas, reivindicando a garantia dos direitos territoriais, o reconhecimento dos conhecimentos ancestrais e a participação efetiva nas decisões globais.
Entre as principais reivindicações estão o acesso direto aos mecanismos internacionais de financiamento climático, a redução das barreiras burocráticas e a inclusão dos povos afrodescendentes na governança dos fundos ambientais. Nesse contexto, o movimento destaca a construção do Fundo Nacional de Gestão Territorial e Ambiental Quilombola (FUNGTAQ), instrumento voltado ao fortalecimento da autonomia, da gestão territorial e do financiamento de iniciativas conduzidas pelas próprias comunidades. A organização também defende a implementação da Contribuição Nacionalmente Determinada Quilombola (NDC Quilombola).
A carta enfatiza ainda o protagonismo das mulheres quilombolas na proteção dos territórios e na construção de soluções climáticas, reivindicando sua participação plena nos espaços de negociação, com poder efetivo de decisão e acesso equitativo aos recursos. Ao completar 30 anos de organização nacional, a Conaq reforça seu chamado à comunidade internacional para que os compromissos climáticos sejam transformados em ações concretas, assegurando que os povos responsáveis pela proteção dos territórios estejam no centro das decisões sobre o futuro do planeta.
O salto estratégico rumo às mesas de negociação
Após a COP29 em Baku, no Azerbaijão (marcada pelo travamento nas metas financeiras globais e pela escassez de avanços para os povos tradicionais), a Conaq redirecionou sua atuação para construir estratégias propositivas próprias. O divisor de águas ocorreu nos debates em torno da COP30, em Belém, momento em que o movimento intensificou a pressão política prévia, mobilizou comunicadores comunitários e combateu a invisibilidade dos termos "afrodescendentes" e "quilombolas" em posicionamentos oficiais, exigindo a demarcação territorial como política climática obrigatória.
Ao assumir os espaços de debate na COP31 com uma bancada inteiramente feminina, a Conaq afirma que as mulheres quilombolas deixaram de ser apenas relatoras de diagnósticos para exercerem o papel de negociadoras ativas da governança ambiental global. Como avalia a Selma Dealdina:
“A participação quilombola nas decisões climáticas é fundamental porque não existe justiça climática sem justiça territorial: na COP31, a Conaq levará a defesa da titulação dos territórios, as vozes femininas quilombolas frente à defesa do clima, da proteção dos biomas, do reconhecimento dos saberes ancestrais e da garantia de que os povos quilombolas sejam protagonistas na construção das políticas climáticas, e não apenas afetados por elas.”
A presença em solo turco exige a incorporação de preservação territorial nos acordos de transição ecológica, o financiamento climático direto a fundos geridos por comunidades tradicionais e o reconhecimento dos saberes de parteiras, agricultoras e extrativistas como patrimônio essencial para a sobrevivência do planeta.
Conheça a delegação
Maria Isabel Cabral da Silva (Bel Cabral) é mulher quilombola professora e formadora de professores, pesquisadora da Aliança Científica Antirracista e doutoranda em Ciências Ambientais pela UFPR, é coordenadora executiva nacional da Conaq e integra os Coletivos Nacionais de Educação Escolar Quilombola e de Mulheres Quilombolas. Atua na defesa dos territórios, da educação, dos direitos quilombolas e na agenda de justiça climática, articulando saberes, incidência política e participação quilombola em diferentes espaços.
Selma Dealdina Mbaye é quilombola, ativista, articuladora política do Coletivo de Mulheres da Conaq, presidente do Conselho Fundo CASA Socioambiental, conselheira da Anistia Internacional, COSPE, Amazônia de Pé, Centro Brasileiro de Justiça Climática e Inumeráveis e organizadora do Livro: Mulheres Quilombolas Territórios de Existências Negras Femininas.
Edna Paixão é liderança quilombola da comunidade Sítio Boa Vista, em Afrânio (PE), com uma trajetória marcada pela defesa dos direitos humanos, da igualdade racial e do desenvolvimento sustentável. Integra a coordenação da CEAQ-PE e os coletivos nacionais de Mulher, Saúde e Educação da Conaq, além de atuar como liderança nacional do The Climate Reality Project, onde une a ativismo pela justiça climática à valorização dos saberes ancestrais. Com formação em Pedagogia, Serviços Públicos Agente de Educação Popular e Educação para as Relações Étnico-Raciais, atua diretamente no fortalecimento dos territórios tradicionais e na Educação Escolar Quilombola como formadora do Programa Criança Alfabetizada (PCA) nos anos iniciais.
