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Os Araweté parecem viver em aldeias por
causa do milho; todos os seus movimentos de reunião
em um só lugar se fazem em função
das exigências do cultivo desta planta. Isso já
se mostra na instalação de uma nova aldeia.
Se toda roça foi, antes, mata, toda aldeia foi,
antes, roça. Quando um grupo decide mudar-se
para outro lugar, abre primeiro as roças de milho,
e se instala no meio delas. Com o passar do tempo e
das safras as plantações vão recuando,
e resta uma aldeia.
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Ao contrário das aldeias dos povos indígenas
do Brasil Central, com suas casas geometricamente dispostas
em círculo em torno de um pátio cerimonial,
a aldeia araweté dá a impressão
inicial de um caos. As casas são muito próximas
umas das outras, não obedecendo a nenhum princípio
de alinhamento; os fundos de umas são os pátios
fronteiros de outras; caminhos tortuosos atravessam
a aglomeração, entre moitas de árvores
frutíferas, troncos caídos e buracos.
Cascos de jaboti e resíduos da faina do milho
estão em toda parte; o mato cresce livremente
onde pode, as fronteiras entre o espaço aldeão
e a capoeira circundante são vagas.
Em 1982, quando passei meu mais longo período
entre os Araweté, apenas três das então
45 casas da aldeia estavam ainda construídas
ao modo 'tradicional': pequenas choupanas inteiramente
cobertas de folhas de babaçu, sem distinção
teto-parede, com diminutas portas dianteiras fechadas
com esteiras. As demais seguiam o estilo camponês
regional: paredes de taipa, telhado de folha de babaçu,
planta retangular. Alguns princípios da arquitetura
pré-contato foram mantidos, porém, como
a ausência de janelas e o pequeno tamanho da porta.
Em março de 1992, a aldeia contava com 55 casas,
todas construídas nesse novo estilo, que também
corresponde à totalidade das casas da aldeia
atual.
Os moradores de uma casa formam uma família
conjugal: um casal e seus filhos até 10-12 anos.
Nessa idade, os meninos constróem pequenas casinhas
iguais às dos pais, próximo a estas, e
ali dormem sozinhos, embora continuem a usar o fogo
de cozinha familiar. As meninas dormem na casa dos pais
até a puberdade, quando então devem deixá-la
e casar (os Araweté sustentam que os pais de
uma menina morreriam se ela menstruasse em sua casa
natal).
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Cada residência possui um hikã
ou terreiro, uma área mais ou menos limpa de
mato em frente ou ao lado da porta. É ali que
ficam alguns instrumentos - pilões, tachos, panelas
-, e que se trabalha de dia, torrando milho, fazendo
flechas, tecendo esteiras e roupas. Ali se cozinha,
na estação seca. O terreiro é o
lugar onde se conversa e se tomam as refeições,
e onde se recebem as visitas. É algo raro que
uma pessoa (exceto se mãe ou irmã da dona)
entre em casa alheia. À noite trancam-se as portas,
veda-se qualquer pequena abertura nas paredes, para
que os espíritos perigosos que rondam a aldeia
não entrem.
Mas a desordem espacial da aldeia é
apenas aparente. Embora cada casa conjugal tenha seu
próprio terreiro, grupos de casas tendem a dividir
um espaço comum, fundindo seus diferentes pátios
em uma área contínua. A aldeia é
uma constelação desses pátios maiores,
que são o cenário principal da vida cotidiana.
Tais setores da aldeia que se congregam em torno de
um mesmo pátio estão organizados de acordo
com a unidade social básica araweté, a
família extensa uxorilocal (forma de residência
pós-marital onde o homem vai residir junto à
família da mulher): um casal mais velho, seus
filhos solteiros de ambos os sexos e suas filhas casadas,
genros e netos. Isto não quer dizer que cada
setor da aldeia seja ocupado sempre por casas de pessoas
ligadas dessa forma. Na verdade, os arranjos residenciais
araweté são bastante variados, assim como
a distinção entre os diferentes setores
nem sempre é espacialmente clara.
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Os setores residenciais da aldeia podem ser
divididos em dois tipos: aqueles formados por famílias
com duas gerações de membros casados (cujo
modelo é a família extensa uxorilocal),
e aqueles formados por grupos de irmãos (irmãos
e/ou irmãs) casados, com filhos ainda pequenos.
O primeiro tipo forma unidades espacialmente mais compactas
e socialmente mais integradas, voltando-se de fato para
um pátio comum; o segundo é antes composto
por pátios próximos ou adjacentes. Esses
dois tipos de setor representam dois momentos no ciclo
de desenvolvimento temporal das famílias: se
a tendência após o casamento é idealmente
uxorilocal, com o passar do tempo e a morte do casal
mais velho pode-se observar um movimento de reunião
espacial de irmãos casados, que se mudam com
seus respectivos cônjuges. Como também
é comum o casamento entre grupos de irmãos
- dois irmãos casando-se com duas irmãs,
ou um par irmão/irmã unindo-se a outro
par -, muitas vezes os dois tipos de setor residencial
se encontram combinados.
