::01 |
 |
Como parece ser o caso em toda sociedade não-industrial,
pequena e morfologicamente simples, a vida cotidiana
araweté reserva às categorias e atitudes
de parentesco um papel maior. As formas de cooperação
econômica, os arranjos residenciais, os alinhamentos
políticos, tudo isso é função
das relações de parentesco, por consangüinidade
ou afinidade, entre as pessoas. O casamento não
é uma simples união entre dois indivíduos,
mas uma aliança entre suas respectivas parentelas,
que pode (e idealmente deve) consolidar-se por outras
uniões matrimoniais entre esses grupos de parentes.
::02 |
 |
Os Araweté se casam muito cedo, as mulheres
por volta dos 12 anos, os homens, dos 15; as uniões
são muito instáveis até o nascimento
do primeiro filho (o que se dá por volta dos
dezesseis anos para as mulheres), quando então
se tornam sólidas e dificilmente se rompem antes
da morte de um dos cônjuges. Como não se
concebe a vida de uma pessoa adulta fora do estado matrimonial,
dificilmente alguém fica solteiro por muito tempo:
pessoas mais velhas, assim que enviúvam, costumam
formar uniões com jovens que ainda não
atingiram a idade de casar com alguém de sua
faixa de idade. É assim relativamente comum ver
homens de sessenta anos morando com meninas de dez anos,
ou de mulheres de 50 anos com rapazolas de doze. Trata-se
de arranjos sobretudo econômicos, em que o casal
funciona como uma unidade de residência, de produção
e consumo alimentar; mas os jogos sexuais não
estão excluídos.
O termo genérico para "parente" é
anî, que em sua acepção mais
restrita denota os irmãos de mesmo sexo que ego;
meus parentes são meus di,
meus "outros-iguais", gente semelhante a mim. O termo
para "não-parente" é tiwã,
cuja determinação genealógica mais
próxima são os primos cruzados de mesmo
sexo; os tiwã são amite,
gente "diferente". Tiwã é um termo
ambíguo. Ele traz uma conotação
agressiva ou 'picante', e não se costuma usá-lo
como vocativo para um outro Araweté. Ele indica
uma ausência de relação de parentesco,
um vácuo que pede preenchimento. Um tiwã
é uma possibilidade de relação:
um cunhado ou um amigo potenciais. Os tiwã
se tratam apenas por nomes pessoais. Tiwã
é o vocativo com que os Araweté tratam
os brancos cujo nome desconhecem; e é o termo
de tratamento recíproco entre um matador e o
espírito do inimigo morto. Aplicado a não-Araweté,
ele particulariza a 'relação' genérica
negativa que há entre os bïde e os
awî. Chamar alguém pelo vocativo
awî é impensável, pois awî
são seres "para matar" (yokã mi),
com os quais não se fala; chamar um inimigo de
tiwã, assim, é criar este mínimo
de relação que reconhece ao outro a condição
de humano (bïde).
::03 |
 |
A terminologia de parentesco araweté
é extensa, e se organiza segundo princípios
bastante diferentes daqueles que subjazem a nossa forma
de classificar os parentes. Basta aqui observar que
os Araweté chamam de "irmão", "irmã",
"filho", "filha", "pai", "mãe", uma quantidade
de pessoas que para nós seriam consideradas como
primos, sobrinhos ou tios, e às vezes simples
parentes distantes. Em princípio, todas as mulheres
classificadas como "mãe", "irmã" ou "filha"
são proibidas a ego dos pontos de vista sexual
e matrimonial; digo "em princípio" porque essa
norma se aplica com rigor apenas para as parentas mais
próximas destas categorias, as primeiras delas
sendo a mãe, irmãs ou filhas 'reais' -
aquelas consideradas como tendo gerado ego, ou tendo
sido geradas pela mãe ou esposa de ego. O casamento
com a filha da irmã (a sobrinha uterina) é
considerado permissível, e mesmo desejável,
embora a maioria dos Araweté entenda que este
tipo de união só é realmente apropriado
quando se trata de uma "sobrinha" distante. O casamento
com a sobrinha uterina, chamado em antropologia de casamento
avuncular (do latim avunculus, "tio materno",
pois se trata de uma união entre um tio materno
e sua sobrinha uterina), é bastante comum entre
os povos Tupi-Guarani e Caribe da América do
Sul.
