::01 |
 |
Depois de mais de duas décadas na mesma
aldeia, os Araweté se transferiram para um novo
local em outubro de 2001. Após tantos anos de
uso, a terra nos arredores da antiga aldeia ficou reduzida
a uma vasta capoeira; as roças ficaram a uma
distância considerada excessiva pelo grupo, e
a caça foi ficando cada vez mais difícil.
Ademais, a disposição de partir foi acirrada
por uma epidemia de varicela (doença virótica
popularmente conhecida como catapora) no segundo semestre
de 2000, que contaminou pelo menos 218 dos então
278 habitantes da aldeia, ocasionando nove mortes. De
acordo com depoimento de Benigno Marques (diretor da
Administração da Funai de Altamira) dado
ao ISA, a deformação física ocasionada
pela doença horrorizou o grupo, levando a um
ímpeto de dispersão, sendo necessária
uma incisiva atuação da Funai para evitar
que aqueles que ainda não apresentavam os sintomas
fugissem para a mata (onde não teriam condições
de tratamento, caso adoecessem).
Ainda segundo Marques, o impacto do surto foi
mais drástico pela ineficiência do convênio
da Funasa com a Prefeitura de Altamira, que contratou
profissionais sem experiência, os quais permitiram
que índios doentes retornassem às comunidades
e contaminassem os demais. Na mesma direção,
Tarcísio Feitosa (membro do CIMI) apontou a má
aplicação dos recursos do convênio
da Funasa pela Prefeitura, mencionando a precariedade
das instalações do posto de saúde
no Ipixuna e dos serviços odontológicos
e médicos disponibilizados no local.
Essa experiência trágica colaborou
para a mobilização no grupo no sentido
de constituir uma nova aldeia, o que foi possível
devido a um projeto da Cooperativa Campealta, da qual
participam os grupos indígenas da região
(Araweté, Parakanã, Asuriní, Arara
e Kararaô) - e que conta com atuação
de Benigno Marques e recursos da empresa de cosméticos
inglesa Bodyshop. Em outubro de 2001, houve a queimada
para o primeiro roçado na aldeia nova. Atualmente,
Marques comenta que os Araweté parecem estar
vivendo muito bem ali, com roças férteis
e amplas possibilidades de caça e pesca.
A organização política
do grupo continua com seu padrão difuso. Os Araweté
incorporaram, contudo, a categoria de "cacique", de
modo que Tatuavi (com idade entre 30 e 35 anos) não
exerce liderança interna, mas representa o grupo
na relação com os brancos e no movimento
indígena nacional.
O provimento de bens industrializados pela
Funai continua a ser precário, sendo em grande
parte complementado com recursos da Cooperativa, para
a qual os Araweté vendem castanha. Entre os projetos
dessa associação estão o fornecimento
de óleo de castanha para a Bodyshop, um "hotel
ecológico" construído no Rio Xingu e a
"farmácia verde", que inclui a comercialização
de fitoterápicos. A despeito da venda da castanha
e de algum artesanato, a principal fonte de renda dos
Araweté atualmente advém de aposentadorias.
::02 |
 |
Entre a população araweté,
o domínio de conceitos e aspectos fundamentais
da cultura envolvente - dinheiro, estado, propriedade,
tabus sexuais, divisão do trabalho, miséria,
herança escravocrata, dominação
- é extremamente precário. Isso não
significa que os Araweté não estejam,
pouco a pouco, ganhando experiência e competência
na cultura envolvente. A convivência com os funcionários
da Funai e da Funasa e suas famílias difunde
a língua e a cultura regional; várias
técnicas e habilidades novas vão sendo
incorporadas ao repertório do grupo (natação,
construção de canoas, conserto de motores,
novos cultígenos); o contato com antropólogos
e outros visitantes dá-lhes notícia do
mundo além do Xingu; a participação
em conferências promovidas pelo Cimi e em encontros
indígenas dá-lhes alguma perspectiva interétnica;
as viagens a Altamira para tratamento médico
- perigosas e penosas como são - vão paulatinamente
enriquecendo sua experiência do mundo dos brancos.
Para que esse processo se faça em condições
favoráveis, é necessária a implantação
de um programa consistente de ensino do português.
Tal programa de ensino deve ser formulado com grande
cautela e sensibilidade. Em particular, sou contrário
às tentativas de se introduzirem missionários
evangélicos fundamentalistas. Uma tentativa de
interferência missionária se deu em 1991,
quando o então administrador regional da Funai
quis levar a organização Alem (Associação
Lingüística Evangélica Missionária),
de orientação fundamentalista, "para avaliar
a situação da tribo no âmbito da
educação". Tal empreitada não se
efetivou naquela ocasião, mas Benigno Marques
informou ao ISA que, depois de um "bem sucedido projeto
de educação entre os Parakanã e
Asuriní", o convênio com a associação
está sendo estendido aos Araweté, mediante
a contratação de uma professora, sob coordenação
da ALEM.
Outra adversidade com a qual os Araweté
têm se havido desde a década de 80 são
as invasões de empresas madeireiras. Segundo
notícias publicadas em 3/5/2001 no Jornal
do Commercio (Manaus/AM) e O Liberal (Belém/PA),
um indivíduo foi preso por fazer parte de um
grupo de madeireiros que atuavam ilegalmente na área
desde 1996. Em março de 2001 ele foi acusado
de aliciar alguns Araweté, dando-lhes dinheiro
e prometendo armas para que eles permitissem a retirada
ilegal de madeira de suas terras. Nessa ocasião,
o Ibama passou a contar com apoio da ONG ambientalista
Greenpeace (entre outras) e, mediante um monitoramento
com helicópteros, apreenderam grande quantidade
de toras ao longo do rio Xingu, bem como apreenderam
o maquinário de madeireiras.
Desde então, Benigno Marques afirma
que a situação melhorou. Entretanto, em
abril de 2003, outro episódio chegou aos jornais.
Como publicado em O Liberal (12/04/03), um madeireiro
foi flagrado pelo Ibama extraindo mogno às margens
do Rio Xingu, defronte do território Araweté,
de onde parte da madeira tinha sido extraída.
::03 |
 |
O cerco aos índios por agentes da sociedade
nacional que desejam suas terras ou suas almas - as
madeireiras e os missionários evangélicos
- continua, e cada vez mais intenso. Assim, nossa sociedade,
que provocou a morte de pelo menos um terço de
sua população, que os apresentou de modo
desordenado e irresponsável a uma quantidade
de objetos não-produzíveis localmente,
que os confinou em um território de onde não
mais poderão sair sem pôr em risco a própria
sobrevivência física e cultural tem a obrigação
de assegurar aos Araweté o tempo e todas as demais
condições necessárias para que
eles mesmos definam os termos de seu intercâmbio
conosco.
|