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O casamento não é objeto de nenhuma
cerimônia, e a acelerada circulação
matrimonial dos jovens faz dele um negócio corriqueiro.
No entanto, sempre que uma união se torna pública
com a mudança de domicílio de alguém,
produz-se uma sutil comoção na aldeia. O
novo casal começa imediatamente a ser visitado
por outros casais, seu pátio é o mais alegre
e bulhento à noite; ali se brinca, os homens se
abraçam, as mulheres cochicham e riem. Dentro de
alguns dias, nota-se uma associação freqüente
entre o recém-casado e um outro homem, bem como
entre sua mulher e a mulher deste. Os dois casais começam
a sair juntos à mata, a pintar-se e decorar-se
no pátio do casal mais novo. Está criada
a relação de apihi-pihã.
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A marca característica da relação
apihi-pihã é a
"alegria": tori. Os apihi-pihã
(amigos de mesmo sexo) mantêm um convívio
de camaradagem jocosa, sem nenhuma conotação
agressiva; eles oyo mo-ori, "alegram-se reciprocamente":
estão sempre abraçados, são companheiros
assíduos na mata, usam livremente dos bens do
outro. Quando os homens da aldeia saem para as caçadas
coletivas, as mulheres apihi-pihã
vão dormir na mesma casa. Na formação
da dança do cauim, é esse o laço
focal entre os homens. Os amigos de sexo oposto (a apihi
e o apino) recebem o epíteto
de tori pã: "alegrador".
O cimento dessa relação é
a mutualidade sexual. Os apihi-pihã
trocam de cônjuges temporariamente, segundo dois
métodos: oyo iwi ("morar junto"), pelo qual
os homens vão à noite à casa das
apihi, ocupando a rede do amigo,
e de manhã retornam para as esposas; e oyo pepi
("trocar"), pelo qual as mulheres passam a residir por
alguns dias na casa dos apino.
Em ambos os casos, porém, o quarteto é sempre
visto junto, no pátio de um dos casais. Os casais
trocados costumam sair à cata de jabotis, tomando
direções diversas; à noite se reúnem
para comer o que trouxeram. Essa mutualidade sexual, assim,
é uma alternância, não um sistema
de 'sexo grupal'.
O contexto privilegiado para a efetuação
da relação de amizade é a mata, especialmente
no período da dispersão das chuvas, quando
pares de casais assim ligados acampam juntos (no começo
da estação do mel, em setembro de 1982,
as unidades mínimas de coleta quase sempre envolviam
grupos de apihi-pihã).
Na floresta, os casais trocados saem para caçar
e tirar mel, reunindo-se à noite: "o dia é
da apihi, a noite da esposa".
As expressões "levar para caçar", "levar
para tirar mel", "levar para o mato" evocam imediatamente
os laços apihi/apino.
Para saber se um homem era mesmo apino
de uma mulher (em vez de simples amante ocasional), o
critério decisivo era este: "sim, pois ele a levou
para o mato em tal ocasião". A relação
é assim orientada - o homem leva a mulher à
floresta, domínio masculino. A floresta, o jaboti
e o mel são os símbolos da 'lua de mel'
Araweté, que não se faz entre esposo e esposa,
mas entre apihi e âpino;
e não envolve um, mas dois casais.
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O ciúme está por definição
excluído desta relação; ao contrário,
ela é a única situação de
extra-conjugalidade sexual que envolve seu oposto, a cessão
benevolente do cônjuge ao amigo. Mesmo entre irmãos,
que têm acesso potencial aos respectivos cônjuges,
há margem para ciúmes reprimidos e para
desequilíbrios: um homem pode freqüentar a
esposa do irmão sem que o mesmo saiba, queira ou
retribua. Já a relação apihi-pihã
pressupõe a ostensividade e a simultaneidade: é
uma relação ritual de mutualidade.
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O complexo simbólico da relação
apihi-pihã é absolutamente
central na visão de mundo araweté. Ter
amigos é sinal de maturidade, assertividade,
generosidade, força vital, prestígio.
A apihi é 'a mulher',
pura positividade sexual, sem o fardo da convivência
doméstica. E um apihi-pihã
é mais que um irmão, em certo sentido;
é uma conquista sobre o território dos
tiwã, dos não-parentes, estabelecendo
uma identidade ali onde só havia diferença
e indiferença: é um amigo.
