Desmatamento por atividade ilegal teve pico em 2022 com aproximadamente 1.800 hectares desmatados, enquanto em 2025 foram detectados novos 45,2 hectares de desmatamento
O desmatamento causado pelo garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami apresentou expressiva redução nos últimos três anos, após expansão nos anos de 2021 e 2022. É isto que aponta o novo relatório do Instituto Socioambiental (ISA) lançado nesta sexta-feira (22/05), em parceria com o programa MAAP (Monitoring of the Andes Amazon Program), iniciativa da Amazon Conservation Association.
Leia o relatório completo aqui.
Segundo o documento, o mapeamento sugere que os invasores têm alterado a sua forma de atuar, em resposta ao aumento da fiscalização, operando de maneira mais descentralizada e se deslocando para zonas mais próximas à fronteira com a Venezuela. Estes dados são corroborados por denúncias registradas no Sistema de Alertas da Terra Indígena Yanomami, que evidenciam a persistência de invasões aéreas e fluviais.
Além do documento, o ISA realizou um sobrevoo em 23 de abril de 2026 nas regiões de Ericó, Palimiu, Waikás, Parafuri e Palimiu que registrou imagens comprovando o monitoramento feito por satélite das áreas desmatadas.
Conforme o relatório, a TI Yanomami acumula 5.564 hectares de área degradada pelo garimpo. O material elaborado pelo ISA e Amazon Conservation Association contou também com a parceria da Hutukara Associação Yanomami (HAY) e da Associação Wanasseduume Ye’kwana (Seduume).
Em 2025, houve o registro de 45,2 novos hectares desmatados em razão do garimpo ilegal no território, quase metade dos 84 hectares registrados em 2024. Conforme o documento, este dado é um alerta de cautela, pois apesar da desaceleração da exploração mineral, a abertura de novas áreas mostra que a atividade ilegal não foi totalmente neutralizada.
Em 2023, quando o Governo Federal instaurou uma Emergência de Saúde Pública de Importância Nacional (Espin) no território, houve o registro de 330 hectares de expansão - uma redução de 81,6% em relação ao ano anterior.
O ano de 2020 teve 400 hectares desmatados e em 2021 subiu acima de 1.000 hectares. Já 2022, teve o maior registro de crescimento com aproximadamente 1.800 hectares desmatados.
Este monitoramento é realizado mensalmente a partir da interpretação visual de imagens de satélites por especialistas em geoprocessamento. A partir destas imagens, são desenhados os polígonos de degradação. Todos os meses, as regiões impactadas são revisitadas para refinar o mapeamento e checar possíveis equívocos.
Novas áreas impactadas
Em 2025, o mapeamento encontrou 121 polígonos de novas áreas impactadas pelo garimpo ilegal. Sendo 90% destes polígonos com um hectare ou menos. Os dois polígonos de maior área - cerca de quatro hectares em ambos - estão localizados na região do Parima e Surucucus, mais especificamente próximo à pista do Feijão Queimado, em Roraima.
O documento aponta, ainda, que os garimpeiros ilegais têm dispersado a atividade, evitando áreas de grande concentração como ocorria antes do início das operações do governo federal. Núcleos antes explorados à exaustão, como Alto Catrimani, Médio Uraricoera e Homoxi, aparentam estar relativamente neutralizados.
Novas táticas
Para driblar a fiscalização, os invasores insistem na tática de se mover para locais mais próximos da fronteira com a Venezuela. Neste sentido, o relatório identificou cicatrizes em Parafuri-Parima, Hokomawë e Cabeceira do Aracaçá.
Em 2025, o Sistema de Alertas da Terra Indígena Yanomami, idealizado e utilizado pelas organizações da Terra Indígena Yanomami, registrou pelo menos cinco alertas referentes à movimentação de aeronaves clandestinas na região de Auaris. Na maioria dos casos, as aeronaves voavam no sentido de Hokomawë, em direção à pista do Gaúcho Animal, situada na boca do Rio Auaris, ou em direção à pista situada na cabeceira do Rio Aracaçá.
Para o geógrafo do ISA, Estêvão Senra, com o valor do ouro atingindo patamares históricos no mercado internacional, a pressão do garimpo é constante.
“Operações de desintrusão são o primeiro passo indispensável, mas sozinhas elas não resolvem o problema estrutural. Sem estratégias de proteção territorial de médio e longo prazo, que envolvam vigilância permanente e melhorias na regulação da cadeia do ouro, há um grande risco de observarmos uma nova onda de invasão num futuro próximo."
O mesmo comportamento foi observado em outras áreas da Amazônia onde houve operações de desintrusão e fiscalização, como a região de Madre de Dios, no Peru, que chegou a destruir mais de 100 dragas de mineração nos últimos anos. Agora, dados de satélite mostram o retorno de incursões em áreas protegidas, como a Reserva Nacional de Tambopata, em relatório lançado recentemente também pelo MAAP.