Alba Batista Nascimento é agricultora familiar, liderança quilombola do estado do Espírito Santo, presidenta da Associação de Agricultores Familiares Quilombolas da Comunidade Quilombola Dilô Barbosa. Compõe o Coletivo de Mulheres da Conaq, a Coordenação estadual Zacimba Gaba, o Conselho de Cultura Municipal de São Mateus(ES) e atua junto ao Fórum das Comunidades Quilombolas de São Mateus e da a Comissão Quilombola de São Mateus(ES) e Conceição da Barra(ES).
Kátia dos Santos Penha é liderança quilombola do Espírito Santo, formada em Gestão Ambiental e Educação do Campo pela UFES. Integra a coordenação nacional da Conaq e é diretora executiva de projetos da Associação Negra Anastácia. Atua na defesa dos territórios quilombolas, da justiça socioambiental e da reparação histórica. É coordenadora política da Coalizão Internacional de Territórios Afrodescendentes da América Latina e Caribe - CITAFRO, que reúne 16 países. Participou das COP26, COP27, COP28, COP30 e da COP16 da Biodiversidade. Integra a WIGSA, rede de mulheres do Sul Global em defesa do clima, fortalecendo a incidência quilombola em espaços internacionais.
Maryellen Crisóstomo é jornalista e bacharelanda em Direito, possui trajetória marcada pelo ativismo antirracista e pela defesa intransigente dos direitos humanos e socioambientais é comunicadora e quilombola do território Baião. Coordenadora da Coeqto, membra do Coletivo de Mulheres Quilombolas da Conaq e Especialista em Justiça Econômica e Direito das Mulheres na ActionAid Brasil. Alia sua formação em Jornalismo à atuação de base e à incidência internacional, somando colaboração estratégica como conselheira do Greenpeace Brasil e associada ao Intervozes- Coletivo Brasil de Comunicação Social.
Nathalia Purificação é ativista negra, comunicóloga e jornalista, filha da luta por justiça social e natural de Bom Jesus da Lapa - BA, região do território Velho Chico. Coordenadora de Comunicação da Conaq, co-coordenadora e apresentadora da Rádio Nacional dos Povos, professora convidada do Mestrado em Sustentabilidade junto a Povos e Territórios Tradicionais (MESPT/UNB).
Laura Ferreira da Silva é quilombola da Comunidade Ribeirão da Mutuca, em Nossa Senhora do Livramento (MT). Pedagoga, bacharela em Direito, mestra em Estudos de Cultura Contemporânea e doutoranda em Saúde Coletiva pela UFMT. Integra a Coordenação Executiva Nacional da Conaq, coordena a Conaq-MT e preside a ACORQUIRIM. É conselheira titular do Comitê Gestor da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental Quilombola (2025–2027). Coordena o projeto de Apoio à Bioeconomia Quilombola e ao Georreferenciamento de Territórios na Amazônia Legal, realizado pela Conaq com apoio do BID. É proponente de iniciativa junto à FAO, do livro “As Mãos Benditas de Justina” e idealizadora da Festa da Banana Quilombola. Atua na defesa dos territórios e saberes ancestrais.
Maria Aparecida Ribeiro de Sousa (Cida Sousa), mulher quilombola do Quilombo Povoado do Prata (São Félix - Jalapão/Cerrado) e graduanda em Pedagogia pela Universidade Federal do Tocantins (UFT).Atualmente, atua como Coordenadora Executiva da Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas (COEQTO), Coordenadora Nacional da Conaq e Coordenadora do Coletivo de Mulheres da Conaq. Também preside a Cooperativa Central do Cerrado, onde trabalha diretamente com associações e cooperativas dos biomas Cerrado, Caatinga e Amazônia, focando na produção sustentável a partir da sociobiodiversidade, na defesa dos territórios, na justiça climática e na garantia dos direitos das mulheres quilombolas.
Maria Rosalina dos Santos é quilombola, agricultora, coordenadora executiva nacional da Conaq e membro do Coletivo Nacional de Mulheres Quilombolas, que luta no combate a violência contra a mulher e por igualdade de gênero. É também educadora popular e defensora dos direitos quilombolas e inclusão social. Atua na luta pela Regularização Fundiária e titulação coletiva dos territórios quilombolas, e na defesa do meio ambiente e justiça climática.
Rejane Maria de Oliveira, é educadora socioambiental, coordenadora executiva da Conaq, escritora, articuladora política e estudante de antropologia. Atua na promoção da justiça socioambiental, dos direitos das comunidades tradicionais e no fortalecimento das mulheres por meio de ações de acolhimento, autocuidado e enfrentamento à violência. Tem experiência em projetos socioambientais, culturais e comunitários, contribuindo para a construção de políticas públicas, educação ambiental, mobilização social e desenvolvimento comunitário. Sua trajetória é guiada pelo compromisso com os direitos humanos, a sustentabilidade e a valorização dos saberes tradicionais.
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