A freqüente associação econômica
entre quartetos de apihi-pihã
não envolve trabalho agrícola, para os
homens (as mulheres podem ir juntas à roça
tirar milho, pilá-lo etc.), mas a caça:
a cooperação agrícola supõe
pertencimento à mesma família extensa
ou setor residencial, o que não pode ocorrer
entre apihi-pihã. De
qualquer forma, a província por excelência
da amizade é a mata no período em que
o milho "oculta-se" (ti'î, como se diz
também da lua nova). É clara a compensação
entre a amizade e a uxorilocalidade: para o jovem recém-casado,
o amigo é o contrário do sogro em cuja
roça ele deve trabalhar. Nas festas, os apino
e apihi se pintam, enfeitam
e perfumam mutuamente; quando se vê um quarteto
profusamente decorado, com muitos brincos, a cabeça
emplumada de branco, o corpo brilhando de urucum, rindo
e se abraçando, não há dúvida:
são apihi-pihã.
Caça, dança, sexo, pintura, perfume, o
mundo dos apihi-pihã
é um mundo ideal. No céu, a relação
entre os deuses e as almas dos mortos é sempre
representada pela amizade sexual. Os mortos se casam
no céu com os Maï, têm
filhos, vivem como aqui. Mas os cantos xamanísticos
sempre põem em cena as almas acompanhadas de
seus apino ou apihi
celestes - como convém às ocasiões
festivas. Um dos eufemismos para a morte de alguém
alude a este caráter celestial da amizade: "iha
ki otori pã kati we" - "ele se foi, para
junto de seu 'alegrador'".
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Um casal pode ter mais de um outro associado
como apihi-pihã, e não
há nenhum adulto na aldeia que não chame
pelo menos uma meia-dúzia de gente pelos termos
da amizade. Mas essas relações se atualizam
consecutivamente; é raro que um casal tenha mais
que um só outro como parceiro ativo em um dado
momento, devido à dedicação exigida
pela amizade. As relações não são
transitivas: os amigos de meus amigos não são
necessariamente meus amigos. É usual que dois
irmãos, que não podem se chamar pelos
termos de amizade nem partilhar cônjuges, tenham
casais de amigos em comum. Trata-se portanto de uma
relação diádica e local, envolvendo
os casais da aldeia numa rede que se superpõe
à teia de parentesco.
Recasamentos por viuvez ou divórcio
suscitam a necessidade de se decidir sobre a renovação
dos laços de amizade. Se um membro do quarteto
morre, é considerado desejável que se
reatualizem as relações, promovendo uma
troca oyo iwi.
Não é incomum que as trocas temporárias
de cônjuges terminem virando definitivas. Aí
se diz em sentido próprio que os homens trocaram
(oyo pepi) de esposas. A troca definitiva desfaz
a relação, que perde o seu sentido.
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Embora a relação de amizade envolva
dois casais e centre-se no acesso sexual ao cônjuge
do amigo, os laços entre parceiros de mesmo sexo
são os fundamentais; são eles que persistem
preferencialmente após viuvez ou divórcio,
e que precisam ser reatualizados. O amigo de sexo oposto
é sobretudo um meio de se produzir um apihi-pihã
- e isso vale particularmente para os homens. Se um
cunhado é o que não se pode deixar de
'obter' ao se conseguir uma esposa, um amigo é
o que se quer obter ao se estabelecer relações
com uma apihi.
Os apihi-pihã
são recrutados entre os tiwã, por
definição: isto é, transformam
em tiwã aqueles que assim se ligam. Irmãos
reais não podem ser amigos. Os Araweté
sempre me corrigiam, quando eu designava dois irmãos
por apihi-pihã por constatar
que haviam trocado (definitiva e domesticamente) de
esposas: "apenas aos tiwã é que
chamamos apihi-pihã".
Essa distinção é importante, pois
um tiwã é o oposto de um irmão,
mas quando um dos primeiros é transformado em
amigo, ele partilha de uma semelhança com o irmão,
o acesso lícito às respectivas esposas.
Há, enfim, duas relações
centrais no mundo social araweté: entre irmão
e irmã, e entre amigos de mesmo sexo. A primeira
se caracteriza pela solidariedade e respeito, e é
o ponto de apoio da afinidade e da reciprocidade; a
segunda pela liberdade e camaradagem, e é o foco
da mutualidade. As relações entre cunhados
e irmãos de mesmo sexo são pouco marcadas,
mas parecem ocultar antagonismos latentes - como demonstra
o apoio do germano de sexo oposto nas querelas conjugais,
e a competição e ciúmes velados
que juntam e opõem irmãos frente às
mesmas mulheres. A relação entre marido
e mulher opõe-se àquela entre irmão
e irmã por manifestar livremente os dois aspectos
interditos nesta: sexo e hostilidade. Já a relação
entre amigos de sexo oposto é idealmente positiva
(e, positivamente, ideal): apino
e apihi não brigam, ou
deixam automaticamente de estar nessa relação.
Finalmente, a "alegria" da amizade entre amigo e amiga
se opõe ao "medo-vergonha" (respeito) entre irmão
e irmã.
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