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No começo os humanos (bïde)
e os deuses (Maï) moravam todos juntos.
Esse era um mundo sem morte e sem trabalho, mas também
sem fogo e sem plantas cultivadas. Um dia, insultado por
sua esposa humana, o deus Aranãmi decidiu
abandonar a terra. Acompanhado por seu sobrinho Hehede'a,
ele tomou seu chocalho de pajé e começou
a cantar e a fumar. Cantando, fez com que o solo de pedra
onde estavam subisse às alturas. Assim se formou
o firmamento: o céu que se vê hoje é
o lado de baixo dessa imensa placa de pedra. Junto com
Aranãmi e seu sobrinho subiram dezenas de
outras raças divinas: os Maï hete,
os Awerikã, Marairã, Ñã-Maï,
Tiwawi, Awî Peye,
Moropïnã. Os Iwã Pïdî
Pa subiram ainda mais alto, formando um segundo céu,
o "céu vermelho".
A separação do céu e da
terra causou uma catástrofe. Privada de suas
fundações de pedra, a terra se dissolveu
sob as águas de um dilúvio: o jacaré
e a piranha monstruosos devoravam os humanos. Apenas
dois homens e uma mulher conseguiram se salvar, subindo
num pé de bacaba. Eles são os tema
ipi, a "origem da rama": os ancestrais da humanidade
atual. Na convulsão provocada pelo dilúvio,
alguns Maï procuraram escapar dos
monstros afundando na água e criando o mundo
inferior, onde habitam hoje, em ilhas de um grande rio
subterrâneo.
As marcas da divisão do cosmos estão
em toda parte: os morrotes de pedra que pontuam o território
araweté são fragmentos do céu que
se ergueu; as pedras do igarapé Ipixuna ainda
guardam as pegadas dos Maï; as moitas
de banana-brava espalhadas na mata são as antigas
roças dos deuses, que comiam dessa planta antes
de conhecer o milho. As plantas cultivadas e a arte
de cozinhar os alimentos foram reveladas aos humanos
e aos deuses por um pequeno pássaro vermelho
da floresta.
Bïde, os humanos, são chamados
pelos Araweté de "os abandonados", os que foram
deixados para trás pelos deuses. Tudo que há
em nosso mundo do meio é o que foi abandonado;
para os céus foram os maiores animais, as melhores
plantas, a mais bela gente - pois os Maï
são como a gente, porém mais altos,
mais fortes e imponentes. Tudo no céu é
feito de pedra, imperecível e perfeito: as casas,
as panelas, os arcos, os machados. A pedra é,
para os deuses, maleável como o barro para nós.
Lá ninguém trabalha, pois o milho se planta
sozinho, as ferramentas agrícolas operam por
si mesmas. O mundo celeste é um mundo de caçadas,
danças, festas constantes de cauim de milho;
seus habitantes estão sempre esplendidamente
pintados de jenipapo, adornados com penas de cotinga
e arara, perfumados com a resina da árvore ičiri'i
(Trattinickia rhoifolia).
Mas os Maï são, acima
de tudo, imunes à doença e à morte:
eles levaram consigo a ciência da eterna juventude.
O exílio dos deuses criou a condição
de tudo que é terrestre: a submissão ao
tempo, isto é, o envelhecimento e a morte. Mas,
se partilhamos dessa comum condição mortal,
distinguimo-nos dos demais habitantes da terra por termos
um futuro. Os humanos são "aqueles que irão",
que reencontrarão os Maï no
céu, após a morte. A divisão entre
o céu e a terra não é intransponível:
os deuses falam com os homens, e os homens estarão
um dia à altura dos deuses.
A morte
A relação entre a humanidade e
os deuses, os Maï, é o eixo
da religião araweté. Os humanos e os Maï
são ligados por relações de
afinidade - pois as almas dos mortos casam-se com os
deuses - e por um sistema ritual de oferendas alimentares.
Os Maï podem (e finalmente irão)
aniquilar a terra, fazendo o céu desmoronar.
Toda morte tem como causa final a vontade dos Maï,
que são concebidos como, ao mesmo tempo, Araweté
ideais e canibais perigosos. Entre as dezenas de espécies
de Maï, cuja maioria possui nomes
de animais, a mais importante são os Maï
hete ("deuses verdadeiros"), que transformam as
almas dos mortos em seres imortais, após uma
operação canibal. Há ainda os Añi,
seres selváticos e brutais que habitam a superfície
terrestre, que invadem as aldeias e devem ser mortos
pelos pajés. E há o temido Iwikatihã
(Senhor do Rio), um poderoso espírito subaquático
que rapta as almas de mulheres e crianças.
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Os peye (pajés ou xamãs)
são os intermediários entre os humanos
e a vasta população sobrenatural do cosmos.