::04 |
 |
Ao contrário da maioria das sociedades
indígenas brasileiras, os Araweté não
consideram que todos os membros do grupo sejam aparentados;
para uma pessoa qualquer, muitos dos demais moradores
da aldeia do Ipixuna são tiwã,
não-parentes. A presença de tantos tiwã
em uma sociedade de duzentas pessoas se explica em parte
pela separação longa entre os grupos meridional
e setentrional de Araweté, antes do contato;
os tiwã eram em geral qualificados como
iwi rowãñã ti hã,
"gente do outro lado da terra", isto é, de um
outro bloco de aldeias.
O ideal verbalmente expresso define os primos
cruzados como os cônjuges por excelência.
O casamento com a filha do irmão da mãe
é chamado "casamento do iriwã",
um pássaro que em um mito se casa com a filha
da cobra jararaca, seu tio materno; o casamento com
a filha da irmã do pai é o "casamento
do gavião-real", conforme outro mito. é
comum que os adultos determinem os cônjuges futuros
das crianças, emparelhando-as a seus primos cruzados.
De 1983 a 1991, observei que apenas um pequeno número
desses casais chegou a estabilizar-se; mas muitos dos
primeiros casamentos deram-se entre primos cruzados.
Outra forma de compromisso matrimonial é
aquela em que um tio materno ou uma tia paterna reserva
uma criança para futuro cônjuge, pedindo-a
à própria irmã (mãe da criança)
ou irmão (pai da criança). Esses casamentos
(e aqueles os com primos cruzados) são vistos
como uma forma de se manterem juntos parentes próximos,
ou mais precisamente como o resultado da ligação
afetiva entre irmão e irmã. "Desejam-se"
(pitã) os filhos dos
irmãos de sexo oposto, para si mesmo ou para
os próprios filhos - assim, dizem os Araweté,
"não nos dispersamos". Observa-se por fim uma
tendência à repetição de
alianças entre parentelas, gerando redes de aparentamento
muito intrincadas.
Não conheço palavra específica
para "incesto". Há um termo, que não sei
traduzir, que qualifica uniões não muito
próprias, awîde. Ele se aplica a
casamentos entre irmãos distantes e a uniões
entre tios e sobrinha reais. Menos adequados que os
casamentos com tiwã, os casamentos awîde
não são a rigor incestuosos. O incesto
(que se descreve como um "comer" a mãe, a irmã,
etc.) é algo muito perigoso: o casal culpado
morre de ha'iwã, definhamento que sanciona
toda infração cósmica; e pior que
tudo, os inimigos se abatem sobre a aldeia. As aldeias
de incestuosos, diz-se, costumam acabar tão crivadas
de flechas inimigas que os urubus sequer conseguem bicar
os cadáveres...
O tom das relações interpessoais
é bastante relaxado, e as posições
de parentesco são pouco diferenciadas em termos
das atitudes. Uma única relação
é definida como envolvendo "medo-vergonha" (čiye),
por definição: entre irmão e irmã.
(Digo "por definição" porque outras situações
envolvem "medo-vergonha" temporário e extrínseco.
Assim, todo jovem que vai residir uxorilocalmente sente-se
constrangido diante dos sogros, mas isso rapidamente
se dissipa). Isso não significa evitação:
irmãos de sexo oposto visitam-se freqüentemente,
demonstram grande estima recíproca, e são
o principal apoio moral de uma pessoa. Uma mulher recorre
ao irmão mais que ao marido, em uma briga com
estranhos; se estoura uma querela conjugal, são
sempre os irmãos de sexo oposto que acorrem a
consolar os cônjuges. Essa solidariedade é
respeitosa, e as brincadeiras de fundo sexual tão
apreciadas pelos Araweté jamais têm por
objeto um germano de sexo oposto.
