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Quando uma família decide oferecer
uma festa de cauim, avisa a toda a aldeia, e pede quanta
panela houver, de todas as casas. Inicia então
a labuta: marido e mulher pilam milho, cozinham-no,
a mulher mastiga a massa (para fermentar) e coa o mingau.
O casal deve manter abstinência sexual durante
todo este período, ou o mingau não fermentará.
O marido sai menos para caçar, indo todo o dia
à roça buscar milho. As panelas cheias
vão sendo enfileiradas dentro da casa, ao longo
das paredes.
Ninguém de fora deve olhar o cauim fermentando,
ou o processo desanda. Todas as noites, dança-se
no pátio do anfitrião, para "fazer esquentar
o cauim" - uma referência não só
ao cozimento do mingau, mas ao processo de fermentação,
que libera uma considerável quantidade de calor.
As manhãs são marcadas pelo consumo coletivo
do hati pe, o bagaço azedo que é
separado do líquido em fermentação.
Entrementes, o dono do cauim convida um homem
para ser o cantador da festa; ele será também
o líder da caçada ritual que precede a
cerimônia. Quando todo o mingau já foi
processado e está a fermentar, o dono avisa ao
cantador que é tempo de sair para a caçada,
dita kã'i mo-ra, "fazer
fermentar o mingau".
A expedição de caça reúne
todos os homens da aldeia, com exceção
do anfitrião, que deve permanecer na aldeia zelando
pela fermentação da bebida, e do pajé
que estiver encarregado de realizar a cerimônia
do "serviço do cauim" (kã'i
dokã).
Liderados pelo cantador, os homens partem.
Na aldeia, ficam as mulheres a torrar milho e recolher
lenha para a carne que virá. Toda noite, elas
dançam no pátio do anfitrião, lideradas
pela esposa do cantador. Essas danças são
arremedos jocosos do opirahë
masculino: as canções araweté,
de dança ou de pajelança, são sempre
de autoria masculina, pois só os homens são
guerreiros e pajés, e só eles podem trazer
os Maï à terra. Por isso,
as mulheres podem apenas repetir as canções
masculinas, jamais compondo novas canções.
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A pajelança chamada "serviço do
cauim" realiza-se tarde da noite, na véspera
da chegada dos caçadores. As panelas são
trazidas de dentro da casa do dono, colocadas em seu
colo, e esvaziadas pelos Maï e almas
de mortos trazidas pelo pajé para tomar a bebida.
O pajé narra uma festa de cauim invisível,
onde os Maï e os mortos se atropelam
em volta das panelas, bebendo até à saciedade.
Essa cauinagem mística é assistida pelas
mulheres, que depois contam a seus maridos o que disseram
os visitantes celestes. O cauim alcoólico será,
quando tomado no dia seguinte pelos homens, definido
como Maï dëmïdo
pe, "ex-comida dos deuses". Essa é a mesma
expressão que designa os mortos celestes, que
foram devorados pelos Maï ao chegar
ao céu e em seguida ressuscitados por estes.
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Horas antes da festa, os homens retornam da
caçada. Perto da aldeia, detêm-se a esperar
os retardatários e aguardam o cair da tarde.
Todos então se banham, e põem-se a fabricar
os terewo, trombetas espiraladas feitas de folíolos
de babaçu, de som cavo e pungente. Prontos, seguem
caminho, soando os terewo, que se ouvem desde
muito longe. As mulheres correm a banhar-se e embelezar-se,
e acendem as fogueiras. Ao chegar na aldeia, os homens
se dispersam silenciosos e compenetrados, indo para
suas casas. As carnes que trazem são postas sobre
moquéns ou jiraus para continuar a assar. Logo
se ouve o dono do cauim a convocar todos - em primeiro
lugar, o cantador - para uma prova da bebida que será
servida. Cai a noite. As famílias vão
para seus pátios decorar-se; essa é a
ocasião em que os Araweté se apresentam
mais enfeitados, sobretudo o cantador, com o diadema
de penas de arara, a cabeça emplumada de branco,
o rosto decorado com penas de cotinga e resina perfumada,
o corpo rebrilhando de urucum fresco: Maï
herî, "como um deus". O dono do cauim, ao
contrário, não se pinta nem se enfeita;
ele é um servidor dos convivas.
Por volta das nove horas, o cantador se levanta
em seu pátio, e começa a convocar os demais.
