Passo dado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em conjunto com as associações quilombolas tornou-se ferramenta de defesa dos direitos das comunidades
Em setembro de 2018, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reconheceu o Sistema Agrícola Tradicional (SAT) Quilombola como patrimônio cultural imaterial do Brasil.
Segundo o órgão: “Sistema agrícola tradicional é o conjunto de elementos, desde os saberes, mitos, formas de organização social, práticas, produtos, técnicas e artefatos, e outras manifestações associadas que envolvem espaços, práticas alimentares e agroecossistemas manejados por povos e comunidades tradicionais e agricultores familiares” (Iphan, nota técnica 23/2016)*
O reconhecimento por essa instituição de peso, criada em 1937 e vinculada ao Ministério da Cultura, fortalece a luta pela preservação do modo de vida quilombola no Vale do Ribeira, no sudoeste do estado de São Paulo.
E as ações de salvaguarda de patrimônio posteriores ao reconhecimento, como a Feira de Troca de Mudas e Sementes das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira, celebram e garantem a continuidade desse patrimônio para as próximas gerações.
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Plantar, colher, trocar sementes, preparar alimentos e cuidar da terra são parte constitutiva desse modo de vida. Entre essas práticas está a roça de coivara, baseada no rodízio das áreas de cultivo e em períodos de pousio, o repouso da terra, que permite a regeneração da vegetação. A prática está associada a um amplo conjunto de conhecimentos sobre o território e seus ciclos ecológicos.
Estudos reunidos no Dossiê Sistema Agrícola Tradicional Quilombola do Vale do Ribeira, publicado pelo Instituto Socioambiental (ISA), apontam para a relação entre essas práticas agrícolas, a diversidade de espécies cultivadas e a manutenção da biodiversidade da Mata Atlântica.
De acordo com o estudo “Florestas precisam de pessoas”, também publicado pelo ISA, áreas protegidas ocupadas por povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais apresentam índices mais elevados de vegetação nativa preservada e em regeneração. Os dados reforçam que os modos tradicionais de ocupação e manejo do território atuam como importantes barreiras ao desmatamento e contribuem para a proteção da biodiversidade e para a regeneração dos ecossistemas.
Segundo o censo de 2022 do IBGE, a população quilombola no Brasil é de 1.330.186 pessoas e existem 7.666 comunidades quilombolas identificadas, em todas as regiões do país. Apenas nos estados do Acre e Roraima não há comunidades identificadas até o momento.
Desde 1988, somente 25 quilombos foram integralmente titulados, e há muitos Territórios Quilombolas não titulados ou com o processo de titulação atravessado por diversas questões jurídicas e pelo racismo estrutural.
A efetivação do direito sobre e titulação dos territórios é fundamental para garantir a proteção e geração da biodiversidade, próprias do modo de vida quilombola.
Em paralelo, o reconhecimento do Sistema Agrícola Tradicional Quilombola como patrimônio cultural imaterial do Brasil é uma vitória fundamental para as comunidades quilombolas e a conservação do maior maciço de Mata Atlântica do país.
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Roça é vida
O livro ‘Roça é Vida’, publicado em 2020, foi escrito e ilustrado por quilombolas, aquilombadas, profissionais das ciências humanas e exatas, engajados com o movimento social quilombola e educadores sociais. Essa diversidade de autores não é apenas uma característica da publicação, mas parte de sua própria proposta.
O livro nasceu de um trabalho coletivo do Grupo de Trabalho da Roça (GT da Roça), atualmente um dos principais fóruns de tomada de decisão das comunidades, com a intenção de registrar e fortalecer os conhecimentos associados ao Sistema Agrícola Tradicional Quilombola. Em vez de tratar a roça apenas como uma prática agrícola, a publicação apresenta sua relação com a alimentação, a biodiversidade, o território, a memória, o trabalho e a continuidade da vida comunitária.
O processo de produção das imagens reforça essa dimensão narrativa. As ilustrações foram construídas a partir da aproximação dos artistas com o território e com os conhecimentos das comunidades.
O livro foi uma das bases para a criação da exposição de mesmo nome, inaugurada em 2023 no Museu Afro Brasil Emanoel Araújo, em São Paulo. A mostra foi inspirada no livro e na publicação ‘Na companhia de Dona Fartura: uma história sobre cultura alimentar quilombola’ (2022), ambas produzidas por pesquisadores e educadores quilombolas e aquilombados do território.
Saiba mais: Catálogo da exposição Roça é vida.
Na Companhia de Dona Fartura
O livro ‘Na Companhia de Dona Fartura’, publicado em 2022, é uma continuidade dos trabalhos iniciados na obra ‘Roça é vida’.
A personagem Dona Fartura dá nome à história e representa os conhecimentos que atravessam gerações. Fartura é apresentada como “neta de Tradição, filha de Experiência e avó de Esperança e Legado”, uma forma de representar a continuidade dos conhecimentos quilombolas e a importância de sua transmissão para as novas gerações.