O ataque de inimigos sobre uma aldeia tornada
"mole" (time) e desprevenida
sanciona outra falta grave às normas sociais:
a hostilidade física ou mesmo verbal entre irmão
e irmã. Vemos assim que as infrações
simétricas da distância própria
entre irmão e irmã - amor demais ou de
menos, digamos - atingem a sobrevivência do grupo
inteiro, o que sugere a centralidade desta relação
na vida social araweté.
Irmãos de mesmo sexo são igualmente
solidários, e são os parceiros de trabalho
mais comuns. A liberdade entre eles é grande,
embora não chegue nunca à camaradagem
jocosa dos apihi-pihã
(ver abaixo). Irmãs, sobretudo, são extremamente
unidas. Note-se contudo que a ordem de nascimento, marcada
aliás na terminologia de parentesco, gera uma
diferença que se exprime na autoridade dos mais
velhos sobre os mais jovens.
::05 |
 |
As relações conjugais araweté
são notavelmente livres, mas ambivalentes. O
contato corporal público é admitido, e
quando as coisas vão bem os casais são
muito carinhosos. Por outro lado, cenas de ciúme
são freqüentes. Os maridos de mulheres jovens
são muito ciosos, e vigiam de perto as esposas.
Quando a união consolida-se com o nascimento
de filhos, são as mulheres que passam a demonstrar
ciúme, especialmente se mais velhas que o marido.
A violência física (não muito violenta,
na verdade) é comum entre casais jovens, e em
geral as mulheres são mais agressivas. Fora da
relação conjugal (e das raríssimas
sovas dadas em filhos pequenos) não há
qualquer espaço para a violência na sociedade
araweté, que não se traduza imediatamente
em choque armado. Por isso o casamento fica sobrecarregado,
canalizando tensões que pouco têm a ver
com ele. Isso responde, entre outras coisas, pela alta
instabilidade conjugal.
A diferença de idade entre os cônjuges
é um traço comum nas sociedades tupi-guarani.
Ela se acha também entre os Araweté, mas
trata-se de uniões secundárias e temporárias,
nas quais os velhos iniciam sexualmente meninas pré-púberes,
e as velhas acolhem rapazes sem esposa disponível.
Entre afins de mesmo sexo e geração,
as relações são pouco marcadas.
Não há evitação de qualquer
espécie, nem solidariedade especial, como se
observa em tantas sociedades indígenas. "Cunhados
são como irmãos", dizem os Araweté:
saem para caçar juntos, podem ficar muito amigos,
ou podem se ignorar. Como parte dos laços de
solidariedade entre irmão e irmã, eles
estão entre os convidados mais freqüentes
ao pátio de uma pessoa. Note-se entretanto que
o costume de irmãos de sexo oposto virem consolar
os cônjuges nas brigas conjugais traduz uma óbvia
tensão latente entre cunhados de mesmo sexo,
que nunca vi passar de admoestações curtas
mas veementes por ocasião das desavenças
conjugais - ocasião, portanto, em que o marido
da irmã e a irmã do marido fazem valer
seus direitos fraternais contra os respectivos cunhados.
Dois cunhados ou cunhadas podem ter relações
sexuais com uma terceira pessoa, mas não podem
entrar em relações de amizade sexual cerimonial
(apihi-pihã) enquanto
estiverem ligados como afins: partilha de cônjuges
e afinidade se excluem.
Entre afins de sexo oposto e mesma geração
as relações são livres. A relação
de dois irmãos de mesmo sexo frente aos cônjuges
respectivos é concebida como sendo de sucessão
potencial: com a morte de um dos irmãos, é
comum que o outro herde seu cônjuge. As relações
sexuais entre, por exemplo, um homem e a esposa de seu
irmão são semi-clandestinas, e no máximo
tacitamente toleradas pelo irmão; caso tornem-se
conspícuas, um dos envolvidos termina propondo
uma troca de cônjuges, o que é freqüente.
