De janeiro a setembro de 2025, um total de 335 hectares foi desmatado por meio do garimpo ilegal em TIs na Bacia do Rio Xingu. A análise indica que ações pontuais de fiscalização não têm sido suficientes para conter o avanço da atividade
Brasília e Washington, DC, 06 de maio de 2026 — Estudo revela que o garimpo ilegal mantém presença contínua em Terras Indígenas na Amazônia, em especial na Bacia do Rio Xingu, entre os estados de Mato Grosso e Pará, acendendo um alerta sobre os riscos crescentes à floresta e suas populações.
A análise, conduzida pelo programa MAAP (Monitoring of the Andes Amazon Program) da Amazon Conservation em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA), que liderou o relatório, combina dados do MAAP e de dois sistemas de monitoramento, o SiRAD X, da Rede Xingu+ e o Amazon Mining Watch, da Amazon Conservation, Earth Genome e Pulitzer Center, que utilizam imagens de satélite, radar e inteligência artificial para detectar áreas de mineração. As metodologias se complementam e os sistemas apontam padrões consistentes de expansão da atividade ao longo do tempo.
Os dados mostram que, de janeiro a setembro de 2025, um total de 335 hectares foi desmatado em Terras Indígenas, evidenciando a continuidade da pressão do garimpo ilegal sobre a região.
Segundo o relatório, ao menos 11.500 hectares de floresta foram perdidos entre 2018 e 2024 em Terras Indígenas e áreas protegidas da Bacia do Rio Xingu. E o desmatamento associado ao garimpo ilegal continua presente dentro de territórios protegidos, mesmo após recentes ações de fiscalização.
Território sob pressão
No centro dessa dinâmica está o Corredor Xingu de Diversidade Socioambiental, um dos maiores blocos contínuos de florestas oficialmente protegidas do planeta, com mais de 26 milhões de hectares que conectam 24 Terras Indígenas e 9 áreas protegidas e desempenha um papel fundamental na conservação da floresta amazônica, mas segue sob pressão crescente do garimpo ilegal, da expansão agropecuária, da extração ilegal de madeira e dos incêndios florestais provocados por ações humanas.
Este primeiro recorte do estudo traz uma análise detalhada de três Terras Indígenas: Kuruaya, Baú e Kayapó, e mostra como a mineração ilegal tem avançado nos últimos anos, com impactos diretos sobre territórios e comunidades.
Na Terra Indígena Kuruaya, o garimpo ilegal se intensificou ao longo do rio Madalena. Entre 2023 e julho de 2025, a área impactada ultrapassou 34 hectares. Já na Terra Indígena Baú, o relatório identifica ao menos 110 hectares de floresta destruída, com registros de conflitos armados entre garimpeiros e povos indígenas.
O caso mais crítico é o da Terra Indígena Kayapó, que concentra a maior área desmatada por garimpo ilegal na Amazônia brasileira. Dados do relatório, com base na plataforma Amazon Mining Watch, indicam um acumulado de cerca de 7.940 hectares impactados, sendo 140 hectares de janeiro a setembro de 2025. Com as operações do governo federal para a retirada para garimpeiros e maquinário da região, em maio, ainda foram registrados ao menos 2 novos hectares de área de garimpo foram registrados em junho.
“Os dados dos sistemas utilizados pelas duas instituições não deixam dúvidas de que o Corredor Xingu enfrenta um cenário de pressão crescente e disseminada, com o garimpo avançando sobre regiões até então preservadas. Isso exige uma resposta estrutural de longo prazo para garantir a integridade dessas florestas e de seus povos”, afirma Thaise Rodrigues, Analista de Geoprocessamento do Instituto Socioambiental (ISA).
Leia o relatório completo aqui.
Tecnologia e monitoramento revelam padrões consistentes
Em 2025, o Instituto Socioambiental firmou uma parceria com a Amazon Conservation, ampliando o acesso a imagens de satélite em alta resolução fornecidas pela Planet por meio do MAAP. Esse recurso permitiu aprimorar a validação dos alertas e a identificação dos vetores de pressão. A colaboração também integra o painel público Amazon Mining Watch, desenvolvido em parceria pela Amazon Conservation, Earth Genome e Pulitzer Center.
