A capital do Amazonas desponta como paisagem distópica sob ameaça da emergência climática
Manaus acordou ontem, 08 de outubro, imersa numa densa fumaça. Com a qualidade do ar insalubre, o Instituto Federal do Amazonas (IFAM) e a Universidade Federal do Amazonas (UFAM) cancelaram as aulas presenciais na capital.
Não foi um fato isolado. Há mais de um mês, Manaus padece com a fumaça. Em setembro já tinha atingido o título de cidade com o ar mais poluído do mundo, como narrou a jornalista Nicoly Ambrósio, da Amazônia Real. Os incêndios tornaram o ar tóxico, com níveis de poluição atmosférica 20 vezes acima do limite estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Estima-se que aproximadamente 650 mil pessoas sejam diretamente afetadas pela seca e calor intenso no Amazonas nesta temporada de Super El Niño em 2026, que deve se prolongar até fevereiro de 2027, agravada ainda pela emergência climática. Entre os principais problemas vivenciados nas secas extremas de 2023 e 2024 na Bacia Amazônica estão a falta de água potável, aumento de doenças (como as diarreicas agudas), isolamento logístico, entre outros decorrentes do efeito dominó inerente ao desequilíbrio socioambiental.
As dificuldades logísticas, por sinal, não vêm somente dos rios que secam. Os preços das passagens aéreas no Amazonas dispararam e afetam diretamente a mobilidade de quem mora e trabalha no estado. Tarifas aéreas entre São Gabriel da Cachoeira, no Noroeste do Amazonas, e Manaus, chegam a custar R$ 9 mil, valor maior do que uma viagem internacional. A alternativa ainda é fazer o percurso de barco, porém, em caso de estiagem extrema e seca dos rios, já prevemos que os valores abusivos subirão ainda mais.
Como resposta a esse quadro, o governo amazonense decretou emergência em todos os seus 62 municípios, no último dia 21 de setembro. Em meio a crise socioambiental, porém, quase nada se debateu seriamente sobre emergência climática e preservação da Amazônia no primeiro turno das eleições para o novo governo do Estado do Amazonas.
Pelo contrário, escutamos no debate público muito negacionismo climático e a repetição neurótica de que a proteção ambiental representa um entrave ao desenvolvimento, transformando-se no bode expiatório dos males sociais. Gente pobre pisando em cima de subsolo rico, dizem os defensores da mineração em áreas protegidas na Amazônia. Mas, há futuro e desenvolvimento humano sem ar para respirar?
Focos de calor
Incêndios florestais levaram ao agravamento da piora na qualidade do ar em Manaus nos últimos dias, alguns com fortes indícios de serem criminosos, aproveitando a forte estiagem para se apropriar de áreas de floresta. Houve um grande incêndio florestal numa área de 450 hectares no município de Iranduba, às margens da rodovia AM-070, no distrito de Cacau Pirêra, na região metropolitana de Manaus, logo depois da travessia da ponte do Rio Negro, região alvo da especulação imobiliária.
Outro incêndio de grandes proporções ocorre no município de Itacoatiara, segundo mais populoso do Amazonas, depois de Manaus. No dia 06 de outubro, após 17 dias, a Rede Amazônica denunciou que o fogo ainda avançava na mata fechada. Uma área de 1,1 mil hectares, equivalente a 1,5 mil campos de futebol, foram queimadas. A origem do incêndio ainda é investigada e a Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Itacoatiara trabalha com a suspeita de que o fogo foi criminoso.
Já na capital, um mega incêndio em uma área de vegetação e descarte irregular de resíduos no Distrito Industrial II levou aproximadamente 3 dias para ser controlado. O fogo consumiu muitos materiais tóxicos, como plásticos, borrachas e solventes, alçando Manaus a posição de cidade com a pior qualidade do ar no Brasil no dia 08 de outubro. O Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) aplicou multa de R$ 5,5 milhões ao responsável pelo terreno.
O Programa Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) contabilizou 644 focos de calor entre os dias 01 e 07 de outubro, número que representa um aumento de 130% na comparação com o mesmo período do ano passado, quando foram registrados 280 focos no Amazonas. De acordo com a Defesa Civil do Amazonas, 24 municípios estão em alerta devido aos níveis elevados de fumaça.
Novo normal de extremos climáticos
Sem um compromisso continuado e prioritário com a política ambiental e com a implementação do Plano Clima (estratégia que reúne políticas públicas para reduzir a emissão de gases de efeito estufa e adaptar o país aos impactos das mudanças climáticas), veremos o Amazonas perder aceleradamente suas florestas (que ainda cobrem mais de 90% do estado) e a Amazônia atingir o ponto de não retorno.
É pertinente lembrar neste momento que Jair Bolsonaro afirmou em 2021 que “a Amazônia, por ser úmida, não pegava fogo”. O negacionismo climático e a escolha perversa de confrontar a Ciência se deu em meio à disparada do desmatamento em seu governo, quando o ex-presidente facilitou o que pode para “passar a boiada” e acelerar a predação na região amazônica. Em um novo normal de eventos climáticos extremos, no qual a Amazônia é uma região extremamente vulnerável, é preciso orientar decisões e escolhas que viabilizem a vida, os sonhos e outros futuros possíveis.
*com informações da Amazônia Real, Rede Amazônica, CNN, Agência Fapesp e jornal A Crítica
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