Essa relação de equivalência diacrônica
entre irmãos de mesmo sexo se opõe à
partilha simultânea de cônjuges entre os
apihi-pihã.
Entre as gerações consecutivas,
o quadro de atitudes é variado, dependendo da
fase do ciclo de vida e da situação residencial.
Há pouca ênfase em estruturas de autoridade
baseadas na diferença geracional. Entre pais
e filhos concebe-se uma comunidade de substância,
e suas relações são afetivamente
intensas. Há uma muito vaga idéia de que
os filhos são "coisa do pai", as filhas "coisa
da mãe", o que traduz apenas a identidade de
gênero e suas conseqüências econômicas,
pois a teoria da concepção é patrilateral
e a organização de parentesco, cognática.
::06 |
 |
A vida social Araweté manifesta uma forte
tendência matrilocal, a qual rege as soluções
residenciais. O laço mãe-filhos é
mais intenso que o laço pai-filhos, e especialmente
a relação mãe-filha. É difícil
caracterizar com precisão situação
pós-marital. Há algum desacordo quanto
à norma. Os homens jovens dizem que o ideal é
a virilocalidade; os mais velhos afirmam que, tradicionalmente,
os rapazes domiciliavam-se no setor ou na aldeia da
esposa, e que só após o nascimento do
primeiro filho é que podiam voltar à aldeia
de origem (se conseguissem convencer a esposa). Inclino-me
pelo parecer dos mais velhos, embora tanto eles quanto
os rapazes estejam certamente exprimindo as normas do
modo que mais lhes favorece. A uxorilocalidade é
efetivamente um princípio conceitual básico
para os Araweté. Ela é explicada, caracteristicamente,
com argumentos psicológicos: afirma-se que as
mães não querem se separar das filhas,
e que, ademais, sogra e nora nunca se dão bem,
sobretudo se moram na mesma seção residencial.
Seja qual for a solução adotada, uxorilocal
ou virilocal, o que se tem é sempre uma residência
conceitualmente matrilocal: o cônjuge de fora
é definido como morando hačo pi,
"junto à sogra", e o de dentro como ohi pi,
"junto à mãe".
A situação real depende de vários
fatores, notadamente do peso político das parentelas
envolvidas, do número e composição
de sua prole, das alianças passadas... Hoje em
dia, diz-se, não importa muito a solução
residencial, uma vez que há uma só aldeia.
O fator que continua determinante é a alocação
da força de trabalho. A uxorilocalidade é
uma situação essencialmente econômica:
o genro passa a trabalhar com o sogro, ou melhor, na
roça de milho da sogra. Por isso, um casal-cabeça
de família extensa só permite a saída
de uma filha para casar se conseguir reter um filho
(atrair uma nora), ou se casar mais uma filha, repondo
o genro 'perdido'. A boa administração
da família consiste em arrumar casamentos que
mantenham o máximo número de filhos, de
ambos os sexos, na unidade familiar de origem (e sobretudo
na roça materna). Como isso é mais ou
menos o que todos procuram fazer, o sistema deriva em
direção à uxorilocalidade.
Não há regras de evitação
entre afins de gerações adjacentes, embora
prevaleça certa reserva, e uma comensalidade
obrigatória. Conflitos entre sogro e genro são
raros, mas ocorrem, sobretudo se o segundo mostra-se
negligente no trabalho agrícola (em especial
na fase da derrubada). Já os casamentos virilocais
são em geral tensos na relação
com o casal mais velho; nos dois únicos casos
em que as esposas tinham mãe viva, os choques
entre sogra e nora - na verdade entre as mães
dos cônjuges - eram costumeiros.
Quando eu perguntava se um rapaz, ao mudar-se
de aldeia para casar, não ficava intimidado e
com saudades de casa, respondiam-me sempre que sim,
mas que, além de terem-se parentes na aldeia
da esposa, logo criavam-se laços de apihi-pihã
entre o recém-casado e os tiwã
de lá.
|