Podcast traz experiências de quem vem lidando com os impactos e tem muito a compartilhar sobre como prevenir e controlar o fogo
Está no ar o segundo episódio da série especial sobre o El Niño, fenômeno climático que já impacta várias regiões do país em 2026. A série integra o podcast “Vozes do Clima”, produzido pelo Instituto Socioambiental (ISA), e será composta de seis episódios de até 10 minutos cada.
Desta vez, o programa aborda as previsões para os próximos meses e as regiões com maior risco de incêndios. Também traz experiências de quem vem lidando com os impactos e tem muito a compartilhar sobre como prevenir e controlar o fogo.
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A apresentação é de Claudia Wanano, comunicadora indígena da rede Wayuri, no Rio Negro (AM). As vozes são de Winti Suya, liderança do povo Khisêtjê, na Terra Indígena Wawi, leste do Xingu (MT); e de Jorge Guajajara da Silva, brigadista da Terra Indígena Araribóia, do povo Guajajara (MA).
Educação ambiental e "fogo bom”
Em entrevista ao "Vozes do Clima", Jorge Guajajara explicou que a prevenção dos incêndios florestais em sua região é liderada por cinco brigadas indígenas contratadas pelo Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo). Segundo ele, além da educação ambiental, uma das ações desenvolvidas no território é a queima controlada, também chamada de “fogo bom”.
A técnica, baseada no conhecimento tradicional, integra o Manejo Integrado do Fogo, e é usada tanto na limpeza antes de plantar as roças, como na prevenção a incêndios florestais.
É chamada de “queima controlada” porque o fogo é usado de forma controlada para eliminar o excesso de vegetação seca e restos orgânicos que servem de combustível para grandes incêndios.
Mas ele ressalta que tudo precisa ser feito de forma autorizada, planejada e monitorada. A época do ano, o período do dia e a umidade do ar, por exemplo, são fatores levados em conta.
“A gente conscientiza as pessoas a não fazer esse tipo de queima sem o apoio da brigada local ou sem qualquer pessoa que tenha as técnicas de fazer uma queima controlada para não correr risco de ocasionar um incêndio florestal. Que venha fazer uma aceiro ao redor do local que for queimar; se for queimar um lixo no quintal, queimar no horário da tardezinha, porque se queimar meio dia corre risco de ocasionar incêndios florestais bem graves e a pessoa não conseguir conter rápido, o que pode ter uma dimensão grande e ocasionar um incêndio bem grande também”, explica, ressaltando a importância da conscientização das comunidades.
Winti Suya também contou que a técnica do aceiro é uma opção bastante utilizada na região do Xingu para evitar a propagação do fogo.
"Hoje a gente trabalha muito com aceiro antes de queimar nossas roças dentro do nosso território, nas aldeias, nas comunidades. Assim a gente tá trabalhando com a prevenção de controle de fogo dentro do nosso território", conta.
Os aceiros são faixas de terreno limpo, sem vegetação ou qualquer outro material que possa pegar fogo, e podem ser feitos ao redor de roças ou matas, por exemplo. A limpeza é feita com enxadas, roçadeiras e até maquinário.
Com as áreas limpas, sem ter o que queimar, o fogo não se espalha e, por isso, a construção e manutenção de aceiros é uma das principais medidas de prevenção aos incêndios promovida pela brigada do território Wawi, onde Winti atua. Mas, caso o incêndio aconteça, também é possível combatê-lo diretamente.
“Nós temos a base do Prevfogo, do Ibama, que nós construímos por nossa conta própria. Hoje nós temos estrutura dentro do território e através da nossa organização também conseguimos alguns equipamentos para o trabalho de prevenção e combate ao fogo. E a gente sempre orienta nossa comunidade que se acontecer um incêndio sem a equipe do Prevfogo, nós mesmos assumimos a responsabilidade de controlar o fogo", detalha Winti.
O Super El Niño
O El Niño é um processo da natureza que ocorre de tempos em tempos. Com o agravamento das mudanças climáticas, ele tem ficado cada vez mais intenso e a previsão é de que os efeitos nos próximos meses sejam bem fortes. Por isso, ele vem sendo chamado de Super El Niño.
Em algumas localidades, esses efeitos já começaram. Algumas previsões indicam que eles terão o pico em dezembro, mas podem se prolongar pelo primeiro semestre do ano que vem.
De modo geral, as regiões Norte e Nordeste podem ter aumento do calor, redução no volume de chuvas e baixa nos rios. Um estudo produzido pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), aponta que a seca já atinge 303 terras indígenas no bioma.
Os governos de estados da Amazônia, a exemplo do Acre, Amazonas, Pará e Roraima, decretaram situação emergencial no início de setembro em razão da forte estiagem
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