Os Araweté possuem uma cultura material
bastante simples, dentro do horizonte tupi-guarani.
Isso se pode explicar, em parte, pelo estado constante
de alarme e fuga diante de inimigos a que esse povo
esteve sujeito nas últimas décadas; e
em parte, pelo trauma do 'contato'.
Os homens araweté têm barba espessa,
que costumam deixar crescer em cavanhaque; andavam nus,
com apenas um cordão amarrando o prepúcio.
As mulheres trazem um costume de quatro peças
tubulares (cinta, saia, tipóia-blusa e um pano
de cabeça), tecido de algodão nativo e
tingido de urucum. Elas portam brincos feitos de peninhas
de arara dispostas em forma de flor, pendentes em linhas
em que são enfiadas sementes de iñã
(Cardiospermun halicacabum), bem como colares
dessa mesma conta. Os homens usam os mesmos brincos,
porém mais curtos. O cabelo é cortado
em franja reta na testa até a altura das orelhas,
de onde cresce até a nuca dos homens e a espádua
das mulheres.
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A tintura e a cor básica dos Araweté
é o vermelho-vivo do urucum, com que cobrem os
cabelos e o corpo, untando-os uniformemente. No rosto,
porém, podem traçar apenas uma linha horizontal
na altura das sobrancelhas, uma vertical ao longo do
nariz, e uma diagonal de cada orelha às comissuras
labiais. Esse padrão é também usado
na decoração festiva, quando é
traçado em resina perfumada e recoberto com as
penas minúsculas de cotingas de plumagem azul
brilhante. A plumagem do gavião-real é
grudada nos cabelos.
A despeito de ter uma cultura material austera,
os Araweté fabricam três objetos tecnicamente
muito elaborados, e que além disto lhes são
exclusivos, não possuindo análogos exatos
em nenhum outro grupo tupi-guarani: o arco, o chocalho
aray do pajé, a vestimenta feminina.
O arco (irapã) araweté
é feito de ipê (tayipa, Tabebuia
serratifolia), e é mais curto, curvo e largo
que a maioria dos arcos indígenas brasileiros.
Cada tronco de tayipa pode servir à fabricação
de vários arcos. A madeira era trabalhada com
ferramentas de osso e pedra (agora, com machados e facões
de aço), e é aplainada com um formão
feito de dente de cotia, lixada com uma folha áspera
até ficar completamente lisa, e por fim cuidadosamente
aquecida no fogo e vergada até ganhar a forma
adequada. Usa-se o leite do coco-babaçu, ou a
gordura das larvas que vivem nessa palmeira, para tornar
a madeira mais fácil de curvar. A corda do arco
é feita de fibra de curauá, uma bromeliácea
cultivada (Neoglaziovia variegata).
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Os Araweté usam três tipos de flecha
(o'i): uma para caça grossa, com ponta
de taquaruçu (Guadua sp.) e emplumada
com penas caudais de gavião-real; e duas para
pássaros, peixes e mamíferos pequenos,
com pontas de osso de guariba ou de pau farpeado, emplumadas
com penas caudais de mutum. A haste das flechas é
feita de dois tipos de bambu Guadua sp. ou Merostachys
sp.). Usam-se cera de abelha e fios de algodão
para a fixação das pontas e das penas.
Peninhas de tucano, arara ou cotinga são amarradas
na base das flechas à guisa de enfeite.
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O chocalho aray de pajelança
é um cone invertido trançado de talas
de arumã (Ischnosiphon sp.), recoberto
de fios de algodão até deixar apenas a
parte superior - que é a base do cone - exposta.
Um floco de algodão forma um 'colarinho' em volta
da parte descoberta; ali se inserem quatro ou cinco
penas caudais de arara-vermelha, dando ao objeto a aparência
de uma tocha flamejante. Pedaços da concha de
um caramujo do mato são colocados dentro do cone
trançado. O aray produz um som chiante
e contínuo; ele é usado pelos pajés
para acompanhar os cantos de Maï
e para realizar uma série de operações
místicas e terapêuticas: trazer os deuses
e almas de mortos à terra para participarem das
festas, reconduzir a alma perdida de pessoas doentes,
ajudar no tratamento de ferimentos e picadas de animais
venenosos.
Durante a fabricação do arco,
um homem não deve ter relações
sexuais com a esposa, ou a peça de madeira quebraria.
O chocalho, em troca, tem seu corpo de arumã
trançado pelas mulheres, e a cobertura de algodão
imposta pelos homens. Mas uma vez pronto, o aray
não pode ser usado pelas mulheres; instrumento
muito poderoso, ele evoca os Maï,
que poderiam quebrar o pescoço da mulher que
ousasse chamá-los. Nessa sociedade, só
os homens são pajés.
