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Em meados da década de 60, os Araweté
se deslocaram das cabeceiras do rio Bacajá, a
sudeste, em direção ao Xingu, no Estado
do Pará. Eles eram oficialmente desconhecidos
até o começo da década de 1970.
Seu 'contato' pela Funai data de 1976, quando buscaram
as margens do Xingu fugindo do assédio dos Parakanã,
outro grupo tupi-guarani.
É possível garantir que eles
moram há muitos anos, talvez alguns séculos,
na região de florestas entre o médio curso
dos rios Xingu e Tocantins. Embora fossem considerados,
até o contato em 1976, como "índios isolados",
o fato é que os Araweté conhecem o homem
branco há muito tempo. Sua mitologia se refere
aos brancos, e existe um espírito celeste chamado
"Pajé dos Brancos"; eles utilizam há muito
tempo machados e facões de ferro, que pegavam
em roças abandonadas de moradores 'civilizados'
da região; e sua tradição registra
vários encontros, alguns amistosos, outros violentos,
com grupos de kamarã na floresta.
A história dos Araweté tem sido,
pelo menos desde o início do século XX,
uma história de sucessivos conflitos com tribos
inimigas e de deslocamentos constantes. Eles saíram
do Alto Bacajá devido a ataques dos Kayapó
e dos Parakanã. Por sua vez, ao chegarem ao Ipixuna
e demais rios da região (Bom Jardim, Piranhaquara),
afugentaram os Asuriní ali estabelecidos, que
acabaram se mudando para o rio Ipiaçava, mais
ao norte. Em 1970, com a construção da
rodovia Transamazônica, que passava por Altamira
(a cidade mais próxima), o governo brasileiro
começou um trabalho de "atração
e pacificação" dos grupos indígenas
do médio Xingu. Os Araweté começaram
a ser notados oficialmente em 1969. Em 1971 a Funai
estabeleceu a "Frente de Atração do Ipixuna",
que manteve contatos esporádicos com os Araweté
até 1974, sempre sem conseguir visitar suas aldeias.
Nesta época o grupo vivia dividido em dois blocos
de aldeias, um mais ao sul, na bacia do Bom Jardim,
outro ao norte, no Alto Ipixuna.
Em janeiro de 1976, ataques realizados pelos
Parakanã levaram os Araweté de ambas as
regiões a procurar as margens do Xingu, resolvidos
a "amansar" (mo-kati ) os brancos
(pois eles não acham que foram 'pacificados'
pelos brancos, mas sim o contrário). A Funai
veio encontrá-los lá em maio daquele mesmo
ano, acampados precariamente junto às roças
de alguns camponeses, famintos e já doentes devido
ao contato com os brancos do "beiradão" (que
é como as terras da margem do Xingu são
chamadas pela população regional). Em
julho, os sertanistas da Funai decidem levar aquela
população doente e fraca em uma caminhada
pela mata até um Posto que havia sido construído
no Alto Ipixuna, próximo às antigas aldeias
do grupo. Foi uma caminhada de mais ou menos 100 km,
que durou 17 dias: pelo menos 66 pessoas morreram no
percurso. Com os olhos fechados por uma conjuntivite
infecciosa que haviam contraído no "beiradão",
as pessoas não enxergavam o caminho, se perdiam
na mata e morriam de fome; crianças pequenas,
subitamente órfãs, eram sacrificadas pelos
adultos desesperados; muita gente, fraca demais para
caminhar, pedia para ser deixada para morrer em paz.
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Não se sabe quantos começaram
a caminhada, mas apenas 27 chegaram junto com os sertanistas
que lideravam a marcha; o restante veio chegando aos
poucos. Alguns índios se desviaram, no caminho,
para as aldeias antigas, ali permanecendo algumas semanas;
mas logo um novo ataque parakanã fez toda a população
araweté que sobreviveu à caminhada e aos
inimigos se juntar no Posto da Funai. Em março
de 1977, o primeiro censo feito pela Funai contou 120
pessoas. Os Araweté me desfiaram os nomes de
77 pessoas que desapareceram no período entre
sua chegada no Xingu, em janeiro de 1976, e sua chegada
no Posto Velho, em julho daquele ano; três dessas
morreram no último ataque parakanã: 73,
portanto, foram vítimas do contato e da desastrosa
caminhada - 36% da população total à
época.