A Rede Xingu+ realiza monitoramento mensal do desmatamento e de outras pressões no Corredor Xingu por meio do SiRAD X (Sistema Remoto de Alerta de Desmatamento do Xingu), que utiliza tecnologia de radar. O sistema também se apoia em uma rede de parceiros locais responsáveis pela vigilância territorial diretamente em campo.
A plataforma Amazon Mining Watch é um sistema de monitoramento que utiliza inteligência artificial e dados de satélite para detectar desmatamento causado pelo garimpo ilegal em todos os países da bacia Amazônica.
Os efeitos do garimpo ilegal vão muito além da perda de floresta. A atividade está associada à contaminação de rios por mercúrio, à perda de biodiversidade e ao aumento de conflitos socioambientais, colocando em risco a segurança e os modos de vida de comunidades indígenas e ribeirinhas, assim como as populações urbanas que consomem produtos da floresta e dos rios e de seus serviços ambientais, como a regulação climática.
“Esta é uma das análises mais abrangentes já produzidas sobre o impacto crescente da mineração de ouro em Terras Indígenas e áreas protegidas no Corredor Xingu, um dos principais focos de mineração na Amazônia brasileira. Ao reunir dados complementares e inéditos, ela amplia a capacidade de compreender a dinâmica recente e orientar ações mais eficazes de monitoramento, fiscalização e tomada de decisão”, explica Matt Finer, diretor do programa MAAP na Amazon Conservation.
Da resposta à ação
O relatório destaca que, além de operações de retirada de garimpeiros, é necessário articular ações interinstitucionais e priorizar a implementação de políticas públicas em territórios ameaçados por garimpo ilegal. Entre as principais recomendações estão a criação de uma força-tarefa interinstitucional permanente para desmantelar redes logísticas do garimpo, o fortalecimento de órgãos de fiscalização como IBAMA, ICMBio e FUNAI, a ampliação do monitoramento territorial conduzido por comunidades indígenas e o avanço na rastreabilidade da cadeia do ouro, com maior transparência sobre sua origem.
Sem uma estratégia de longo prazo, o estudo alerta para o alto risco de reincidência das invasões após operações de fiscalização
Este relatório integra uma série em duas partes sobre o avanço do garimpo na Bacia do Rio Xingu. Esta primeira edição analisa as Terras Indígenas, enquanto a segunda abordará o avanço do desmatamento associado ao garimpo em áreas protegidas, concentrando a análise em três unidades de conservação: a Floresta Nacional de Altamira, a Estação Ecológica da Terra do Meio e a Reserva Biológica Nascentes da Serra do Cachimbo.
Leia o relatório completo aqui.
Sobre o Instituto Socioambiental
Com o lema “socioambiental se escreve junto”, o Instituto Socioambiental (ISA) foi fundado em 1994. Desde então, o ISA trabalha lado a lado com parceiros históricos de comunidades indígenas, quilombolas e tradicionais para desenvolver soluções que protejam e restaurem seus territórios, fortaleçam suas culturas e conhecimentos tradicionais, elevem seus perfis representativos, desenvolvam economias sustentáveis e lideradas pelas comunidades e valorizem suas contribuições para a adaptação e mitigação das mudanças climáticas.
Sobre o MAAP
O Monitoring of the Andean Amazon Project (MAAP) é uma iniciativa da Amazon Conservation, da Conservación Amazónica–ACCA (Peru) e da Conservación Amazónica–ACEAA (Bolívia), que fornece análises técnicas de ponta sobre desmatamento, mineração e incêndios em toda a Amazônia. O MAAP utiliza imagens de satélite, ciência de dados e informações de campo para produzir relatórios oportunos que apoiam ações de conservação e a formulação de políticas públicas.
Sobre a Amazon Conservation
A Amazon Conservation é uma organização internacional sem fins lucrativos que há mais de 25 anos atua para promover uma Amazônia saudável e resiliente. Sua abordagem integrada se baseia no trabalho com parceiros locais e aliados para proteger áreas naturais, fortalecer comunidades e aplicar ciência e tecnologia em prol da conservação. Para mais informações, visite amazonconservation.org.
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