O livro também evidencia que a alimentação é uma dimensão importante da relação das comunidades com seus territórios. A diversidade de alimentos cultivados nas roças tradicionais está associada à agrobiodiversidade e à conservação da Mata Atlântica, e também à autonomia, à memória e à continuidade cultural.
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As belezas das roças quilombolas
A partir do histórico de luta e resistência quilombola, as roças seguem como espaços de criação, beleza, (re)conhecimento e celebração da vida. Esses aspectos são indicadores da força quilombola, que mantém uma relação positiva e respeitosa com a Mata Atlântica.
O Kit Didático: As belezas das roças quilombolas, elaborado por pesquisadores do ISA, apresenta fontes históricas e exemplos de atuação para serem trabalhados com estudantes de todo o Brasil.
Pessoas educadoras, venham conhecer o kit didático que reúne fontes e documentos com propostas de reflexão para apoiar discussões e atividades sobre o assunto em sala de aula!
Conheça também o poema “Reconhecido pelo Iphan como patrimônio brasileiro, a roça coivara” de Leonila Priscila da Costa Pontes, do Quilombo Abobral Margem Esquerda:
Pelo IPHAN reconhecido
alegres vamos festejar a roça de coivara quilombola
não podemos descansar.
Não ficar adormecido
a voz de Zumbi diz
que não podemos parar
muitas vezes amedrontado e esquecido
mas não se pode desanimar.
Com fé, força e ardor,
com muita união,
por isso é que eu digo:
lutar sempre em mutirão.
Quilombola sempre foi soldado
que cedo ao trabalho sai
cuida pelo seu roçado
não pode descuidar tudo tem tempo marcado
na hora de plantar.
Se não fossem esses abnegados
o povo da cidade não iria se alimentar
se ele planta atrasado
a vaca vai pro brejo
porque arroz e feijão
ainda não vi fabricar.
Olha firme o infinito
acredita no Deus pai
pede a ele proteção
que nunca falte o pão
em cada mesa de um lar
para que cada família
possa a fome saciar.
Assista à festa quilombola no reconhecimento de seu Sistema Agrícola Tradicional:
*ANDRADE, Anna Maria de Castro; KISHIMOTO, Alexandre (org.). Dossiê Sistema Agrícola Tradicional Quilombola do Vale do Ribeira (SP): volume 1. Disponível em: https://acervo.socioambiental.org/acervo/documentos/dossie-sistema-agricola-tradicional-quilombola-do-vale-do-ribeira-sp-vol-1. Acesso em: 11 set. 2026. Página 6
Referências bibliográficas
ANDRADE, Anna Maria de Castro; KISHIMOTO, Alexandre (org.). Dossiê Sistema Agrícola Tradicional Quilombola do Vale do Ribeira (SP): volume 1. Disponível em: https://acervo.socioambiental.org/acervo/documentos/dossie-sistema-agricola-tradicional-quilombola-do-vale-do-ribeira-sp-vol-1. Acesso em: 11 set. 2026.
DIAS, Luiz Marcos de França; AMÉRICO, Márcia Cristina; SILVA, Laudessandro Marinho da; LUIZ, Viviane Marinho. Na companhia de Dona Fartura: uma história sobre cultura alimentar quilombola. Ilustrações de Amanda Nainá dos Santos e Vanderlei Ribeiro. São Paulo: Instituto Socioambiental, 2022. Disponível em: https://acervo.socioambiental.org/acervo/publicacoes-isa/na-companhia-de-dona-fartura-uma-historia-sobre-cultura-alimentar-quilombola. Acesso em: 11 set. 2026.
LUIZ, Viviane Marinho et al. (org.). Roça é vida. São Paulo: IPHAN, 2020. Disponível em: https://acervo.socioambiental.org/acervo/livros/roca-e-vida. Acesso em: 11 set. 2026.
OVIEDO, Antonio Francisco Perrone; DOBLAS, Juan. As florestas precisam das pessoas. São Paulo: Instituto Socioambiental, 2022. 22 p. Disponível em: https://acervo.socioambiental.org/acervo/documentos/florestas-precisam-das-pessoas. Acesso em: 11 set. 2026.
**A série Hoje na História Socioambiental apresenta a riqueza de informações do Acervo do ISA que conta com mais de 250 mil itens catalogados voltados para a temática socioambiental como publicações, livros, teses e dissertações, mapas, notícias, materiais audiovisuais, entre outros. Hoje na História Socioambiental é um convite a reler o Brasil com mais amplitude, sensibilidade e justiça, valorizando a memória e documentação dos diversos povos.
Esta publicação conta com o apoio do Fundo Amazônia e é um produto do projeto "Defesa e Promoção dos Direitos Indígenas no Brasil: Construir Capacidades e Engajar Pessoas por um Futuro mais Justo", realizado pelo Instituto Socioambiental (ISA), com o financiamento da União Europeia.
Este material tem conteúdo de responsabilidade exclusiva da instituição realizadora e não reflete a posição da União Europeia.
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