“Arte Yanomami” apresenta saberes dos cestos tradicionais, fortalecendo mulheres, cultura, arte, cosmovisão e territórios
O trançado da cestaria Yanomami tem início com caminhadas na terra-floresta, a urihi a, para a coleta dos cipós e do Përisi, uma espécie de fungo retirado cuidadosamente pelas mulheres. Depois de prontas, as peças únicas guardam uma herança do saber ancestral passado entre as gerações. E podem chegar à sua casa!

Cultura, arte e cosmovisão Yanomami presentes nas cestarias são apresentadas no Catálogo Arte Yanomami, uma produção realizada em parceria pela Hutukara Associação Yanomami e pelo Instituto Socioambiental (ISA) e que teve lançamento nesta quinta-feira (28/08).
No catálogo, estão descritos os nomes dos cestos, seus formatos e dimensões, o que torna mais ágil o diálogo para a comercialização justa e ética.
Com o novo guia, é possível saber, por exemplo, que o Xotehe é um cesto raso trançado pelas mulheres Yanomami utilizando cipó titica com fios de fungo negro (o Përisi) ou tiras de raízes pretas da palmeira paxiubinha. Quando o trançado tem ponto fechado, é utilizado para acondicionar alimentos. Mas se a trama é aberta, tradicionalmente é usado na pesca.


E é possível entender que alguns dos cestos, os mais alongados, utilizados para viagens na mata ou para guardar alimentos, são trançados apenas por mulheres. Um saber repassado de geração para geração. Outros, que servem como utensílios de cozinha, em formato tubular ou de peneira, são produzidos por homens do grupo Sanöma.
A comercialização das peças de arte yanomami é uma forma de valorizar o trabalho desenvolvido principalmente pelas mulheres desse povo, além de fortalecer o território, a cultura e os saberes ancestrais Yanomami.
Para os Yanomami, a cestaria é usada no dia a dia. Mas a arte indígena pode receber outros usos, como fruteiras, revisteiros e adornos nas paredes.
No trançado aparecem o cipó – cru ou pintado de vermelho com urucum – e o Përisi. Na cosmologia Yanomami, os fios do Përisi são os pelos pubianos do espírito da floresta. Por isso, as mulheres fazem a coleta com todo o cuidado e, ainda, contam com o diálogo de xamãs para a retirada.

Mas o fio negro usado na trama da cestaria é também uma nova espécie de fungo (Marasmius yanomami) descoberta através de uma pesquisa intercultural envolvendo pesquisadoras indígenas e não indígenas e que está relatada no livro Përɨsɨ: o fungo que as mulheres yanomami usam na cestaria, uma publicação da Associação de Mulheres Yanomami Kumirãyõma e ISA. Contado pelas mulheres, o livro explica, em Yanomami e português, como o fungo é coletado e usado.
Os cestos Yanomami são produzidos nas comunidades, no centro da floresta Amazônica. Após confeccionados, são encaminhados pelas lideranças comunitárias para a Hutukara Associação Yanomami, que se responsabiliza pelo armazenamento, cuidado e venda das peças.
Todo o recurso arrecadado com as vendas das cestarias é revertido nas compras de matihipë - objetos diversos - solicitados pelas comunidades.
A Hutukara Associação Yanomami (HAY) é uma organização sem fins lucrativos fundada em 2004 pelo xamã e líder político Davi Kopenawa Yanomami. Sua missão é representar os povos Yanomami e Ye’kwana que vivem na Terra Indígena Yanomami, nos estados brasileiros de Roraima e Amazonas, sobretudo consolidando o protagonismo indígena para defender os direitos territoriais e atuando na mediação e no acompanhamento da implementação de políticas públicas que contribuam para o bem viver das comunidades.
Em parceria com o ISA, a Hutukara desenvolve projetos que fortalecem as economias da sociobiodiversidade, a cultura e os saberes por meio de produtos da floresta, como cestarias, cogumelos, castanhas e cacau. Esses projetos envolvem 78 comunidades e cerca de 900 indígenas.
Conheça alguns cestos:
Wiia é um cesto alongado de ponto fechado e com fundo arredondado. É trançado por mulheres Yanomami e feito de cipó titica com detalhes de fios de fungo negro (o Përisi) ou com pinturas de tintas naturais. Wiia é o recipiente onde as mulheres levam os produtos da coleta e da roça e carregam a lenha para cozinhar e aquecer a casa coletiva durante a noite.
Xotehe é um cesto raso trançado de cipó titica com fios de fungo negro (o Përisi) ou tiras de raízes pretas da palmeira paxiubinha. Feito pelas mulheres Yanomami, pode ter o trançado com ponto fechado, utilizado para acondicionar alimentos, ou de trama de aberta, tradicionalmente utilizado na pesca.
Tipiti é um cesto tubular, uma espécie de prensa, confeccionado por homens Yanomami do grupo Sanöma. É trançado com fibras de arumã, de cor crua, e fibras tingidas com tintas naturais. É utilizado pelas mulheres para espremer o suco venenoso da mandioca brava. O líquido pode ser aproveitado para fazer o tucupi. Já a massa que resulta da extração, após a secagem é transformada em farinha ou beiju.

Sotea ose é um cesto de bordas baixas, uma espécie de peneira, confeccionado por homens Yanomami do grupo Sanöma. É trançado com fibras de arumã, em cor crua, e fibras tingidas com tintas naturais. Utensílio de cozinha, serve como travessa para apoiar frutas e outros alimentos, recolher a massa de mandioca, guardar e servir o beiju, que é comido coletivamente em família.
Para adquirir a sua cestaria Yanomami, entre em contato por meio dos seguintes canais de venda:
E-mail: produtosdafloresta@hutukarayanomami.org
Telefone: (95) 99114 4960
Acesse o Catálogo Arte Yanomami aqui
Ficha técnica
Catálogo Arte Yanomami
REFERÊNCIA DO CONTEÚDO
Hutukara Associação Yanomami e Instituto Socioambiental
ORGANIZAÇÃO
Hutukara Associação Yanomami
PREPARAÇÃO DE TEXTO E ORGANIZAÇÃO
Emmily Melo | Comunicação Hutukara Associação Yanomami
María Patricia Molina Contreras | Assessora Produtos da Floresta
Hutukara Associação Yanomami
PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO
Will Cavalcante (willilogia@gmail.com)
Karla Machado (karladelimachado@gmail.com)
CAPA E ILUSTRAÇÕES
Will Cavalcante (willilogia@gmail.com)
FOTOGRAFIA DE CAPA
Roberto Almeida/ISA
IMAGENS FOTOGRÁFICAS
Matthieu Jean Marie Lena | ISA
Juliana Carla Silva de Paula | ISA
Rogério Assis | ISA
Roberto Almeida | ISA