Sua atividade mais importante é a condução
dos Maï e das almas dos mortos à
terra, para participar dos banquetes cerimoniais. Esses
banquetes cerimoniais são festas em que alimentos
produzidos coletivamente são oferecidos aos visitantes
celestes antes de serem consumidos pelos humanos. Os
alimentos rituais mais importantes são: jabotis,
mel, açaí, macacos guaribas, peixes e
o mingau alcoólico (cauim) de milho. A festa
do cauim é o clímax da vida ritual araweté,
e combina simbolismos religiosos e guerreiros. O líder
das danças e cantos que acompanham o consumo
do cauim é idealmente um grande guerreiro, que
aprendeu as canções da boca dos espíritos
de inimigos mortos.
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O canto é o núcleo da vida cerimonial.
A "música dos deuses" cantada pelos pajés
e a "música dos inimigos" cantada pelos guerreiros
são os dois únicos gêneros musicais
araweté. Em ambas modalidades de canto, trata-se
sempre de ouvir as palavras dos 'outros', deuses e inimigos,
citadas através de fórmulas retóricas
muito complexas.
Os mortos são enterrados em caminhos
abandonados na floresta. A morte divide a pessoa em
dois aspectos antagônicos: um espectro terrestre
associado ao corpo e aos espíritos Añi,
e uma alma ou princípio vital celeste associado
à consciência e aos Maï.
O espectro assombra os vivos enquanto o corpo se decompõe,
até que retorna à aldeia natal do finado
e ali desaparece. Uma morte provoca a imediata dispersão
da população da aldeia na floresta, dispersão
que dura o tempo da decomposição do cadáver.
A alma celeste é morta e devorada pelos Maï
ao chegar ao céu, sendo então ressuscitada
mediante um banho mágico que a transforma em
um ser divino e eternamente jovem. As almas dos mortos
recentes vêm freqüentemente à terra
nos cantos dos pajés, falar com os parentes e
narrar as delícias do Além. Após
duas gerações elas cessam seus passeios,
pois ninguém mais na terra recorda-se delas.
A condição de guerreiro é a única
que torna desnecessária a transubstanciação
canibal no céu; os matadores de inimigo, fundidos
em espírito com suas vítimas, gozam de
um estatuto póstumo especial.
Os Pajés
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Quem passar um tempo entre os Araweté
não deixará de se surpreender com o contraste
entre a vida diurna e noturna da aldeia. Durante o dia,
'nada acontece' - há, é claro, as caçadas
e pescarias, as tumultuadas refeições
coletivas, as intermináveis conversas nos pátios
familiares ao cair da tarde, a eterna faina do algodão
e do milho; mas tudo parece se fazer de um jeito descuidado,
ao mesmo tempo errático e monótono, alegre
e distraído. Toda noite, porém, madrugada
adentro, ouve-se emergir do silêncio das casas
um vozear alto, ora exaltado, ora melancólico,
mas sempre austero, solene e às vezes, para ouvidos
estrangeiros, algo sinistro. São os homens, os
pajés cantando o Maï marakã,
a música dos deuses. Certas noites, três
ou quatro pajés cantam ao mesmo tempo, ou sucessivamente,
cada um sua própria visão - pois tais
cantares são a narrativa do Maï
dečã, a visão dos deuses. Às
vezes é apenas um: sempre começando por
um trautear suave e sussurrado, vai erguendo progressivamente
a voz, cuja articulação entrecortada se
desenha contra o fundo chiante do chocalho aray,
até atingir um patamar de altura e intensidade
que se mantém por mais de uma hora, para ir então
lentamente descaindo às primeiras luzes da aurora
- a "hora em que a terra se desvela", como se diz em
araweté - até retornar ao silêncio.
Ocasionalmente (o que significa uma ou duas vezes por
semana, para cada pajé em atividade), o clímax
da canção-visão traz o pajé
para fora de sua casa, até o pátio. Ali,
dança curvado, com o charuto e o aray,
batendo fortemente o pé direito no chão,
ofegante, sempre cantando - é a descida à
terra das divindades e das almas dos mortos, trazidas
por ele, o pajé, de sua viagem ao mundo celeste.
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Os Maï e os mortos são
música, ou músicos: marakã me'e.
Seu modo de manifestação essencial é
o canto, e seu veículo é o peye,
pajé. Um pajé é chamado Maï
de ripã, "suporte
das divindades", ou ha'o we moñîña,
"cantador das almas". Não há iniciação
ou "chamado" formais à pajelança. Certos
sonhos, se freqüentes, podem indicar uma vocação
de pajé, especialmente os sonhos com onças
e com a "Coisa-Onça", um Maï bastante
perigoso. Mas mais que alguém que sonha, um pajé
é alguém que fuma: petî ã
î, "não-comedor-de-tabaco", é
o modo usual de se dizer que um homem não é
pajé. O tabaco é o emblema, o instrumento
de fabricação e de operação
do pajé. O treinamento para pajé consiste
em um longo ciclo de intoxicações por
tabaco, até que o homem mo-kiyaha,
"faça-se translúcido", e os deuses "cheguem"
até ele.
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O tabaco é onipresente na vida araweté
- homens, mulheres e crianças fumam. Os charutos
de 30 cm, feitos de folhas de tabaco secas ao fogo e
enroladas em casca da árvore tauari, são
uma coisa social por excelência. O primeiro gesto
de recepção a um visitante é a
oferta de uma baforada no charuto da casa, aceso expressamente
para isso, e após uma refeição
coletiva o charuto corre de mão em mão.
