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Produzir uma criança é um trabalho
lento, que exige cópulas freqüentes e grande
dispêndio de sêmen, de forma a aquecer o feto
e a formar paulatinamente seu corpo. Todos os componentes
potenciais da pessoa estão contidos na semente
paterna. O genitor é concebido pelos Araweté
como o que "faz" ou "dá" a criança. A mãe
é um hiro, receptáculo ou continente
desta substância seminal, onde se processa sua transformação
em criança.
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Os Araweté, ao contrário do que
sustentam outras culturas indígenas, não
consideram que o sangue menstrual desempenhe qualquer
papel na concepção humana. Quando eu observava
a semelhança física entre mães
e filhos, todos assentiam sem nenhuma surpresa, dando-me
uma explicação gramaticalmente abstrata:
a semelhança se deve ao fato de que o esperma
vira criança ohi ropï, "através
(ao longo) da mãe". Essa era a mesma razão
aduzida para explicar porque uma pessoa deve fazer abstinência
alimentar e sexual também quando um parente pelo
lado materno fica doente. Os Araweté entendem
que existe um laço de substância entre
os parentes, de tal forma que, se uma pessoa adoece,
seus parentes próximos devem evitar praticar
ações e ingerir alimentos que possam piorar
seu estado. Em suma, à teoria patrilateral da
concepção soma-se o reconhecimento bilateral
da filiação, dos interditos de incesto
e da abstinência por doença.
A biologia araweté sustenta que uma criança
pode ser formada pelo sêmen de mais de um genitor;
isto é, mais de um inseminador pode cooperar
ou revezar-se na produção de uma criança.
Recordemos que as relações de amizade
apihi-pihã põem
uma jovem esposa em contato sexual regular com dois
homens. É considerado positivo, para a saúde
de um bebê, que ele tenha sido formado por mais
de um genitor: o número ideal parece ser de dois
ou no máximo três; mais que isso acarreta
partos dolorosos, ou o bebê nasce com a pele manchada.
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As precauções do casal envolvido
na concepção são poucas, durante
a gestação, e algumas continuam após
o parto. Não devem comer anta, pois seu espírito
pisotearia a barriga da mãe; ou usar de milho
cujo cesto de transporte se partiu; o homem não
pode comer de fêmeas grávidas de animais.
Não devem ainda comer pernis de veado e mutum,
o que enfraqueceria as pernas da criança. Os
homens devem tomar cuidado na mata, pois as cobras tentarão
mordê-los.
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Logo que nasce, a criança é banhada
em água morna. Seu pai fura-lhe as orelhas, raspa
os cabelos que ultrapassam a linha das têmporas,
e ela é então "consertada" (mo-kati)
por alguém experiente: achata-se suavemente seu
nariz, afastam-se as orelhas para fora, massageia-se
o peito para "abri-lo", afastam-se as sobrancelhas,
ajusta-se o maxilar inferior, empurram-se os braços
e os dedos da mão na direção do
ombro, apertam-se as coxas uma contra a outra, separam-se
os cabelos úmidos com um pauzinho.
Os pais entram em reclusão, passando
a maior parte do tempo em casa e dependendo dos parentes
para tarefas domésticas essenciais, como cozinhar
e buscar água. Horas após o parto, eles
devem tomar a infusão amarga da casca da árvore
iwirara'i (Aspidosperma sp.) - a mesma
que se toma na primeira menstruação de
uma jovem e quando se matou um inimigo na guerra. Essa
medida pareceria ter assim uma relação
com o sangue que se acumula no corpo nestes estados,
e que deve ser purgado. Mas a explicação
aduzida pelos Araweté é diferente: toma-se
o chá de iwirara'i para poder comer jaboti
sem sufocar pela inchação da glote. Trata-se
do jaboti de patas vermelhas (Geochelone carbonaria),
carne proibida aos pais de recém-nascidos, mulheres
na primeira menstruação e matadores de
inimigo. Todos os homens que participaram da concepção
do bebê devem tomar dessa infusão, mas
apenas o genitor principal - via de regra, o marido
da parturiente - segue rigorosamente as demais restrições.
A mãe, na noite subseqüente ao parto,
deve submeter-se à operação imone,
recondução de sua alma ao corpo, executada
por um pajé. Todo trauma físico ou psicológico
produz esse perigoso descolamento entre alma e corpo.
As restrições puerperais são
variadas, e são sobretudo levadas a sério
pelos pai de um primeiro filho. Elas são mais
rigorosas enquanto o umbigo não seca e cai; vão-se
relaxando à medida que a criança fica
com o "pescoço duro", em seguida começa
a rir (a "ter consciência", ika'aki),
depois a andar. Seu término é imprecisamente
marcado, e a consolidação definitiva da
criança demora bem mais que esse período
de restrições de seus pais.
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Algumas das restrições visam proteger
os próprios pais, agora definidos como ta'i
ñã e memi ñã,
"donos de filho". Não se devem expor demasiado
ao sol e à lua, ou o "excremento" desses astros
os enegrecerão; não podem carregar água,
andar sobre pedras ou solo áspero, ou certos
espíritos da mata flecharão seus pés.