Chama primeiro os marakay rehã, aqueles
que dançarão a seu lado, posição
combinada durante a caçada, e que cabe a alguns
de seus apöhi-pihã, amigos cerimoniais.
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Após a chegada do cantador, que ocupa
com sua família o lugar mais próximo à
porta do anfitrião, as famílias vão-se
instalando em esteiras à volta do pátio
da festa. Aos poucos começa a dança, constantemente
interrompida pelo dono do cauim, sua esposa e filhos,
que servem cuias cheias de bebida aos dançarinos.
É ponto de honra tomar de um só gole todo
o conteúdo da cuia (meio litro). As panelas se
esvaziam rapidamente, e vão sendo amontoadas
num canto. Todos devem beber - exceto a família
dos donos da bebida, que apenas serve. Diz-se também
que parentes próximos do casal anfitrião
devem tomar pouco da bebida, sobretudo se dividem o
mesmo pátio e plantam a mesma roça de
milho. Essa norma sugere duas idéias: não
se deve tomar cauim mastigado por uma parenta próxima,
nem produzido com o milho da própria roça.
A situação atual de reunião
de todos os Araweté em uma só aldeia esconde
uma oposição que era fundamental na festa
do cauim: o cantador deveria vir sempre de uma aldeia
outra que a do dono do cauim. Essa festa reunia tradicionalmente
mais de uma aldeia, e os homens das aldeias convidadas
formavam o núcleo principal dos dançarinos,
entremeados por alguns amigos cerimoniais da aldeia
do anfitrião. O patrono do cauim encarnava a
aldeia anfitriã, o cantador as aldeias convidadas;
os co-residentes do dono da festa estariam numa situação
intermediária, dançando menos e tomando
menos cauim que os convidados. Os co-residentes do casal
patrono, contudo, também saíam para caçar;
como hoje, apenas o dono do cauim ficava na aldeia,
para acompanhar a fermentação.
Voltemos à festa. Com o passar do tempo
e das sucessivas rodadas de cauim, os dançarinos
vão-se embriagando, e algumas mulheres se animam
a dançar. Os homens vomitam o cauim que lhes
é implacavelmente servido; o maracá do
cantador, os aray dos pajés (que podem
estar, em diferentes locais do pátio, fechando
o corpo de crianças pequenas para que seus pais
possam beber sem prejudicá-las), os cantos de
uns e dos outros se misturam; ouvem-se gritos e risadas.
Alguns começam a chorar desesperadamente, os
mais velhos porque lembram dos filhos mortos, outros
apenas balbuciam frases sem nexo. Quando se está
bêbado de cauim, dizem os Araweté, espigas
de milho ficam a girar diante de nossos olhos, entontecendo-nos.
A cauinagem termina às primeiras luzes
da aurora; poucos restam de pé. O cantador é
sempre o último a se retirar do terreiro. Se
ainda sobraram panelas de cauim, no dia seguinte a festa
tem de continuar. No cair da tarde os homens se reúnem
dentro da casa do dono, e ali ficam cantando e bebendo
até que o sol se ponha. Só então
se transferem para o pátio, onde cantam até
a última gota da bebida ser servida. Exaustos
- nem todos agüentam essa segunda rodada -, dispersam-se;
é o fim da festa.
Durante a festa do cauim, ninguém come
nada - nisso os Araweté se parecem mais uma vez
com os Tupinambá, que chamaram a atenção
dos primeiros observadores europeus (vindos de uma civilização
onde se tomava vinho durante as refeições)
por jamais beberem enquanto comiam e vice-versa. No
dia seguinte à festa, as mulheres dos caçadores,
lideradas pela esposa do cantador, vão até
a casa da dona do cauim e lhe entregam parte da caça
trazida por seus maridos. Essa carne é o kã'i
pepikã, o "pagamento do cauim". O casal dono
do cauim irá convidar, em seguida, todos os membros
da aldeia para comer da carne que receberam; o 'pagamento',
como se vê, termina sendo repartido com aqueles
mesmos que 'pagaram': são razões sociais
que presidem a estas trocas alimentares, não
razões meramente econômicas.