Todo homem araweté, desde a adolescência,
possui seu arco e flechas; usa essas armas não
só para caçar e pescar, como passeia freqüentemente
com elas pela aldeia, e as carrega orgulhosamente durante
as danças da festa do cauim. Por sua vez, todo
homem casado possui um chocalho aray; embora
este seja o instrumento por excelência dos pajés,
não há adulto que não tenha ao
menos uma vez na vida cantado à noite, após
ter visto os Maï em sonho. Todo homem
é um pouco pajé, dizem os Araweté,
e pode realizar pequenas curas e cantar suas visões;
mas apenas alguns, os verdadeiros peye, são
capazes de trazer os Maï e as almas
dos mortos para as grandes festas, ou reconduzir as
almas dos viventes que tenham sido capturadas pelos
Maï ou outros espíritos. O
aray é um símbolo do status
de homem casado e com filhos; aray ñã,
"senhores do chocalho", é um dos epítetos
que designa a parte masculina adulta da sociedade araweté.
O aray é mais especificamente um emblema
da sexualidade masculina: um dos apelidos jocosos dados
às mulheres é "quebradoras do chocalho",
evocando o fato de que, quando têm relações
sexuais com elas, os homens ficam com sono e não
cantam à noite - o chocalho se "quebra", isto
é, fica mudo-, e sugerindo que o aray
é um símbolo fálico.
O aray é o único objeto
de propriedade masculina que não pode ser herdado
por ninguém, após a morte de seu possuidor;
ele deve ser queimado. Ele parece assim ser um objeto
pessoal e intransferível, dotado de valores simbólicos
profundos.
Esse caráter sexualmente marcado, pessoal
e íntimo do aray tem um análogo
entre os objetos femininos: a cinta interna, usada por
todas as mulheres após a puberdade, também
não pode ser herdada por ninguém, ao contrário
das peças externas. A roupa tradicional das mulheres
araweté é composta de quatro peças:
esta cinta (ii re, "peça de dentro"),
pequena peça tubular de lona grossa de algodão
de cerca de 25 cm. de comprimento, que cobre o púbis
e a parte superior das coxas, cingindo-as estreitamente
e dando às mulheres um andar peculiar; uma saia
de cima (tupãy piki,
"veste longa"), de trama mais aberta; uma larga tipóia
(potïnã nehã, "peitoral")
para carregar as crianças, mas que é usada
mesmo por jovens sem filhos; e um pano de cabeça
(dačî nehã, "chapéu"),
peça tubular como as demais vestimentas femininas,
com a mesma trama aberta da saia e da tipóia.
As vestes femininas são tecidas em teares simples
- dois talos de folhas de babaçu fincados perpendicularmente
no chão - e tingidas com urucum. Elas consomem
uma grande quantidade de algodão; assim como
os homens passam boa parte de seu tempo fabricando e
reparando suas armas, as mulheres dedicam muitas horas
do dia ao processo de produção dos fios
de algodão para as roupas e as redes. Há
sempre alguém na aldeia tecendo uma peça
de roupa ou uma rede.
Desde pequenas as mulheres usam a saia externa;
por volta dos sete anos, costumam trazer também
a tipóia e por vezes o pano de cabeça.
A cinta é imposta a partir da primeira menstruação-
uma de suas funções é absorver
o sangue menstrual-, e nunca deve ser retirada na frente
de outros homens que não o marido ou o namorado,
e mesmo assim apenas para o ato sexual. Mesmo entre
as mulheres, as normas do pudor pedem que não
se fique ereta sem estar usando a cinta: no banho coletivo
das mulheres, estas ficam em geral agachadas, quando
estão fora d'água. Os homens manifestam
um pudor análogo em retirar o cordão do
prepúcio diante de outrem: a nudez para os Araweté
é, assim, a ausência da cinta feminina
ou do cordão peniano.
A cinta é um objeto de forte conotação
sexual, como o aray. O arco não é
menos marcado sob esse aspecto. Já mencionamos
que sua fabricação impõe a abstinência
sexual do homem, como se a sublinhar a natureza fálica
do objeto. Mais que isto, a palavra para "arco", irapã
(que significa hoje "arma" em geral: arco, espingarda,
revólver), designa também os orgãos
sexuais masculinos e femininos- cada sexo tem suas "armas",
o pênis e a vagina. É interessante portanto
observar que os três objetos araweté mais
elaborados, dos pontos de vista técnico e simbólico,
possuem uma referência à sexualidade humana.
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