A mais importante precaução é tomada
pelo pai: ele não pode ir à mata enquanto
o umbigo do filho não seca, ou atrairá
multidões de cobras surucucus, jararacas e jibóias,
que o picarão ou engolirão vivo. Isso
significa que o homem se vê impossibilitado de
exercer a atividade que o define como adulto casado:
a caça.
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Outras restrições protegem o bebê:
os pais não tocam em espelhos e pentes, pois
isso lhe causaria febres e dores; não tocam em
couro de onça, ou sua pele ficaria manchada.
Evitam-se esforços que possam repercutir na criança:
carregar peso, pilar milho, derrubar árvores.
As restrições de ingestão
de substâncias são mais numerosas. Os pais
não podem cozinhar, nem comer coisas muito quentes.
A mãe não pode fumar; o pai só
o faz através de um chumaço de algodão.
A maioria dos interditos imediatamente em vigor após
o parto, como o que incide sobre a carne de jaboti vermelho,
visa proteger a saúde dos pais; os interditos
de longa duração, ao contrário,
protegem a criança. Assim, a carne de vários
animais só pode ser consumida por seus pais quando
a criança já começou a "rir"; outras,
só depois que ela começou a andar. As
fêmeas grávidas de animais não são
comidas até que a criança tenha uns três
anos (as mulheres grávidas podem comê-las,
entretanto).
O consumo dessas carnes proibidas, e certas
ações como cozinhar ou fumar, acarretariam
o hapi, a "queima" da criança. Trata-se
de uma espécie de combustão interna que
se manifesta como febre, dessecamento e emagrecimento
rápido do bebê. A idéia subjacente
parece ser a de que o recém-nascido é
um ser volátil, que deve ficar longe do contato
com coisas quentes. Não se pode também
pintá-lo de urucum, ou sua pele descascaria como
se sapecada no fogo.
O sexo e a cauinagem são as proibições
mais estritas. Ambas as coisas só podem ser feitas
após a criança começar a engatinhar
(diziam-me os pais) ou a andar (diziam-me as mães).
Antes disso - e mesmo depois, se o pajé não
fechar o seu corpo -, ela morreria em meio a convulsões
e vômitos. A abstinência sexual parece ser
mais demorada para a mãe que para o pai: este,
após alguns meses, pode procurar sua apihi
"para se esfriar". As ações da mãe
são mais diretamente nocivas à criança,
que está sempre colada a ela; são as mães
que se preocupam em pedir que algum pajé feche
o corpo de seus filhos. A razão disto é
que elas os amamentam. Para o leite passa tudo que entra
no corpo da mãe - o sêmen inclusive. Passa
também, como vimos, o afeto: os homens sempre
visitam a casa natal, as mulheres se recusam a casar
virilocalmente, "porque nunca se esquece o leite tomado".
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Com duas semanas de nascidas, as crianças
começam a comer cará, batata e banana
mastigados pela mãe. Mandioca, milho, outras
frutas e carne só são introduzidos na
dieta quando elas já estão "prontas" (aye),
isto é, quando já demonstram "consciência".
É então que recebem o nome, e podem ser
pintadas de urucum: já são completamente
humanas.
A noção de "ter consciência"
- tradução mais geral do verbo ka'aki
-define o grau de humanidade dos infantes. Ela não
se confunde com o falar, pois lhe é cronologicamente
anterior. Parece designar a capacidade da criança
responder a estímulos comunicativos; o principal
sinal disso é o riso. Se um bebê morre
antes de manifestar consciência, mesmo seus pais
o chorarão pouco.
Por alguns anos, a pessoa da criança
não está inteiramente estabilizada. Sua
imagem vital (î) desprende-se com facilidade
do corpo, especialmente devido à cobiça
de Iwikatihã, o Senhor do Rio. Crianças
até quatro anos são freqüentemente
submetidas ao imone, quando o pajé traz
de volta a alma errante e a consolida no corpo.
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Embora haja esta preocupação em
espacejar os nascimentos, ter filhos é um valor
essencial. As crianças são adoradas e
mimadas por toda a aldeia; mulheres e homens disputam
o privilégio de passear com o recém-nascido
ao colo. Se uma mulher morre deixando uma criança
de peito, outras se incumbem de amamentá-la.
Dos três anos em diante, quando começam
a ter autonomia de movimentos, as crianças são
referidas como ta'i oho, "filhotes grandes",
ou como "homenzinhos" e "mulherzinhas". Entre os sete
e onze anos, os meninos são classificados como
piri ači,
"gente verde (não-madura)". Nessa fase, saem
para caçar e pescar nas redondezas, e acompanham
os pais nas expedições de caça.
Começam também a erguer suas casinhas
ao lado das dos pais. Por volta dos doze anos, decide-se
que é tempo de se lhes amarrar o prepúcio;
o pênis já está "cheio" e a glande
pode-se desnudar, o que é motivo de vergonha.
