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Os Araweté são um povo orgulhosamente
individualista, refratário a qualquer forma de
'coletivismo' e de comando, onde as pessoas se recusam
a seguir as outras, preferindo ostentar uma independência
obstinada. Aos olhos ocidentais, sempre preparados para
julgar as coisas sob o ângulo da 'coordenação'
e da 'organização', sua vida dá uma
singular impressão de desordem e descaso. Era-me
sempre muito difícil determinar o momento inicial
de qualquer ação coletiva: tudo parecia
ser deixado para a última hora, ninguém
se dispunha a começar coisa alguma...
Na verdade, é exatamente pelo fato da
ação coletiva ser, aos olhos araweté,
ao mesmo tempo uma necessidade e um problema, que a
noção de tenotã mõ,
"líder", designa uma posição onipresente
mas discreta, difícil mas indispensável.
Sem um líder não há concerto coletivo;
sem ele não há aldeia.
Tenotã mõ significa "o
que segue à frente", "o que começa". Essa
palavra designa o termo inicial de uma série:
o primogênito de um grupo de irmãos, o
pai em relação ao filho, o homem que encabeça
uma fila indiana na mata, a família que primeiro
sai da aldeia para excursionar na estação
chuvosa. O líder araweté é assim
o que começa, não o que comanda; é
o que segue à frente, não o que fica no
meio.
Toda e qualquer empresa coletiva supõe
um tenotã mõ. Nada começa
se não houver alguém em particular que
comece. Mas entre o começar do tenotã
mõ, em si mesmo algo relutante, e o prosseguir
dos demais, sempre é posto um intervalo, vago
mas essencial: a ação inauguradora é
respondida como se fosse um pólo de contágio,
não uma autorização.
O puro contágio - a propagação
de uma atividade sem concerto, onde cada um faz por
sua conta a mesma coisa - é a forma corriqueira
de ação econômica araweté.
Um belo dia, por exemplo, duas vizinhas põem-se
a preparar urucum. Não por haver cerimônia
em vista, ou porque esta seja a época do urucum;
mas apenas porque o decidiram. Em algumas horas, vêem-se
todas as mulheres da aldeia a fazer o mesmo. Um homem
passa distraído por um pátio alheio, vê
outro a fabricar flechas; resolve fazê-lo também,
e daí a pouco estão os homens sentados
em seus pátios, a fazer flechas… Esta
forma de propagação deve ser distinguida
daquelas atividades onde o sinal para a ação
é dado pela natureza. E mesmo aí, a emulação
é importante: após um longo período
de vida na aldeia, um grupo de famílias decide
excursionar; no espaço de alguns dias, vários
outros grupos saem, cada qual numa direção,
como se de repente todos descobrissem que não
agüentavam mais o tédio da vida em comum.
Essa forma de ação 'coletiva'
aparece como uma solução interessante
para o problema do começar, uma vez que cada
um faz a mesma coisa, ao mesmo tempo, mas para si, numa
curiosa mistura de submissão ao costume e manutenção
da autonomia. Ela manifesta uma tendência à
repetição extrínseca das atividades,
o que é consoante com a autonomia dos pátios
e setores da aldeia.
Mas algumas atividades fundamentais não
são realizáveis sem um tenotã
mõ. Mesmo que a forma de trabalho seja a
cooperação simples, elas supõem
um início formal. As principais são: as
caçadas coletivas, cerimoniais ou não;
a colheita e processamento de milho, açaí
etc., para uma festa de peyo (pajelança);
a dança opirahë;
as expedições de guerra; a escolha do
sítio de roças multi-familiares e do lugar
de aldeias novas.
Um tenotã mõ é
alguém que decide onde e quando se vai fazer
algo, e que sai na frente para fazê-lo. Quem propõe
a outrem uma empresa é o tenotã mõ
dela; quem pergunta "vamos?", vai na frente, ou nada
acontece.
Ocasiões diversas têm tenotã
mõ diversos, o que faz circular a função
de liderança (que às vezes não
é mais que este gesto de começar) entre
todos os adultos. O líder de uma empresa pode
ser aquele que teve a idéia dela, ou que sabe
como levá-la a cabo. Tal posição
pode caber a mais de um indivíduo, para a mesma
tarefa. E a aldeia pode fracionar-se em diversos grupos,
cada qual com seu tenotã mõ. Ao
líder incumbe a convocação dos
demais, e o movimento inicial: aos poucos, os outros
o seguem.
Esta posição de tenotã
mõ é vista como algo constrangedora.
Um líder é alguém que não
tem "medo-vergonha" (iyie) de se arriscar a convocar
os outros. Ele precisa saber interpretar o clima vigente
na aldeia, antes de começar de fato, ou ninguém
o segue. O processo efetivo de tomada de decisões
é discreto - conversas aparentemente distraídas
nos pátios noturnos, declarações
a ninguém em particular de que se vai fazer algo
amanhã, combinações confidenciais
de grupos de amigos, tudo isto termina por gerar um
líder para uma tarefa.
Mas, para além dessa forma de determinação
de posições temporárias e limitadas
de liderança, toda a aldeia reconhece um homem,
ou melhor, um casal, como ire renetã
mõ, "nossos líderes", uma posição
fixa e geral. Contudo, o âmbito das atividades
em que esses líderes agem formalmente como tenetã
mõ da aldeia é mínimo.
Os "donos da aldeia" são os tã
ñã, o casal ou casais que primeiro
abriram uma roça de milho no sítio de
uma aldeia nova, à volta da qual se foram agregando
outras roças e outras casas. O tã ñã,
assim, é o fundador de uma aldeia, e é
isto que o transforma em tenetã mõ.
Ele é o "dono da aldeia" na medida em que esta
se ergue em um espaço que ele abriu ou marcou,
e que foi derrubado por sua família extensa.
Toda aldeia, portanto, é uma ex-roça (ka
pe, capoeira) de uma ou mais famílias fundadoras.
Vê-se, assim, que não só
a aldeia, mas sua chefia é função
do milho, e que a noção de tenotã
mõ de aldeia não é mais que
o desenrolar temporal do movimento de começar
uma aldeia nova. O nome "dono da aldeia" não
significa que seu portador disponha de qualquer direito
sobre o solo aldeão: não determina onde
as famílias dos outros erguerão suas casas,
onde farão suas roças; não é
responsável por nenhum espaço comunal;
não coordena trabalhos públicos.
A situação dos Araweté
desde 1976, particularmente o fato de que sua única
aldeia ser uma fusão dos remanescentes de diversos
grupos locais, tendo, além disso, uma população
bem maior que a das aldeias tradicionais, certamente
explica a grande autonomia dos setores residenciais,
e conseqüentemente a minimização
da posição de "dono da aldeia" e "líder".
A autoridade de um "dono de aldeia" tradicional deverá
ter sido algo maior, exatamente porque os grupos locais
eram menores. O que hoje é a grande autonomia
dos setores residenciais, no passado deve ter sido a
autonomia dos grupos locais, que então estavam
mais próximos de sua matriz sociológica,
a família extensa uxorilocal.
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