Matt Finer, diretor do programa MAAP na Amazon Conservation, reforça que os dados mostram que os governos têm capacidade de reduzir o garimpo ilegal quando há intervenções coordenadas e esforços efetivos de fiscalização. “Na Terra Indígena Yanomami, o garimpo ilegal atingiu seu pico entre 2021 e 2022, mas caiu significativamente após a grande intervenção do governo brasileiro, iniciada em 2023. No entanto, como observamos recentemente no Peru e na Venezuela, essas ações precisam fazer parte de um esforço contínuo e de longo prazo. Caso contrário, o garimpo ilegal tende a retornar rapidamente.”
Alertas territoriais
Em 2025, o sistema de alertas registrou um total de 66 alertas territoriais. Destes, 83% tratavam-se de alertas de invasão, que congregam informações sobre movimentação de aeronaves clandestinas, barcos, balsas, entre outros veículos. Houve registro também de situações de ataque e entrada de arma de fogo.
O sistema de alertas é uma iniciativa das organizações da Terra Indígena Yanomami: Hutukara Associação Yanomami, Associação Wanasseduume Ye’kwana, Urihi Associação Yanomam, Parawamë, Kurikama, AYRCA e Kumirayoma, com suporte técnico do ISA e apoio do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). A ferramenta começou a ser implementada em 2023.
Leia também
Indígenas Yanomami emitem alertas por celular para defender o território
O sistema permite que monitores comunitários enviem alertas via formulário com fotos, vídeos, áudios e geolocalização, inclusive offline. As informações são validadas e traduzidas por pesquisadores indígenas, organizadas em um painel público e encaminhadas para as autoridades. A ferramenta está disponível em quatro idiomas: Yanomami, Ye’kwana, Sanoma e português.
Entre as regiões que registraram alertas de invasão do espaço aéreo, além de Auaris, estão: Xitei, Alto Catrimani e Apiaú (possivelmente associado ao garimpo no Rio Couto Magalhães).
“No caso do Catrimani, é notável a relação desta movimentação com o garimpo praticado na cabeceira do Orinoco, em território Venezuelano, uma das zonas de maior movimentação garimpeiros dos últimos anos”, descreve trecho do relatório.
A Pista do Taboca, localizada na Venezuela, é apontada como uma parte estratégica da logística que mantém o garimpo no Brasil. Essa pista dá suporte aos invasores que insistem na mineração nas regiões do Alto Catrimani e Xitei.
Conforme o relatório, a região do Ericó, zona acessível pelo Rio Uraricaá, registrou sinais significativos de desmatamento relacionados à atividade garimpeira. Durante a fase mais crítica da invasão, havia registros de dragas trabalhando no Rio Uraricaá, mas sem sinais de garimpo em terra firme. O cenário parece ter mudado como parte da estratégia dos invasores para fugir das operações em áreas mais críticas.
As denúncias enviadas pelo sistema de alertas também apontam a persistência de invasões pelos rios Uraricoera, Catrimani, Apiaú e Ajarani. Há casos de tráfego de balsas, operação de dragas, escoamento de cassiterita e entrada de insumos para os acampamentos.
O Baixo Catrimani é a região que mais reportou situações de invasão pelo rio. De abril a dezembro de 2025, os Yanomami enviaram nove alertas sobre a presença de balsas, dragas e circulação de barcos suspeitos.
Leia o relatório completo aqui.
Sobre o Instituto Socioambiental
Com o lema “socioambiental se escreve junto”, o Instituto Socioambiental (ISA) foi fundado em 1994. Desde então, o ISA trabalha lado a lado com parceiros históricos de comunidades indígenas, quilombolas e tradicionais para desenvolver soluções que protejam e restaurem seus territórios, fortaleçam suas culturas e conhecimentos tradicionais, elevem seus perfis representativos, desenvolvam economias sustentáveis e lideradas pelas comunidades e valorizem suas contribuições para a adaptação e mitigação das mudanças climáticas.
Sobre o MAAP
O Monitoring of the Andean Amazon Project (MAAP) é uma iniciativa da Amazon Conservation, da Conservación Amazónica–ACCA (Peru) e da Conservación Amazónica–ACEAA (Bolívia), que fornece análises técnicas de ponta sobre desmatamento, mineração e incêndios em toda a Amazônia. O MAAP utiliza imagens de satélite, ciência de dados e informações de campo para produzir relatórios oportunos que apoiam ações de conservação e a formulação de políticas públicas.
Sobre a Amazon Conservation
A Amazon Conservation é uma organização internacional sem fins lucrativos que há mais de 25 anos atua para promover uma Amazônia saudável e resiliente. Sua abordagem integrada se baseia no trabalho com parceiros locais e aliados para proteger áreas naturais, fortalecer comunidades e aplicar ciência e tecnologia em prol da conservação. Para mais informações, visite amazonconservation.org.
Carregando