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A agricultura é a base da subsistência
araweté, sendo o milho o produto dominante de
março a novembro, e a mandioca no período
complementar. De todo modo, há uma predominância
absoluta do cultivo do milho sobre o da mandioca, o
que distingue o grupo dos demais Tupi-Guarani amazônicos.
O milho é consumido como mingau de milho verde,
farinha de milho, mingau doce, paçoca de milho
e mingau alcoólico. Este último (cauim)
é o foco da maior cerimônia, que se realiza
várias vezes durante a estação
seca. Planta-se também batata-doce, macaxeira,
cará, algodão, tabaco, abacaxi, cuieiras,
curauá (uma bromeliácea usada para cordoaria),
mamão, urucum.
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A caça também é objeto
de intenso investimento cultural. Os Araweté
caçam uma grande variedade de animais; em ordem
aproximada de importância alimentar, temos: jabotis;
tatus; mutuns, jacus; cotia; caititu; queixada; guariba;
macacos-pregos; paca; veados; inhambus; araras, jacamins,
jaós; anta. Tucanos, araras, o gavião-real
e outros gaviões menores, os mutuns, o japu e
dois tipos de cotingas são procurados também
pelas penas, para flechas e adornos. As araras vermelha
e canindé, e os papagaios, são capturados
vivos e criados como xerimbabos na aldeia. (Em 1982,
a aldeia tinha 54 araras criadas soltas.)
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As armas de caça são o arco de
madeira de ipê, admiravelmente bem trabalhado,
e três tipos de flecha. As armas de fogo foram
introduzidas em 1982, e seu uso tem levado à
diminuição da população
animal nos arredores, obrigando os Araweté a
cobrirem um raio maior de território.
A pesca se divide em dois períodos: a
estação de pesca com o timbó, em
outubro-novembro, e os meses de pesca cotidiana, feita
com arco e flecha ou anzol e linha. Embora o peixe seja
alimento valorizado, é-o menos que a carne de
caça, e a pesca é uma atividade principalmente
exercida por meninos e mulheres (exceto as pescarias
coletivas com timbó). Os Araweté são
índios da terra firme: a maioria das pessoas
mais velhas não sabe nadar. A água de
beber e cozinhar é retirada de cacimbas abertas
na margem arenosa dos cursos d'água ou nos açaizais.
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A coleta é uma atividade importante.
Seus principais produtos alimentares são: o mel,
de que os Araweté possuem uma refinada classificação,
com pelo menos 45 tipos de mel, de abelhas e vespas,
comestíveis ou não; o açaí
(Euterpe oleracea); a bacaba (Œnocarpus
sp.); a castanha-do-Pará (Bertholetia excelsa),
importante na época das chuvas; o coco-babaçu
(Orbygnia phalerata), comido e usado como liga
do urucum, e para ductilizar a madeira dos arcos; e
frutas como o cupuaçu (Theobroma grandiflorum),
o frutão (Lucuma pariry), o cacau-bravo
(Theobroma speciosum), o ingá (Inga
sp.), o cajá (Spondias sp.), e diversas
sapotáceas. Destaquem-se ainda os ovos de tracajás
(Podocnemis sp.), objeto de excursões
familiares às praias do Ipixuna em setembro,
e os vermes do babaçu (Pachymerus nucleorum),
que podem também ser criados nos cocos armazenados
em casa. Dentre os produtos não-alimentares da
coleta, podem-se registrar: as folhas e talas de babaçu
para a cobertura das casas, esteiras, cestos; a bainha
das folhas de inajá (Maximiliana maripa),
açaí e babaçu, que servem de recipientes;
dois tipos de cana para flecha; o taquaruçu para
a ponta das flechas de guerra e caça grossa;
a taquarinha e outras talas para as peneiras e o chocalho
de xamanismo; a cuia silvestre para o maracá
de dança; madeiras especiais para pilões,
cabos de machado, arco, pontas de flecha, esteios e
vigas das casas, paus de cavar, formões; enviras
e cipós para amarração; e barro
para uma cerâmica simples, hoje em desuso com
a introdução das panelas de metal.
Os trabalhos e os dias
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A vida social e econômica dos Araweté
bate em compasso binário: floresta e aldeia,
caça e agricultura, chuva e seca, dispersão
e concentração.
Nas primeiras chuvas de novembro-dezembro, planta-se
a roça de milho. À medida que cada família
termina de plantar, vai abandonando a aldeia pela mata,
onde ficará até que o milho esteja em
ponto de colheita - um período de cerca de três
meses. Os homens caçam, estocam jabotis, tiram
mel; as mulheres coletam castanha-do-Pará, coco-babaçu,
larvas, frutas, torram o pouco milho velho da colheita
anterior que trouxeram. Essa fase de dispersão
é chamada de awacï mo-tiarã,
"fazer amadurecer o milho" - diz-se que, caso não
se vá para a mata, o milho não vinga.
Em fevereiro- março, após várias
viagens de inspeção às roças,
alguém finalmente traz os cabelos do milho verde
ao acampamento, mostrando a maturidade da planta. Faz-se
aí a última grande pajelança do
jaboti - atividade típica da estação
chuvosa - e a primeira grande dança opirahë,
característica da fase aldeã que está
para se iniciar. Esse é o "tempo do milho verde",
o começo do ano araweté.