A partir dos doze anos, os rapazes iniciam uma
longa série de casamentos tentativos, com meninas
de sua idade ou pouco mais velhas. Até os quinze
anos, mais ou menos, relutam muito em casar, só
o fazendo quando não há um adulto disponível
que possa tirar da casas dos pais uma menina em idade
de menstruar. As meninas então se mudam para
as casinhas dos rapazes. esses ensaios de casamento
não duram, em geral, mais que algumas poucas
semanas.
A partir dos quinze anos, os homens são
classificados como pira'i oho ("filho
grande de gente"), termo que segue descrevendo todos
os homens que ainda não têm filhos casados.
O segmento mais jovem dessa categoria é turbulento
e empreendedor; dele saem numerosos tenotã
mõ de caçadas e expedições
de guerra. O segmento mais velho da categoria abriga
vários pajés. Entre os quinze e vinte
anos, os homens comprometem-se em casamentos mais sérios,
mas não menos instáveis que o dos meninos.
Raros são aqueles que não tiveram pelo
menos cinco esposas nessa fase. Eles se casam com moças
de sua idade e com mulheres bem mais velhas.
Os homens entre 30 e 50 anos são definidos
como "maduros" (dayi). Nessa
fase é que constituem família extensa,
atraindo genros e saindo da situação uxorilocal.
Dali em diante, são "velhos" (tapïnã).
Os homens maduros são um segmento influente,
especialmente quando líderes de setores residenciais
e quando pajés.
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Os anciões araweté não
dispõem de poder especial, mas tampouco são
marginalizados. Em 1982, os dois homens mais velhos
da aldeia ainda caçavam, tinham grandes roças,
e famílias que os apoiavam. Aya-ro (de uns 70
anos) ainda era um pajé ativo, mas cantava pouco;
seus serviços eram mais solicitados para o fechamento
do corpo de crianças e casos de mordedura de
cobra - operações que nem sempre envolvem
a presença dos Maï. Meñã-no,
o outro, já fora "deixado pelos Maï",
isto é, não mais cantava.
As meninas entre os sete e onze anos são
chamadas de kãñî na'i oho,
"mulher-criança". Muitas delas são entregues
a um velho ou deficiente físico que não
consegue arrumar esposa adulta. Esses 'criam' as meninas,
iniciando-as sexualmente. Uma menina não pode
menstruar pela primeira vez na casa de seus pais, ou
estes morrem de uma doença mística (o
ˆha'iwã) que atinge todo culpado de
faltas ligadas à sexualidade. Assim, precisam
arranjar marido logo. Sustenta-se, por outro lado, que
as mulheres só menstruam se previamente defloradas.
As moças pré-púberes não
devem comer ovos demais, ou terão partos múltiplos;
nem coração de jaboti, veado e outras
caças - peças que sangram muito -, ou
sua menstruação será abundante
e dolorosa. Sua liberdade sexual é considerável,
bem como sua capacidade de iniciativa nesses assuntos.
Quando ainda meninas, os pais não interferem
muito. Mas quando vão-se aproximando da puberdade,
o controle sobre seu comportamento aumenta: as moças
muito "andadeiras" (iatã
me'e) - aquelas que circulam em bandos alegres à
noite, à procura de diversão -são
temidas pelos genros prospectivos; os jovens maridos
são muito ciumentos de qualquer relação
extra-conjugal fora do sistema da amizade apihi-pihã.
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Da puberdade até os 30, 35 anos, as mulheres
estão na classe das kãñî
moko, "mulheres grandes". Casando-se muito cedo,
só vêm entretanto a ter filhos aos 18-20
anos. A mudança de vida após o nascimento
do primeiro filho é muito mais radical para a
mulher que para o homem. Ela deixa de ser um apêndice
da mãe, e volta-se para a própria casa;
deixa de pertencer ao bando turbulento de moças
solteiras, passando a adotar um comportamento reservado
e atento às necessidades do filho. De objeto
de ciúmes do marido, passa a ser quem controla
suas aventuras. As "donas de criança", mesmo
jovens, são respeitadas por todos, e a balança
da autoridade doméstica pende sensivelmente para
o lado feminino, após o primeiro filho.
As mães são muito ciosas de seus
filhos, tomando seu partido cegamente, mesmo quando
produzem estragos nas posses alheias, ou comportam-se
de modo intolerável à paz da aldeia. Por
outro lado, sua autoridade sobre as crianças
não é muito maior que a dos pais, e ambos
estão sempre ocupados em tentar conter os filhos.
Por volta dos 35 anos em diante, as mulheres
são classificadas como adultas (odï
mo-hi re, "crescidas"), e após a menopausa
como "velhas". Mulheres de meia-idade possuem enorme
influência na vida cotidiana. Um setor residencial
gira em torno da mulher mais velha, e é normalmente
identificado por seu nome. São essas mulheres,
mais que seus maridos, que disputam o destino pós-marital
dos jovens casais.
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