Reconhecido desde 2018, o Sítio Ramsar do Rio Negro é o maior de águas pretas do mundo, com cerca de 12 milhões de hectares, e foi pauta na COP15 sobre Espécies Migratórias
As zonas úmidas da Amazônia estiveram no centro das discussões sobre estratégias para a conservação de espécies migratórias no Brasil. Durante dois debates realizados na 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias, especialistas reforçaram que proteger esses territórios exige fortalecer a governança local e reconhecer o papel das populações que vivem nessas áreas.
Realizados nos dias 26 e 27 de março, os encontros abordaram desde a governança territorial até os desafios enfrentados por espécies migratórias em paisagens aquáticas cada vez mais pressionadas. Em comum, as discussões apontaram que a conservação depende da integridade dos ecossistemas e da participação ativa das comunidades.
O primeiro painel, realizado no Espaço Brasil (Zona Azul), trouxe experiências de Sítios Regionais da Amazônia, os sítios Ramsar no Rio Negro, no Juruá e no estuário da foz do Amazonas, evidenciando que a governança territorial é um dos pilares da conservação.
Nessas experiências, o monitoramento comunitário tem sido fundamental não apenas para registrar mudanças ambientais, mas também para fortalecer a autonomia dos territórios.
As falas também evidenciaram que as mudanças nos padrões das espécies migratórias já são perceptíveis localmente. Alterações no comportamento de peixes e aves têm sido observadas com maior frequência, reforçando a urgência de ações integradas.
Neste contexto, o Agente Indígena de Manejo Ambiental (AIMA) Tiago Pacheco apresentou pesquisa intercultural na região do Rio Negro sobre aves migratórias nos ciclos anuais, onde se tem observado a redução no número de avistamentos na região, que pode estar relacionada às mudanças climáticas.
Participaram da mesa Renata Alves, ecóloga e analista de geoprocessamento do Instituto Socioambiental (ISA) e membro do Comitê Nacional de Zonas Úmidas (CNZU), Gabriela Soeiro, do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Sociobiodiversidade Associada a Povos e Comunidades Tradicionais (CNPT/ICMBio), Selma Ribeiro, do Centro Nacional de Pesquisa em Biodiversidade e Restauração Ecológica (CBC/ICMBio), Tiago Pacheco, AIMA do Rio Negro, e Guillermo Estupiñán, da Wildlife Conservation Society (WCS)
Leia também
COP15: conhecimento indígena revela rotas e alterações na migração de aves no Rio Negro
Reconhecido desde 2018, o Sítio Ramsar do Rio Negro é a maior zona úmida de águas pretas de importância internacional do mundo, com cerca de 12 milhões de hectares. A área abrange um mosaico de oito terras indígenas e unidades de conservação municipal, estadual e federal, localizados no noroeste amazônico, formando um dos maiores contínuos de florestas e rios preservados do planeta. A alta diversidade biológica da região inclui animais em extinção como o peixe-boi-da-Amazônia e o boto-cor-de-rosa.
Segundo Renata Alves, o processo de governança do sítio está diretamente relacionado à articulação com os Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs) das terras indígenas que compõem esse território. Esses instrumentos, elaborados pelos povos indígenas, orientam o uso, a proteção e o manejo dos recursos naturais.
“A governança neste sítio não começa do zero, ela se baseia em instrumentos que já existem e que expressam como os povos querem cuidar dos seus territórios”, destaca.
Conectividade ecológica
No segundo painel, que discutiu paisagens aquáticas e suas vulnerabilidades e oportunidades, realizado pelo ISA, Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), especialistas destacaram que espécies migratórias dependem de grandes áreas conectadas para sobreviver.
A fragmentação de habitats, causada por desmatamento, mudanças hidrológicas e grandes obras de infraestrutura, foi apontada como uma das principais ameaças à biodiversidade. “As espécies migratórias precisam de continuidade. Quando você rompe essa conectividade, você compromete todo o ciclo de vida dessas espécies”, alerta Jochen Schongart, pesquisador do INPA.
Ao mesmo tempo, os Sítios Ramsar foram apresentados como uma oportunidade estratégica para integrar conservação, ciência e políticas públicas, ampliando a visibilidade internacional dessas áreas e organizando esforços de conservação em larga escala.
Nesse contexto, especialistas também chamaram atenção para o papel das florestas públicas não destinadas na Amazônia, que somam cerca de 50 milhões de hectares e ainda aguardam definição fundiária por parte dos governos. Sem destinação, essas áreas permanecem altamente vulneráveis à grilagem e ao desmatamento.
“A destinação dessas florestas é uma agenda urgente. É uma oportunidade concreta de reduzir a pressão sobre a Amazônia e, ao mesmo tempo, garantir conectividade ecológica em larga escala”, destacou Carlos Durigan, pesquisador do Ipam.
Segundo ele, a criação de unidades de conservação, o reconhecimento de territórios tradicionais, como indígenas e quilombolas, e outras formas de uso sustentável podem transformar essas áreas em corredores ecológicos estratégicos, fundamentais para a manutenção dos fluxos das espécies migratórias e para a proteção das zonas úmidas no país.
Os Sítios Ramsar são áreas úmidas reconhecidas internacionalmente por sua importância para a conservação da biodiversidade. O título é concedido no âmbito da Convenção de Ramsar, um acordo global criado em 1971 para promover a proteção e o uso sustentável desses ecossistemas.
As zonas úmidas incluem ambientes como rios, lagos, áreas alagadas, manguezais e florestas inundáveis, que são ecossistemas fundamentais para a conservação da água, do clima e da vida silvestre.
Carregando