Valores simbólicos da cauinagem
Por trás dessa festa aparentemente confusa
e tumultuada, existe uma série de associações
simbólicas importantes: o cauim é uma
bebida carregada de significados. Vejamos, em primeiro
lugar, o papel do dono do cauim. Ele ocupa uma posição
feminina: dedicado ao milho, não caça,
não dança, não bebe. Por outro
lado, seu papel é uma síntese de dois
estados masculinos típicos: o do pai de criança
pequena, e o de homem em trabalho de fabricação
de filho. Como o primeiro, ele não pode ter relações
sexuais, nem deve sair da aldeia; como o segundo, ele
"esquenta o cauim", cozinhando-o e zelando por sua fermentação,
como um homem deve "esquentar o feto" por meio de cópulas
freqüentes com sua mulher, um processo indispensável
à boa gestação. (Os Araweté,
como a maioria dos outros povos indígenas brasileiros,
sustentam que um só ato sexual não é
suficiente para uma boa concepção: o feto
é literalmente fabricado por um aporte constante
de sêmen paterno durante os primeiros meses da
gestação).
Os Araweté não me traçaram
paralelos explícitos entre a fermentação
do cauim e a gestação. Mas há uma
série de associações entre esses
dois processos. Em primeiro lugar, tanto a fermentação
quanto a gestação fazem-se através
das mulheres, e são vistas como transformações
(heriwã) de uma matéria-prima:
o sêmen masculino, matéria exclusiva da
criança (os Araweté sustentam que a mulher
não contribui com nenhuma substância na
formação do filho), é transformado
no útero materno; o milho cozido com água
transforma-se em cauim na boca da mulher que o mastiga.
Por isso, aliás, uma mulher menstruada não
pode mastigar cauim, e se uma dona do cauim que estiver
grávida abortar durante a fabricação
da bebida, esta deve ser jogada fora. Os pais de crianças
pequenas não podem ter relações
sexuais nem tomar cauim: a criança se encheria
com o sêmen paterno ou com o cauim tomado, engasgando-se
e morrendo sufocada.
Vê-se uma oposição entre
sêmen e cauim que reforça sua ligação:
o primeiro vai dos homens para as mulheres, mas o segundo
vai das mulheres - que o mastigam, e que quase não
bebem - para os homens. A cauinagem é a única
ocasião em que as mulheres (ou o casal anfitrião,
que ocupa uma posição feminina) servem
os homens. Cheios de cauim, os dançarinos incham
e dizem ficar barrigudos como as mulheres grávidas.
Tem-se como um processo de 'inseminação
artificial', onde o cauim surge como uma espécie
de sêmen feminino.
Por seus efeitos entontecedores, o cauim é
ainda comparado ao timbó, a liana usada pelos
Araweté como veneno de pesca. Diz-se que o cauim
é um "matador de gente" como o timbó é
um "matador de peixe": "na cauinagem ficamos como os
peixes, bêbados de timbó". A comparação
é boa, pois o timbó não é
veneno propriamente, mas um narcótico: se os
peixes não forem capturados enquanto tontos,
reanimam-se e escapam. Esse caráter de veneno
atenuado do cauim de milho tem uma expressão
proverbial: "o suco da mandioca brava nos mata de verdade,
o do milho não".
Outra associação do cauim é
com o leite materno: o leite é dito ser o "cauim
das crianças". Por isso, os pais de criança
de peito devem submetê-las à operação
de "fechamento do corpo" executada por um pajé:
caso contrário, o cauim, este leite dos adultos,
passa para o corpo da criança e a mata. Tal associação
entre o cauim e o leite reforça-se quando recordamos
a posição 'nutriz' das mulheres diante
dos homens, durante a cerimônia. Note-se ainda
que é comum as mães alimentarem seus bebês
com comida previamente mastigada por elas - como o cauim
o é. Sêmen feminino, veneno suave, leite
azedo, o cauim é uma bebida que condensa diversas
evocações simbólicas.
Finalmente, a principal referência da
cauinagem é a guerra. A caçada cerimonial
que precede a festa é simbolicamente uma expedição
guerreira. O cantador, líder da caçada,
é um guerreiro; um dos apelidos jocosos dados
aos inimigos é kã'i nãhi,
"tempero do cauim" - isto é, aquilo que lhe dá
sabor, que o anima. Isto evoca o fato de que a morte
de um inimigo na guerra era sempre comemorada com uma
grande cauinagem, onde o guerreiro que matou o inimigo
oficiava como cantador.
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