Jamais se pode recusar um pedido de tabaco, e jamais
se fuma sozinho (exceto durante a pajelança -
mas aí se está a dividir o charuto com
os deuses). Mas se todos fumam, apenas alguns homens
são "comedores de fumo"- os pajés. A fumaça
de tabaco é um dos principais instrumentos terapêuticos
dos pajés: ela é soprada sobre picadas
e machucaduras, e também serve para reanimar
os desfalecidos. No céu, os Maï
sopram fumo de tabaco sobre os mortos para revivê-los.
Ao lado do fumo, o emblema principal do pajé
é o chocalho aray. Todo homem casado,
como vimos, possui um aray. Ele pode ser usado
por "não-comedores-de-tabaco" como instrumento
para pequenas curas, e para acompanhar os cantos noturnos
de homens que, mesmo sem serem considerados peye,
vêem de vez em quando os Maï em sonho.
Isso significa que todo homem adulto é um pouco
pajé. Ser peye não é um
papel social ou uma profissão, mas uma qualidade
ou atributo de todo adulto, que pode ser mais ou menos
desenvolvido. Alguns homens realizam tal potencial mais
plenamente que outros, e são esses que são
conhecidos como peye.
O aray é o instrumento transformador
por excelência. "Dentro do aray" ou "por
meio do aray" é a explicação
lacônica e auto-evidente para qualquer indagação
sobre como, onde e por que se realizam as operações
de ressurreição e metamorfose narradas
nos mitos, ou o consumo espiritual dos alimentos pelos
Maï quando estes vêm à
terra comer nos festins oferecidos pelos humanos, ou
as operações terapêuticas de reassentamento
da alma e fechamento do corpo executadas pelos pajés.
O aray é o receptáculo de forças
ou entidades espirituais: as almas perdidas de crianças
e mulheres são trazidas de volta dentro do aray
até a sua sede corporal, por ocasião do
tratamento chamado imone, freqüentemente
realizado pelos pajés.
Com tal equipamento - tabaco, chocalho -, o
pajé araweté está capacitado a
realizar diversas operações de prevenção
e cura, que são semelhantes às terapêuticas
típicas da América indígena: fumigação
com tabaco; sopro resfriador; sucção de
substâncias ou princípios patogênicos
(empregada nas mordidas peçonhentas e na extração
das flechas invisíveis que certos alimentos contêm);
e as operações de fechamento do corpo
e de recondução da alma. Os maiores pacientes
dos pajés nessas duas últimas operações
são as crianças pequenas e as mulheres:
as primeiras porque ainda têm a alma mal-assentada
e o corpo aberto; as segundas porque são o objeto
principal da cobiça dos espíritos extratores
de almas (vários espíritos terrestres
têm este poder maligno) e dos Maï.
O pajé, este comedor de fumo e "senhor
do aray" (outro modo de se o designar), é
um suporte dos Maï, as divindades
que cantam por sua boca. Cantar a "música dos
deuses" é a atividade mais freqüente dos
pajés, independendo de situações
de crise ou de doença. Não há homem
adulto que não tenha cantado ao menos uma vez
na vida; mas são peye apenas aqueles que
costumam cantar quase toda noite.
A música dos deuses é a área
mais complexa da cultura araweté. Única
fonte de informação sobre o estado atual
do cosmos e a situação dos mortos no céu,
ela é o rito central da vida do grupo. "O pajé
é como um rádio", os Araweté costumavam
me explicar. Com isto estão dizendo que ele é
apenas um veículo, isto é, que o sujeito
da voz que canta está alhures, não dentro
do pajé. O pajé não incorpora as
divindades e mortos, ele canta-conta o que ouve destes.
Um pajé encena ou representa os deuses e os mortos,
mas não os encarna: a pajelança araweté
não é uma possessão. Um pajé
tem consciência do que cantou durante seu 'transe',
e sabe o que se passa à sua volta enquanto está
a cantar.
Tipicamente, há três posições
enunciativas na música dos deuses: um morto,
os Maï, o pajé. O morto é
o principal enunciador, transmitindo ao pajé
o que disseram os Maï. Mas o que
os Maï disseram é quase sempre
algo dirigido ao morto ou ao pajé, e referente
ao morto, ao pajé ou a eles mesmos. A forma normal
da frase é assim uma construção
polifônica complexa: o pajé canta algo
dito pelos deuses, citado pelo morto, referente a ele
pajé, por exemplo. Há construções
mais simples, em que o pajé canta o que conversam
os deuses a respeito dos humanos em geral, e outras
mais intrincadas, onde um morto cita a outro o que uma
divindade está dizendo sobre um vivente (que
não o pajé) etc.
As músicas dos deuses nada têm
de sagradas ou esotéricas. Após terem
sido cantadas por um pajé, podem ser repetidas
por qualquer pessoa, e muitas vezes viram sucessos populares.
Só quem não pode repetir um canto é,
precisamente, o pajé que o cantou pela primeira
e única vez.
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