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Em 1978, os Araweté se mudaram, juntamente
com o Posto da Funai, para um sítio mais próximo
da foz do Ipixuna, onde residiram até 2001. Nos
primeiros anos, viver com os brancos não era
muito fácil. A interação entre
índios e funcionários da Funai se fundava
em uma série de mal-entendidos culturais, em
expectativas estereotipadas e em demandas contraditórias.
Era muito comum a emissão professoral de juízos
sobre o 'caráter' típico dos Araweté:
que eram preguiçosos, que passavam fome por descuido
e imprevidência (e no entanto a população
era visivelmente bem nutrida), que não eram solidários
entre si, que só falavam e pensavam em sexo (o
que era sublinhado, na verdade, por ser um dos únicos
assuntos em que a vida dos índios interessava
os brancos); e assim por diante. Havia toda uma série
de procedimentos de 'infantilização' dos
índios, pequenos ritos de degradação,
como os exames médicos em público, censuras
sobre a 'pouca higiene' de certas práticas tradicionais,
o costume de se lhes pôr apelidos pejorativos.
Só ouvi serem elogiados pelo temperamento cordato,
alegre e (deveras!) paciente. Mas na verdade tudo isso
não era apenas (às vezes, de forma alguma)
uma questão de 'má vontade' ou de brutalidade
desse ou daquele funcionário. Havia um sistema;
esse era o modo de articulação entre índios
e brancos.
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Os Araweté dependiam então, como
dependem mais ainda hoje, de uma série de bens
e serviços oferecidos pelo Posto: combustível,
sal, fósforos, panelas, roupas (para os homens),
sabão, pilhas, lanternas, facas, machados, facões,
ferramentas, tesouras, pentes, espelhos, açúcar,
óleo de cozinha, espingardas, munição,
remédios.
Em meados de 1988, os Araweté e o chefe
do Posto (Benigno Marques, hoje diretor da Administração
da Funai de Altamira) encontraram e apreenderam uma
grande quantidade de mogno que havia sido derrubada
em suas terras por duas companhias madeireiras. Após
uma nebulosa negociação da Administração
da Funai em Altamira com estas madeireiras, os Araweté
e os Parakanã - isto é, o PI Ipixuna e
o PI Apyterewa - acabaram recebendo, em janeiro de 1989,
uma razoável quantidade de dinheiro à
guisa de 'indenização' pela madeira roubada.
Embora a maior parte do dinheiro tenha sido
confiscada pelo Governo Collor em março daquele
ano, os três meses em que ele esteve disponível
foram suficientes para uma mudança radical nas
condições do sistema Posto/aldeia. Por
um lado, várias melhorias importantes foram feitas
no equipamento do Posto Indígena: nova enfermaria,
motores para transporte e geração de energia,
a aquisição de um barco com alta capacidade
de carga, ferramentas etc. Por outro lado, os Araweté
passaram a ter um acesso bastante amplo a uma quantidade
de mercadorias que antes eram de obtenção
difícil, demorada e limitada. Proliferaram as
espingardas, panelas, machados, lanternas, pilhas, roupas,
tabaco…
A partir de meados de 1989, a situação
começou a piorar, com o confisco da caderneta
de poupança 'dos Araweté'. Nessa época,
um médico italiano, Aldo Lo Curto, encantou-se
pelo grupo e passou a investir na área alguns
dos recursos que levanta em seu país de origem,
por meio de palestras e exposições sobre
os índios brasileiros. Isso permitiu a contratação
de uma enfermeira e de uma professora, e a compra de
alguns equipamentos para o posto. Mas a manutenção
da pauta de consumo do grupo, elevada após a
entrada do dinheiro da madeira, permaneceu um problema.
Com a aguda recessão do período Collor,
e especialmente com o desmonte da máquina administrativa
federal, a Funai mergulhou em uma situação
de insolvência. Com isso, os Araweté ficaram
reduzidos à ajuda de Lo Curto e a arranjos de
emergência entre a chefia do PI Ipixuna e a Funai
de Altamira. Começaram a faltar alguns itens
essenciais, como remédios, combustível
e munição. Essa foi a situação
que encontramos em 1991, quando visitei o Ipixuna, junto
com a equipe do Cedi.