Apenas quando todas as famílias já
chegaram na aldeia se faz a primeira pajelança
de cauim (mingau de milho) doce, a que outras se seguem.
O milho de cada festa é colhido coletivamente
na roça de uma família, mas processado
por cada unidade residencial da aldeia. Essa é
também uma época em que as mulheres preparam
grandes quantidades de urucum, dando à aldeia
uma tonalidade avermelhada geral. A partir de abril-
maio as chuvas diminuem, e se estabiliza a fase de vida
aldeã, marcada pela faina incessante de processamento
do milho maduro, que fornece a paçoca mepi,
base da dieta da estação seca.
De junho até outubro estende-se a estação
do cauim alcoólico, que recebe seu nome: kã'i
da me, "tempo do cauim azedo". É o auge da
seca. As noites são animadas pelas danças
opirahë, que se intensificam
durante as semanas em que se prepara o cauim. Essa bebida
é produzida por uma família ou seção
residencial, com o milho de sua própria roça.
Pode haver vários festins durante a estação
seca, oferecidos por diferentes famílias. Eles
costumavam reunir mais de uma aldeia - quando os Araweté
possuíam diferentes grupos locais- e ainda são
o momento culminante da sociabilidade. A festa do cauim
alcoólico é uma grande dança opirahë
noturno em que os homens, servidos pela família
anfitriã, dançam e cantam, bebendo até
o dia seguinte.
Na fase final de fermentação da
bebida - o processo todo dura uns vinte dias - os homens
saem para uma caçada coletiva. Retornam uma semana
depois, trazendo muita carne moqueada, o que os dispensará
de caçar por vários dias. Na véspera
da chegada dos caçadores há uma sessão
de descida dos Maï e das almas dos
mortos, trazidos por um pajé para provarem do
cauim.
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A partir de julho-agosto começam a aumentar
a freqüência e a duração dos
movimentos de dispersão. As famílias se
mudam para as roças, mesmo que essas não
distem muito da aldeia, e ali acampam por uma quinzena
ou mais. É a estação de "quebrar
o milho", quando se colhe todo o milho ainda no pé
e se o armazena em grandes cestos, depositados sobre
jiraus na periferia das roças. Dali as famílias
se vão abastecendo até o final da estação
seca, quando os cestos restantes são levados
para o novo sítio de plantio.
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Essa temporada na roça reúne em
cada acampamento mais de uma família conjugal
- seja porque a roça pertence a uma seção
residencial (conjunto de famílias aparentadas
que moram próximas entre si na aldeia), seja
porque os donos de roças próximas decidem
acampar juntos. Durante a quebra do milho, os homens
saem todo dia para caçar, enquanto as mulheres
e crianças colhem as espigas, fazem farinha,
tecem; essa é também a época da
colheita do algodão.
Tais temporadas na roça são vistas
como muito agradáveis. Depois de cinco ou seis
meses de convivência na aldeia, os Araweté
parecem ficar inquietos e entediados. Nos acampamentos
de roça as pessoas ficam mais à vontade,
conversam livremente sem medo de serem ouvidas por vizinhos
indiscretos.
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Durante o auge da estação seca,
dificilmente se passa mais de uma semana sem que um
grupo de homens decida realizar uma expedição
de caça, quando dormem fora de uma a cinco noites.
São comuns também, a partir de agosto,
as excursões de grupos de famílias, para
pegar ovos de tracajá, pescar, caçar,
capturar filhotes de arara e papagaio. Exceto nos meses
de março a julho, é muito raro haver dias
em que todas as famílias estão dormindo
na aldeia.
A partir de setembro, a estação
do cauim começa a dar lugar ao tempo do açaí
e do mel. A chegada dos espíritos Iaraci
(o "comedor de açaí") e Ayaraetã
(o "pai do mel"), trazidos à aldeia pelos pajés,
provoca a dispersão de todos para a mata em busca
dos produtos associados a esses espíritos.
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Em outubro-novembro, com as águas dos
rios em seu nível mais baixo, fazem-se as pescarias
com timbó, que também levam à fragmentação
da aldeia em grupos menores.
A dispersão criada por todas essas atividades
de coleta e pesca, porém, é mais uma vez
contrabalançada pelas exigências do milho.
Em setembro começa a derrubada das roças
novas; no final de outubro, a queimada; e logo às
primeiras chuvas de novembro-dezembro, o plantio, logo
antes da dispersão das chuvas. Antes de partirem
para a mata, colhe-se a mandioca, cuja farinha servirá
de complemento à caça e ao mel da dieta
da mata.
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Este é o ciclo anual araweté:
um constante oscilar entre a aldeia e a floresta, a
agricultura e a caça-coleta, a estação
seca e a chuvosa. A vida na aldeia está sob o
signo do milho, e de seu produto mais elaborado, o cauim
alcoólico; a vida na mata está sob o signo
do jabuti (a caça dominante na estação
chuvosa) e do mel.
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