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Os setores formados por famílias extensas
tendem a abrir uma só roça, que abastece
todas as casas do setor; essa roça é identificada
ao casal mais velho (os sogros dos homens casados e
pais das mulheres). Nos setores compostos por grupos
de irmãos adultos, cada casa abre sua própria
roça, em geral adjacente às dos outros
irmãos.
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O que sobressai, na estrutura da aldeia araweté,
é seu pluricentrismo, isto é, a ausência
de um espaço 'público', cerimonial e centralmente
situado. A aldeia parece um agregado de pequenas aldeias,
'bairros' de casas voltados para si mesmos. A festa
do cauim fermentado, a mais importante cerimônia
araweté, é sempre realizada no pátio
da família que oferece a bebida. A oferenda alimentar
mais perigosa, a de açaí com mel para
o canibal celeste Iaraci, é
feita no pátio do pajé encarregado de
"trazer" esse espírito. Ou seja: a organização
cerimonial, se efetivamente contribui para unir a comunidade
local, não chega a constituir um centro marcado
por um simbolismo religioso. A pajelança cotidiana
tampouco se realiza em qualquer espaço comunal.
O templo de um pajé é sua casa: é
ali que ele sonha e canta à noite, saindo para
seu próprio pátio quando os Maï
descem. Se precisa devolver a alma de alguém,
vai ao pátio do paciente, ou à beira do
rio (quando o ladrão de alma é o espírito
Iwikatihã, o Senhor da água).
Entre os Araweté, portanto, não só
não se acham as 'casas cerimoniais' de outros
povos tupi-guarani, como tampouco o sistema das 'tocaias',
pequenas tendas de palha onde os pajés recebem
os espíritos, presente em quase todos os Tupi-Guarani
da Amazônia.
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Tudo isto sustenta esta conclusão: a
aldeia é uma forma derivada, um resultado e não
uma causa. Economicamente, ela é função
do milho; sociologicamente, é a justaposição
de unidades menores, não seu centro organizador.
Ela é o produto do equilíbrio temporário
entre as forças centrípetas e centrífugas
dos diversos pátios.
Um dia na estação seca
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Afora alguns homens que saíram bem cedo
para caçar mutum, é só lá
pelas sete horas que a aldeia começa a se movimentar.
As famílias comem algo em seus terreiros; alguns
vão visitar o Posto; outros passeiam por pátios
vizinhos, informando-se dos planos dos demais; outros
se quedam trabalhando: nessa época, desde cedo
as mulheres descaroçam e batem os flocos de algodão,
fiam e tecem. A família então decide o
seu dia. O homem sai para caçar, em geral com
dois ou três companheiros; se não, vai
ajudar a mulher a torrar milho, ou sai com ela à
roça, buscar milho e batata, aproveitando para
caçar nos arredores. Ao meio-dia a aldeia está
vazia. Quem foi à roça já voltou
e está dentro de casa, fugindo do sol forte.
O calor da tarde começa a amainar às
quatro; a aldeia se reanima. As mulheres pilam milho,
recolhem lenha, buscam água, à espera
dos caçadores. Os homens que ficaram na aldeia
ajudam no serviço do milho, ou trabalham na feitura
e manutenção de suas armas.
Entre as cinco e seis horas, já escurecendo,
vão chegando os caçadores. Sozinhos ou
em grupo, entram apressados e silenciosos, ignorando
os comentários que sua carga desperta nos pátios
por onde passam, só parando no terreiro de suas
casas. Vão-se então banhar, enquanto as
mulheres acendem as fogueiras para a refeição
noturna. Quando a caçada do dia foi abundante,
a animação toma conta de todos. Quem não
está ocupado em cozinhar passeia pelos pátios,
observando o que lá se prepara. As crianças
correm, dançam e brincam pela aldeia; as araras
gritam estridentemente, e seus donos começam
a recolhê-las.
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No cair da noite começa uma ronda gastronômica
de pátio em pátio. Quando a carne é
muita, isto se estende até as dez horas ou mais,
cada família convidando, sucessivamente, as outras.
Os homens dão gritos agudos e prolongados, convocando
os moradores de outros setores residenciais a comer
o porco, o mutum ou o tatu que se prepara. As famílias
vão-se reunindo no pátio do anfitrião,
trazendo ou não seus filhos pequenos, conforme
as estimativas da comida disponível. Cada casal
que chega traz seu próprio cesto com paçoca
de milho. Todos se sentam em esteiras no chão,
perto da carne; tagarela-se, ri-se, a balbúrdia
é geral.
Sigamos a marcha do dia. Após as refeições
noturnas, a aldeia começa a silenciar. As famílias
voltam para seus pátios, onde se deitam a conversar.
Por volta da meia-noite, quase todos já estão
dentro de suas casas - a menos que uma dança
opirahë esteja sendo
realizada em algum lugar da aldeia.
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