Os Araweté perdidos
Em setembro de 1987, os Kayapó-Xikrin
da aldeia Cateté, a centenas de quilômetros
a sudeste do Ipixuna, do outro lado da Serra dos Carajás,
atacaram um pequeno grupo de índios desconhecidos,
matando um homem e um menino, capturando duas mulheres
e outro menino pequeno. Um médico da FUNAI que
visitava a aldeia do Cateté reconheceu a pele
branca e os olhos castanho-claros dos Araweté,
bem como os característicos brincos de pena usados
pelas mulheres. Logo se soube que um homem mais velho
havia permanecido na mata, tendo conseguido fugir do
ataque. Avisados pelo rádio, os Araweté
mandaram dois emissários (e o chefe do PI Ipixuna)
para resgatar seus parentes perdidos, sem terem a menor
idéia de quem poderiam ser. As negociações
foram complicadas; os Xikrin exigiram vários
bens em troca dos prisioneiros, mas no fim tudo se resolveu.
Em seguida, os Araweté foram em busca do velho.
Logo o encontraram; no começo ele resistiu a
qualquer aproximação, atirando flechas
contra o pequeno grupo de resgate. Finalmente, contudo,
terminou por reconhecer a língua e se deixou
aproximar. Ele e os cativos dos Xikrin foram levados
para o Ipixuna para se juntar ao resto dos Araweté.
Na aldeia o mistério se esclareceu.
Eles eram os sobreviventes do grupo de Iwarawï
(o velho), que tinha se separado do resto da tribo há
cerca de 30 anos atrás nas cabeceiras do Bacajá,
quando Iwarawï ainda era um rapaz. Durante um ataque
kayapó, ele fugiu para a mata com uma moça
- filha da irmã de sua mãe - e com dois
meninos pequenos, seus sobrinhos. Os Araweté
acharam que eles haviam sido mortos ou capturados pelos
Kayapó. Na verdade, eles haviam se perdido do
resto da tribo, que fugira dos Kayapó na direção
oposta, em direção às águas
do Ipixuna. Iwarawï e sua irmã (no parentesco
araweté, a filha da irmã da mãe
é chamada de "irmã"), sozinhos, foram
obrigados a casar; tiveram duas filhas, que se casaram
com os dois meninos que haviam fugido também.
Estas pessoas viveram completamente isoladas durante
30 anos, como uma miniatura da sociedade araweté.
Era uma vida muito dura, sempre fugindo ao menor sinal
de inimigos: sem tempo para esperar o algodão
crescer, as mulheres substituíram sua roupa tradicional
por saias de casca de árvore; precisando estar
sempre mudando de acampamento, nem sempre podiam plantar
e colher milho, dependendo de farinha de coco-babaçu
para sua alimentação.
Em fevereiro de 1988, Iwarawï foi levado
a Altamira para se tratar de uma grave pneumonia que
havia contraído logo após o contato. As
duas mulheres, suas filhas, casaram-se na aldeia: Mitãñã-kãñî-hi
e seu filho foram viver com um viúvo; Pïdî-hi,
respectivamente mulher e mãe do homem e do menino
mortos pelos Xikrin, casou-se com um primo solteiro.
Embora cercados por seus parentes próximos da
aldeia, esses sobreviventes custaram a se acostumar
à nova situação. Os outros Araweté
os achavam estranhos: falavam com um sotaque estranho,
haviam esquecido muitos dos usos e costumes tribais.
Enquanto Iwarawï estava em Altamira, suas armas
ficaram guardadas na aldeia, e eram mostradas a todos.
Seu largo arco, todo furado de chumbo das espingardas
kayapó - ele o usara como escudo durante o ataque
- havia morto muitos inimigos, índios e kamarã,
durante aqueles trinta anos. Suas flechas eram estranhas:
tortas, sujas, com uma emplumação diferente
da tradicional. Examinando estas armas, um ancião
da aldeia declarou: "é, Iwarawï estava quase
se transformando em inimigo, estava esquecendo nosso
modo de ser…"
As filhas e o neto de Iwarawï estão
hoje completamente integrados à vida dos Araweté.
Iwarawï morreu afogado nas águas do Xingu,
em um estúpido acidente de barco, em agosto de
1988. Ele não teve tempo de voltar a viver com
seus parentes perdidos.
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